8 August 2010

Era uma vez um viajante...

Sugestionada pelo dia de hoje, por tudo o que já li e ouvi sobre o dia dos pais, me deu vontade de desabafar aqui, sobre o meu, ausente fisicamente, ao longo dos últimos 28 anos de nossas vidas.

No café da manhã, a música "PAI" não saiu da cabeça, muito menos da boca. Ele me viu ensaiando ela, pra cantar pra ele, no último dia dos pais que passamos juntos, em 1982. E sorriu pra mim, pequena, cantando baixinho, com doze anos, escondida na sala de porta estilo "bang bang", na última casa que moramos, aqui em Vitória da Conquista. E por isso fico comovida ao ouvir essa canção forte, de um filho que canta pro seu pai ausente. A parte mais linda é aquela que diz "vem brincar de vovô com meu filho...". Impossível, não é?

Quando aguardávamos ele, de suas viagens semanais, me lembro que chegava no final da tarde, carregado de verduras, carnes, ovos, além das roupas sujas. Antes de aportar e buzinar para abrirmos a garagem, fazia uma espécie de "ronda" pela vizinhança. Por lá também buzinava, presenteando a todos com suas "produções", da nossa saudosa Fazenda Laranjeira, terra fértil, que nos alimentou por tantos anos. Engraçado é que hoje, passo pelos mesmos lugares que ele passava, em volta da faculdade onde trabalho. Fico tentando refazer os caminhos traçados por ele, tentando trazê-lo de volta em meus dias.

Relembro que nesses tempos, a minha avó materna, vozinha querida, morava conosco. Era apaixonada por ele, como se filho dela fosse. E sempre o aguardava no portão. Era sempre recebido com festa. Chegava sorridente, querendo saber tudo o que aconteceu, desde a sua partida. E contávamos as novidades em volta dele, sentados à mesa, na cozinha dos fundos, que tinha um fogão a lenha. Era o lugar predileto de todos. Não usávamos a cozinha de armários bonitos e azulejos coloridinhos. Era pra lá que íamos comer, rir e festejar a chegada do homem da casa, que liderava, impressionava e divertia a todos com sua vivacidade e amor pelo trabalho.

O meu pai também era autoritário, firme, ciumento, sério, mas muito justo. Vascaíno de coração, como o são seus três filhos. Ele gostava de politica. Odiava toda a família ACM. Por causa 'dele', tinha raiva de Salvador. Dizia que se tivéssemos que morar em outro lugar, que fosse em Feira de Santana ou Belo Horizonte. Não cumprimos sua vontade. A família está espalhada. Mas suas convicções e ética ficaram preservadas.

O Senhor Waldemar de Carvalho Santana foi tropeiro por muitos tempos. Viajava a cavalo, por longas horas, fazendo comércio com animais, de uma região para outra. Eu não me lembro das suas histórias, infelizmente. Mas ele as contava na hora do almoço. E dizia coisas do tipo "Estão vendo esse feijão? É da roça. Precisam dar valor, e comer com vontade. Nada de desperdiçar..."

Suas ideias ainda estão muito vivas. Me espelho em meu pai, ser humano talentoso, que tinha um olhar doce e envolvia a todos com sua conversa inteligente. Sua letra era linda. Me pediu para ser professora. E não é que eu atendi o seu desejo? Que coisa...

Me acompanha em tudo o que faço ou projeto. Viaja comigo e me protege em todos os lugares. E eu? Acho que sou tropeira, como ele.

28 comments:

  1. Como me senti em sua história agora... imaginei cada momento que descreve aqui. Apesar de não ter conhecido meu pai, por perdê-lo com apenas um ano de idade, sinto a presença dele em minhas realizações, no colo que tenho quando preciso, no ombro amigo pra chorar...
    Agradeço sempre a ele, por estar comigo a todo momento. E aqui, vejo que você jamais irá esquecer do seu...
    Linda história, tanto quanto a escritora...
    bjos Kika.

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  2. oi ju. abraços para vc. humberto

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  3. Oi Kiko, seja bem vindo, passageiro! Os pais nunca abandonam os filhos...tenho certeza disso!
    Prof. Humberto...obrigada pelo carinho! Boa sorte, aí, papai!

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  4. Ju, te conheço há tanto tempo e só tinha ouvido comentários rápidos - porém positivos - do seu pai.
    Parabéns pelo o amor que perdura, pelo pai que guarda, pelo valor dessa narrativa na sua vida, hoje.
    bj.
    G.

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  5. Oi Gica... ai daqueles, coitados daqueles, que não identificam no pai ´o´exemplo, uma boa referência..isso sim, faria de mim uma eterna órfã, nesse mundo cão.
    Bj, amiga!

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  6. É isso aí, Jujuba Verde, herdamos o que nos cabe e guardamos o amor por nossos pais, referência de homens de família para nós. Compartilho seu sentimento de saudade nesse dia dos pais. Texto lindo! Bjão,

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  7. Caramba, que texto lindo. Você deve imaginar como gostei do que escreveu, já que perdi meu querido pai há pouco mais de um mês. É, minha amiga. Além de "A Viajante", leve pela vida o orgulho e a alegria de ser tropeira. Meu abraço.

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  8. Maga. Sei bem da sua saudade..espero que não tenha chorado muito hoje... ele está por perto, sempre com vc. Bj

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  9. Oi Marcelo, você (já) é um amigo querido! Suas palavras são meu conforto, muitas vezes, quando leio seus textos. Bj grande!

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  10. A ausência do meu completou, em 04/05/10, 6 anos. Recente, se comparado aos 28 seus. Mas as boas lembranças fazem com que a presença deles, os pais ausentes pela partida à pátria espiritual, se dê por completo. E assim, acompanhado pelas conversas e a educação moral através dos exemplos dele, eu me sinto. Sinto saudade, pela ausência física, é inevitável. Mas não sofro. Aprendi a esperar por um reencontro, sem ansiedade. Adorei seu texto. Abraço sincero.

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  11. Oi Gil. Também não sofro. A saudade é marcada por essas lembranças boas...sobre o reencontro, fico pensando se já está acontecendo, em cada amigo que orgulhosamente se faz presente em minha vida...não entendo disso, ainda...volta mais! Abraço, queridõ!

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  12. Oi,Ju!
    Que texto lindo! Fiquei muito tocada, pois, como você já sabe, meu pai já não está nesse plano há quase dois anos.
    Sinto falta dele, principalmente nessa data em que nos reuníamos para lembrarmos das nossas histórias.
    Hoje pensei que meu pai não vai conhecer meu filho e me deu uma tristeza danada, mas sei que, de onde ele estiver, vai vibrar por nós.
    Obrigada por sua escrita linda e sensível.
    Ah! Obrigada pelo torpedinho do dia dos pais para André...ontem ele ficou todo bobo com as comemorações...rsrs
    Beijinhos,
    Mari

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  13. Oi Mari...seu bebê terá um avô por perto, o tempo inteiro...seu sogro é um paizão, acho que pai demais, que dá pra dois...rs..agora precisará arranjar bons padrinhos...rs..Um beijo!

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  14. Que linda família de viajantes!
    Beijos do Duda

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  15. Um dos jornalistas mais espirituosos do mundo dos blogs, por aqui, deixando sua maleta de carinho...obrigada Duda! Adoro suas desilusões perdidas!! Apareça mais!

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  16. Eu,sendo a cunhadinha caçula,era muito querida por ele,passava férias naquela fazenda...uma vez fiz a traquinagem de sair para passear, a cavalo(Isa,comigo)e fui até Itarantim...uma viagem...quando chegamos levamos uma bronca merecida...minha gratidão e carinho por ele é eterna. Adorei ler seu texto,me emocionei com as lembranças e vejo que ele cumpriu muito bem sua função de pai,mesmo partindo muito cedo...onde estiver estará orgulhoso de voce.
    beijinhos,

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  17. Ai, tia...que fofa que é a senhora...meu pai te amava muito...não é a toa que foi seu padrinho de casamento...e ficou lindo todo engravatado...rs..te amo, linda! Saudade de vc, e do cheiro da sua casa, de Kim, e da orla de copacabana!

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  18. Bonita história mesmo, como tantas outras que essa pessoa conta.
    Dia dos pais é meio complicado pra mim, que tbm convivo com essa ausência há 25 anos, embora os meus motivos sejam outros, vc sabe.
    Bjo amiga, saudade!

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  19. Vovô, eternas crônicas e comentários sobre ele. Infelizmente, não tive o prazer de conhecê-lo. Mas sinto como se assim o tivesse feito. Vovô é presente em todos os seus filhos, minha mãe e meus tios,rsrsrsr.
    O texto é lindo tia. Amei...
    Beijos

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  20. Impressionante relato. Com certeza seu pai está bem representado na figura da familia.
    As idéias, a postura e a linha dele foi preservada.
    Gostei.Além de que ele é Vascaíno, né!!!

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  21. Patiinhaa...também estou com saudadeeeeeee..

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  22. Mila, seu avô ia babar com uma neta tão inteligente, tão PIBIC!!! Te amo...

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  23. Celo, adoro quando vc aporta por aqui...bj

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  24. Gerson, sério...aproveita seu velho vivo e por perto...não há nada melhor que dar carinho e ouvir os conselhos de quem nos ama...obrigada pela passagem aqui! Bj

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  25. Linda história! Essa saudade que as vezes sorri, que as vezes chora, é passageira. Esse belo homem sobre quem acabo de ter o prazer de ler um breve capítulo da vida com certeza te acompanha. Os (re)encontros são certos. Tenha certeza que ele está feliz pela filha que tem. Beijo.

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  26. Oi Luiz, passageiro cheio de bagagens...meu pai é o meu herói! Queria tanto que meus amigos tivessem conhecido ele...seria perfeito...quem sabe, um dia, em outro plano, né? Abraço!!

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