25 June 2013

"por ser de lá..."

Difícil resumir [em caracteres] sobre saudade. Essa danada que me consome e me nutre, ao mesmo tempo. Quando ouço uma canção, quando sinto um cheiro, quando vejo uma foto, quando me deito, quando acordo, quando vejo televisão, quando vou ao cinema, quando me despeço ao telefone, quando chamo por torpedo, quando recebo carinho virtual. Quando me dou conta já estou assim: dominada, apaixonada, muito saudosa.

Tenho um jeito diferente de demonstrar afeto. Tem gente que abraça, agarra ou rejeita. Eu geralmente escrevo. Também olho nos olhos, ou procuro me fazer presente, o quanto posso. Mas é tarefa árdua. De um lado só, esse desejo todo de transbordar, vai caindo, sumindo aos poucos. Bem parecido com essa chuvinha boba do inverno: mal começa, logo se espalha pelo chão, e em seguida se despede, voltando a se esconder entre nuvens e nuvens.
Eu lamento. Eu exagero. Eu canto. Eu choro. Eu suplico. Ou então escrevo mais.
Tenho saudade do que já vivi, de certo. E do que não vivi, também. Das maiores, é preciso dizer que sinto muita falta do meu pai. Demasiadamente. Quanto mais o tempo nos afasta, mais me dou conta da sua presença tão marcante e de extrema importância na minha vida e na vida da minha gente, tão espalhada.
Lembro dele em coisas muito simples. Ele foi o homem mais simples que tive o prazer de conhecer e, que maravilha, pude chamá-lo orgulhosamente de PAI.
Lembro do meu velho quando escuto Dominguinhos, Luiz Gonzaga ou Nelson Gonçalves. Viajando mais fundo, me vejo até sentada, ouvindo ele tocar no violão e entonar "Cabocla, o seu olhar, está me dizendo, que você, está me querendo, que você gosta de mim.... "
Também lembro dele ao ouvir marchinhas de carnaval e cantigas juninas. É que eu era criança e ele era festeiro. Então, nos carregava para as festas e fazia desses momentos, grandes momentos de rituais familiares.
Lembro, ainda mais, quando estou em estrada de chão, quando vejo símbolos da terra: carroça, balde de leite, estrume de boi, cela, chapéu de couro, botas sujas de lama, curral. Me passa um filme quando  penso nesses itens reunidos. E o vejo sorrindo, caminhando ou montado em seu cavalo, conversando com o gado no pasto.
Eu fico muito emotiva no são joão. Moro numa cidade de praia e nunca estive tão perto da roça. É pelo pensamento que chego até ele, que deve conhecer meus segredos e medos e certamente me lê, também. Chego até minha mãe e meus manos, nas terras do norte, e das minhas manas, na terra do frio, na Bahia.
A escrita me acalma, me sacia, de algum modo. Estar longe não é um problema. Estar distante, sim. E vez ou outra, procuro me juntar, porque do contrário, me confundo com o que encontro pela frente.
Me pergunto do que são feitos os sonhos. De algodão? De nuvens espessas? De farinha de trigo e goiabada? De expectativas vãs? Não faço a menor ideia. Meus sonhos andam me distraindo muito e a realidade... ora... essa me é muito estranha, nesse momento em que escrevo.
A quem chegar até aqui, não se preocupe com essa melancolia toda. Isso passa também.
Na verdade foi assim: só mais um desabafo, cheio de saudade da minha terra, e da minha história de vida em família.

O título da postagem é trecho da música Lamento Sertanejo/ Composição: Dominguinhos (2002)

30 comments:

  1. André C. via FB25 June 2013 at 18:58

    Lindo!
    Você escreve muito bem e isso não é novidade. :)
    "Tenho um jeito diferente de demonstrar afeto. Tem gente que abraça, agarra ou rejeita. Eu geralmente escrevo."
    .... gostei muito.

    ReplyDelete
    Replies
    1. Que bom! Adoro ser lida pelos meus alunos da Ufal! :) Beijo!

      Delete
  2. Ah, mas conta a do Hotel...kkkk... Adorei o texto lindamente melancólico...:) Nem dei tchau pra Chimango, ô gente...

    ReplyDelete
    Replies
    1. Ai, ai... você devia escrever "Meu nome é Caruaru, muito prazer"... e Chimango manda lambida! :)

      Delete
  3. Rosinha via gmail25 June 2013 at 19:54

    Oi Ju!
    A saudade nos traz lembranças mesmo... e agora nos festejos juninos a presença das pessoas que amamos é tão intensa!
    Saudades, amiga!
    Dançou muito forró?
    Abraços !!!!

    ReplyDelete
    Replies
    1. Passei em Campina Grande... primeira vez longe da Bahia, amiga... não curti muito não... mas os shows de Gil e Elba foram muito bons... saudade, tb... em Agosto apareço... beijo!!!

      Delete
  4. Eu vivo de saudades... Parece que ela me alimenta... E por isso sigo caminhos que só me fazem encontrá-lá novamente...

    ReplyDelete
    Replies
    1. Eu também Ró... risos... saudade de tu e do seu chamego nessa filha adotiva...

      Delete
  5. Bóba via gmail26 June 2013 at 10:09

    Saudades tia Ju!

    ReplyDelete
    Replies
    1. Também, prima! Muitas saudades!!! Um beijo imenso em você e no meu Joshua!

      Delete
  6. Osvaldo via gmail26 June 2013 at 10:10

    Tocante Jusciney!

    A escrita pode ser não só um modo de misturarmos lembranças e cotidiano, história e passado, mas também parte de um processo de análise, de busca do que sentimos e não sabemos explicar "completamente". E aí vamos, na tentativa de querer explicar tudo completamente, fuçando este outro mundo que nos compõe.

    Abração,

    ReplyDelete
    Replies
    1. Verdade, Osvaldo! Obrigada pela leitura e comentário. Um abraço.

      Delete
  7. Claudia Pimentel via Gmail26 June 2013 at 10:10

    Puxa, pensei que a crônica seria sobre o são joão em campina grande.... "saudade até que é bom, é melhor do que caminhar sozinho, a esperança é um dom, que eu tenho em mim, ah eu tenho sim"... bjks com cartola, de banana, queijo e poesia!

    ReplyDelete
    Replies
    1. Que bonitinho... eu surpreendi então... risos... estava nostálgica ontem... viajar para Campina Grande foi ótimo, pois me conectei com meu povo, e com saudade.... beijo!

      Delete
  8. Mariana via gmail26 June 2013 at 14:12

    Oh, amiga! Que texto lindo!
    Me conta, recebeu algum comunicado da pós-graduação de Belém?
    Quando vem aqui para SSA?
    Beijo,
    Mari

    ReplyDelete
    Replies
    1. Tudo certo. Viajo dia 2/7 e retorno na sexta. Salvador, no recesso, na segunda quinzena de agosto. Beijo!

      Delete
  9. Ju
    Saudade renovada em mim agora, depois de seu texto.
    Beijo. Lilia

    ReplyDelete
    Replies
    1. Espero que esteja bem, Lilia. Volta mais! Beijão.

      Delete
  10. Vc escreve muito bem, que inteligente essa menina, sou seu fã.....

    Bjs

    ReplyDelete
    Replies
    1. Fê, o apelido do filho que nem tive... :)

      Delete
  11. Marise via gmail28 June 2013 at 09:15


    Bonito texto.
    Brindo-o como também os festejos juninos com uma frase de Adélia Prado:
    "Tudo que a memória amou já ficou eterno"

    Beijos!

    Marise Leão Ciríaco

    ReplyDelete
    Replies
    1. Linda e oportuna citação de Adélia Prado!!! Amei, amiga! Bj

      Delete
  12. Irmana Lila via FB28 June 2013 at 09:28

    Amei Ma, já tinha escrito algo no seu blog. Acho que não acerto publicar. Bjs, linda.

    ReplyDelete
    Replies
    1. Esse espaço precisa ser repensado... risos... beijo, irmana! Muita saudadeeeeeeeeeeee

      Delete
  13. Jane Hadassa via fB28 June 2013 at 10:06

    Essa danada da saudade vive batendo na minha porta! rsrs

    ReplyDelete
    Replies
    1. Ela bate e ela volta, né? Beijo!

      Delete
  14. Um desabafo que serviu para aliviar quem escreve e hipnotizar quem lê, Ju. Muito bom! Bjsssss

    ReplyDelete
    Replies
    1. Que legal receber esse retorno, que sei ser verdadeiro... um abraço, querido! Bj

      Delete
  15. Liane via gmail30 June 2013 at 16:50

    Juuuci,
    Que coisa linda de se ler!!! Nos emociona, nos envolve....
    Como está por aí? Já casou? rsrsrs
    Por aqui, profissionalmente, as coisas estão bem difíceis, pessoalmente está tudo bem.
    Quando estiver por aqui, anuncie. rsrsrs
    Um abração, Liane

    ReplyDelete
    Replies
    1. Oi querida!

      Bom saber notícias suas... qdo eu estiver em salvador, vamos marcar um almoço bem bacana, para colocarmos a prosa em dia... não casei... risos... mas engravidei.. risos.. da tese.... parto longo e difícil ao longo dos próximos três anos...

      Está tudo bem, excetuando-se a saudade da Bahia, dos amigos queridos e da família.

      E sua neta? Deve estar um troço de sapeca... beijo!!

      Delete