9 October 2012

eu falo por mim*

Amar a si próprio é esse movimento: não se resignar, não se conformar com o que foi feito, não mergulhar na repetição desanimada dos dias: olhar cada lembrança de frente e ver se ainda queima. Olhar cada palavra de frente e ver se ainda queima. Olhar cada atitude de frente e ver se ainda queima. 
E incendiar a nossa vida na vida do outro.

Ele começou falando de uma tal caixinha de fósforos... lendo [só] esse trecho acima, dá pra imaginar que na crônica dele, caberia um final como esse? Pois é, foi assim: que adorei me surpreender, mais uma vez, ao ler as deduções nada óbvias desse autor, que hoje escreve em forma de desabafos, por sofrer com a separação e saudade da companhia da sua amada. 
Como ele, também fico remoendo as coisas ditas, as coisas feitas, as emoções vividas. E sofro com a falta, com o silêncio do outro lado. Com o telefone que emudeceu.
Quem me lê, pensa logo assim: nossa, essa parece gostar da sofreguidão. Pior que devo gostar. Me pego curtindo, viajando e chorando com uma mesma trilha sonora, velha e conhecida. Me farto das canções de Roberto e Erasmo, cantadas por eles, ou lindamente interpretadas por Bethânia, por seu mano, o Caetano. 
Com o coração partido, em frangalhos, me sinto instigada a querer ouvir todas as músicas, que mais lembram cartas de amor não entregues. Cartas-declarações de quem sofreu pela falta de amor. Isso, pela frustração de viver uma paixão, literalmente estando sozinho, na suposta relação. 
Pela mania de amar romanticamente, sem que o outro sequer saiba do que se trata, ou que se trata dele,  só que às avessas, sem a autorização prévia para estar personagem principal, num romance até prazeroso de se contar, mas insustentável de sobreviver, justamente pela fragilidade do ser solitário, vítima de maus tratos, resultante de um amor platônico.
Nada de plurais, neste caso. Falo por mim. Escrevo por mim. Penso por mim. Apoiada por canções e por escritores divertidos, que brincam com as palavras e fazem festa, até no sofrimento. Essa espirituosidade na escrita é um dom dele, de Fabrício Carpinejar. Toda vez que o leio, tenho a mesma reação: misturo lágrima com sorriso de canto de boca. Penso assim: que lindo, que triste e que engraçado ver as coisas dessa forma, através de analogias bobas, mas com interpretações fantásticas, densas, bem próprias ou próximas dos nossos afetos e afetações.
E fico me perguntando se é possível amar muitas vezes. Tenho [ainda] a impressão de que é possível apaixonar-se muitas vezes. Amor, não. Não imagino que a gente possa trocar de amor, como quem troca a roupa de cama, semanalmente. 
É mesmo impossível continuar dormindo num mesmo lençol, após essa validade! Mas creio que é possível reviver uma mesma história durante anos, décadas, e continuar a  ficar feliz e em paz, ao reconhecer o cheiro do nosso amante, só de estar perto. 
Uma relação amorosa não é como trocar um  produto original por um "refil". Exige cumplicidade, história, novelo, rede. Exige tempo, cuidado, maturação. Isso requer sabedoria mútua. Requer parceria. Como no filminho lindo, exige que alguém tem que ceder, sempre, pelo bem dos dois. 
Me sinto preparando um discurso de madrinha de um casamento que ainda nem está planejado, por uma das minhas amigas. Mas não é discurso. Penso exatamente assim. Uma amiga me disse outro dia, uma frase perfeita: o verdadeiro amor não causa dor
Concordando com ela, e munida de todas as memórias das cartas doídas que faço, somadas às que leio por aí, eu decidi que não amarei, nem mais platonicamente, a quem me faz sofrer, a quem não me dá a devida atenção, a quem ignora os meus sentimentos, a quem é indiferente aos meus projetos. Como Carpinejar, ainda quero incendiar a minha vida, na vida do outroE pra quem quiser saber, como vai ser, sugiro que cante com ele. É meu "auto-recado"!


*Caetano Veloso [en]canta Roberto Carlos

22 comments:

  1. Lindo texto... como sempre de uma lucidez espantosa! Quanto à trilha sonora do texto... excelente escolha!!!!!

    Ana, via FB

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    1. ...a lucidez me deixa tontaaaaaaa risos

      à amiga Ana, via FB

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    2. ela retrucou, por lá:

      Você nos embriaga com tanta lucidez!!!!!

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  2. Sei la, eu acredito que o desencanto é necessário, para o encanto ser realmente encantador, o que seria das canções, das poesias, da arte em geral sem as desilusões humanas e dores desta vida, olha que texto maravilhoso temos aqui, oriundo do âmago de uma alma receosa. Sofrer, se iludir, se decepcionar é realmente um saco, mas o doce é sempre mais prazeroso depois do amargo, mas ainda sim seria melhor que o amargo não existisse (fazer o que né).

    Amei o texto e a canção só veio a complementar

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    1. Muito obrigada, Marcos! Volta sempre!

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  3. Oi Ju, adorei o seu texto e também gosto muito do Carpinejar. Você já viu as entrevistas que ele deu no Programa do Jô? São ótimas, vale a pena! Beijos.

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    1. Valeu a dica, Sérgio! Obrigada pela visita constante! Beijo!

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  4. Opaaaaaaaaaaaaa porrada!!
    Que dobradinha heim!!
    Ai penso, sofro e sorrio sempre embalada por alguma musicas ou filme, engraçado se não fossem as músicas, as trilhas sonoras a vida não teria graça... pra mim simbolizam o momento a memoria, minha memória afetiva passa por uma grande trilha sonora!! lindo

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  5. Da-lhe romantismo! Rs...
    há 15 horas ·

    Gica, via FB

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    1. "românticos são lindos e pirados"... risos... diz a música! Bj

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  6. Concordo, Giselly Lima. E com tanto disso ainda acha que na vida amor só pode ser um. Rsrsrsrsrs.

    Gê, via FB

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    1. Amor, só um. Paixões, mil e uma... ai, dá trabalho... risos... beijo!

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  7. Sobre o final, como vc diz: creia!... Lindo texto, Juba! Tmb tô com pena do Carpinejar... Surpreendente homem de hj q perde um amor e sofre!!... Bjs

    Maga, via FB

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    1. Maga, a gente sofre mais... risos... beijo!

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  8. Lindo, Ju. Concordo em gênero, número e grau quando vc diz que paixão, a gente tem muitas. Amor... Bom, amor é outra história.

    Fabí, via FB

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    1. É sim... é outra história... longa história... risos.. beijo!

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  9. Belíssima decisão! Trilha sonora perfeita!

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    1. Pois é... sustentarei? Será? Tomara que sim... obrigada pela visita e carinho de sempre, amiga!

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  10. (eu duvido que vc consiga)

    Amiga, dor de amor, de novo?
    Sei lá, ando desanimada nesse campo... Carpinejar fala em incêndio e eu sinto a alma morna. Acho que jogaram água fria em mim, ou então falamos de coisas diferentes.
    Pelo menos concordo contigo que é uma delícia ouvir Bethânia cantando "As canções que vc fez pra mim". Amo!
    Vai com calma, esse fogo todo existe mesmo só em relações curtas. Eu acho.

    bj e um excelente feriado pra vc.

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    1. Mas moça, isso é lá jeito de ajudar, me dizendo que duvida? Kkkkkkkkkkk vc me conhece muito... provável que não... risos... tá tudo bem, amiga! Beijos aquecidos... nada de vida morna, hein? Bj

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