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18 October 2011

Distância necessária

Apesar do cansaço, do ir e vir, decididamente, viajar me renova as baterias. Dias deliciosos em Conquista. E horas deliciosas na capital baiana.
E, hoje, já em Maceió, me bateu aquela vontade de escrever. E me lembrei que nunca mais havia me arriscado em 'cronicar'. Então, segue uma 'quase crônica', com gostinho de Bahia, terra abençoada pelos deuses do acarajé e do Dique do Tororó. E é preciso registrar: até daquele canal, meio fétido e meio lindo, sinto falta!
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A imagem divertidinha, alegre, do desenho acima, difere muito da realidade que vivenciei na manhã de uma segunda-feira ensolarada, mesmo estando com a minha tensão de todo mês, acima do normal.
O cheiro de maresia no ar, o engarrafamento matinal, as lembranças da noite anterior, e toda uma expectativa pelas horas futuras. Assim estive eu.
Fechei a bagagem, desci e pedi um táxi na recepção. Aguardei no saguão do hotel. "Horário de verão infeliz". Praguejei, baixinho. Folheei os cadernos, ainda sonolenta, e li as manchetes, do maior jornal de circulação do estado. Me frustrei. Não havia nenhuma novidade, porque eu já tinha lido tudo, na internet móvel.
O problema é mesmo sério. Mundo de repetições. Não há mais novidades, que podem dar na praia? Será que os jornalistas estão perdidos? Será que o jornal impresso precisa buscar alternativas para uma convivência mais pacífica com o mundo virtual? Perguntarei essas coisas para Duda Rangel. Ele certamente dirá coisas brilhantes ou engraçadas sobre.
O táxi me tirou desses pensamentos, com sua buzina estridente.
E lá fui eu, saudosa de estar na terrinha, entre amigos queridos, com uma vontade absurda de estar em meu canto, e vendo essa cidade, pela minha varanda. Aquela que fica linda à luz da lua.
Assim que deu a partida, ele não se conteve e começou a resmungar, nitidamente muito irritado.
Reclamou dos motoristas imprudentes, que certamente compram suas carteiras, pois "não havia explicação para tantas barbeiragens, santo deus!"
Vislumbrou o futuro, como se tivesse uma bola mágica:
- Desse jeito, ele vai provocar um engavetamento!
- Como assim, por que?
Perguntei por perguntar, mas juro que não queria conversar com aquela criatura estressada. Meu dia tinha que ser lindo, como o sol lá no alto.
- A senhora não sabe? Tem que manter distância entre um carro e outro.
Ele falou com um certo sarcasmo, como se duvidasse que eu soubesse dirigir.
- A senhora, por acaso, sabe qual a distância que deve ser mantida entre um carro e outro?
- Ah, deve ser o suficiente para um não encostar no outro...
- Resposta errada!
- Hein?
Eu não acreditava na forma imperativa e espontânea, daquele sujeito sem noção...
- Você tem quanto tempo de carteira de motorista?
- Renovei no início do ano, por mais um bom tempo.
Resolvi me impor. Não adiantou.
- Qual é a distância?
- Tinha que saber decorado! Um metro e meio.
- Não sabia disso. Achei que precisava saber dirigir, não decorar coisas como essas.
- Você não fez o curso?
- Fiz.
Eu devia ter dito, não.
- Vai ter que fazer outro. Precisa saber de tudo!
Ele não sugeriu. Foi assim: uma ordem!
- E é?
Respondi, perguntando e me divertindo, com o meu sotaque alagoano já incorporado.
- Claro! Eu me aposentei ano passado. Mas fui avaliador do departamento de trânsito, por muitos anos. Os alunos sofriam comigo. Reprovei muitos. Você seria reprovada por mim!
- Eu?
Por mais que eu tentasse ignorá-lo, as alfinetadas na pele aumentaram...
- Me desculpa, senhora, mas tem que aprender essas coisas... o que você faria se estivesse sendo assaltada, e seu carro estivesse entre dois outros e não estivesse, com 1 metro e meio de afastamento dos dois carros?
- Não sei.
Entrei em pânico. Eu não saberia o que fazer! E se isso me acontecer? O que faço? Ai, meu deus... o cara tinha até perguntas de provas decoradas. E eu, triste, com vergonha e com medo de ser, assim, tão ignorante... coitada de mim!!
Mesmo percebendo o meu olhar aflito, pelo retrovisor, ele continuou a provocação...
- Pois é. Você precisa fazer o curso para aprender isso.
Não ia dar esse gostinho de 'você está certíssimo', mas juro que pensei comigo: vou me matricular hoje!
- Oba, já chegamos. É este prédio aqui, o azul.
Alívio imediato, parecido com aquela sensação feminina, quando uma cólica se despede do nosso corpo, pra sempre!
- Vou retirar sua mala...
Olhei pro taxímetro, paguei com raiva e sumi da visão do carro amarelo.

(...)

Sério. Não sei (mais) o que dizer desse diálogo-sermão travado com um desconhecido. Minto. Com o meu quase 'mestre' de direção defensiva.
Sei que, no dia anterior, na véspera dessa 'mini-aula' inusitada, quando ele tentou minar minha estima, por não saber 'certas coisas muito importantes', foi o dia do professor. Ele deve ter recebido vários telefonemas, de alunos saudosos das suas dicas autoritárias e quentes.
Creio que se tivesse sido o meu professor, lhe diria: ensinar se aprende, também. Tente novamente. Anos de prática lhe tiraram o essencial, e invisível aos olhos, aos ouvidos e ao coração: "ensinar é um ato de amorosidade, nunca de competição".
Estou apenas repetindo algo que acredito. Óbvio que não fui eu quem disse isso. Paulo Freire. Um dos seus livros, deveria estar a menos de 1 metro e meio das mãos do taxista mais metido a besta, que já cruzei pelo caminho. E eu?  Já estou bem longe dele! Pronto. Desabafei. Xô tpm.

28 September 2011

Cheiro de merenda

Enquanto as estagiárias realizam suas entrevistas, estou eu, aqui, sentada numa jardineira de pedra, no pátio da escola, campo de estágio em Gestão. Lá fora, o pipoqueiro faz a festa, com um montão de crianças à sua volta.

Ao meu lado, uma dessas, com seus 11 ou 12 anos, deposita seus biscoitos e sua água, num cantinho, e olha à sua volta. Parece procurar entretenimento, e sai à caça. Do outro, um grupo conversa, animadamente, enquanto o lanche não vem. À minha frente, mais estudantes. No meu fundo musical, ouço o burburinho de suas muitas vozes, os seus gritos, os seus passos, as suas corridas.

17 September 2011

Do verbo torcer

Futebol não é o meu forte. Torcidas são. Tenho a sensação que existo para me distrair, nesse mundão de torcedores. Adoro provocá-los. Adoro ver como se provocam. Trocam piadas bobas, cheias de pitadas de humor. Gosto de ler o que pensam, da forma como se expressam.

No trânsito amo vibrar com 'eles' quando persigo seus carros buzinando em sintonia, com bandeiras esvoaçantes, vivas. Fico mesmo impressionada com os amantes desse jogo.

Os campeonatos, todos eles, passam longe dos meus olhos. As edições da copa, não. Fico literalmente envolvida com o climinha que toma conta do mundo em tempos de copa. Dos barzinhos que se preparam para receber grupos de torcedores, aos enfeites de cabelo, de roupas, de carros, das lojas, das ruas. Até com os exageros das reportagens televisivas. Esse festival em torno do futebol é mágico, mesmo.

Hoje, enquanto eu tentava cochilar à tarde, nessa cidade que teimo em me aproximar, acordei de sobressalto com algum time fazendo um gol. Liguei a televisão, na tentativa de me emocionar, mesmo não estando entre eles. Infelizmente não consegui acompanhar o que causou a comoção dos meus vizinhos reunidos, felizes e barulhentos.

Afora o encantamento, me assusto com o rumo das coisas à minha volta. Tenho experimentado conhecer mais sobre política, sobre os caminhos da educação, nesse nosso país que sediará a copa, logo, logo.

Diferente da pauta do governo e da ala inteira de turismo, para 2014 tenho outros planos, além de me envolver, certamente, com o climinha de 'pão e circo' já instalado, de norte a sul.

Lá no futuro, daqui a 999 dias, já que ontem comemoraram os 1000 dias que antecedem a Copa, pretendo comemorar a reta final do estágio probatório como servidora pública. Além disso, quero estar na reta final do meu doutorado, que nem iniciei ainda, mas que tenho o ingresso como próxima meta.

Não sei se o que digo ou almejo faz muito sentido. Ou se consigo passear por desejos com a mesma facilidade com que me alegro em gritar GOL!, num jogo que assisto.

De verdade, tenho tido tantas experiências distintas em terras alagoanas, que me fazem crer que metas são como sementes. Uma vez semeadas, os frutos nascem. E os gols, também.

Por isso, torço por acreditar em sonhos semeados assim, num dia de sábado com gosto de domingo, com vizinhos festejando a vida em torno dessa paixão nacional, em volta de uma televisão. Torço pelos cúmplices, de alegrias coletivas.

4 September 2011

"Voar, voar..."

"...subir, subir..." Calma. Não vou cantar nenhuma música de cantor melancólico que fez muito sucesso na década de 80. Só de lembrá-lo, fico enjoada. Efeito aéreo da nostalgia desses tempos.

É que ando pensando em voar, mesmo. Nem tenho medo da queda. Também não penso em fazer uso de algum alucinógeno para tentar a façanha de me atirar pela varanda, bem daqui  de onde eu moro, do oitavo andar.

Pra essas loucuras, existem redes protetoras, além da minha costumeira lucidez em demasia.

O meu pensamento sobre vôos é alto. Nada rasante. Mas nunca sonhei voando pra além dos céus. Pra ser mais sincera ainda, amaria partir e aportar em diferentes lugares sem ter que adentrar um avião. Nem jatinho me encanta. Odeio estar presa em qualquer aeronave, ou qualquer situação que me sinta impotente, sendo controlada por segundos ou por terceiros.

Quando penso em voar, me vem à imaginação, aquela sensação de liberdade que o pássaro tem. Que um ator tem. Que um escritor (ou blogueiro) tem. Exatamente. Que qualquer pessoa autônoma tem.

Por isso, quando desejo voar, escrevo. E hoje foi assim: senti saudade imensa desse espaço aqui. Do contato com a tela branca, com as ideias emaranhadas em mim. E como fico feliz, e livre, obviamente, quando elas ganham formas, quando as palavras se libertam de mim. Fica até mais fácil respirar, sentir, voar...

Essa campanha que assumi, do concurso Eu amo escrever, foi muito boa. Exigiu que eu me superasse, que eu me libertasse dos meus medos. O de me expor para o protagonista do conto. Ou para outros olhos. Ou para emoções alheias. Das pessoas com pressa, que não querem dedicar um tempo para interessar-se pela escrita de uma almejante escritora.

Percebi que poucos querem ser importunados, desviados dos seus focos, dos seus umbigos. Dá trabalho exigir solidariedade. Foi desafiador mobilizar, insistir. Cansativo, muitas vezes, 'mendigar' por atenção. Foi um processo solitário. E daí, me senti presa.

Quando acabou, essa presidiária aqui se sentiu ainda mais desolada. Pra onde ir? Com quem conversar? Sobre o que conversar? Será que os amigos virtuais passariam a me ignorar, como quem ignora as tais correntes insuportáveis que recebemos por e-mail? Me vêem agora como um "spam"? Me transformei num "spam"? Pior que isso. Será que minha porção criativa, de querer transformar coisas simples em poesia, me  abandonou, pra todo o sempre? E agora, o que faço com o que sobrou de mim?

Para todas essas perguntas, não obtive nenhuma resposta. Mas desisti das respostas. Sigo voando, desejando voar, desejando viver novos desafios, novas angústias, novos medos. E, muito melhor, livre da pressão por votos. Não gostei de ser política, no mês mais difícil do ano.

E como a lagarta se foi, a borboleta quer (re)pousar. O vôo pretende ser leve. Exatamente como me sinto, após encarar a dureza da vida de larva. Desejo somente a leveza dos jardins, sem nenhuma erva daninha.

21 April 2011

Aonde canta o patativa

"Que sorrias, por noite de vigília"
Em plena madrugada, no raiar das primeiras horas da quinta-feira do feriadão, fui apresentada ao pássaro patativa. Até então, nunca tinha ouvido falar dele. Entre os céus nublados de Maceió, e os chuvosos de Salvador, fiquei inquieta, como um passarinho engaiolado, querendo a minha liberdade reprimida, na poltrona 17E, entre duas vizinhas caladas e distantes.
A história do taxista não me saía da cabeça.

7 April 2011

Coisas de Dona Zenaide

Ela tem quase oitenta anos. Viveu bastante o século 20. Viveu a ditadura. Hoje vive a democracia, e o século 21, com ares de adolescente, naquela fase gostosa de descobertas, quando tudo o que precisamos é encontrar boas oportunidades de diversão. E ela se diverte, mesmo. A ponto de ir dançar com as mesmas amigas, todas as quintas e sextas-feiras. Talvez aos sábados, também. Depende tão somente das atrações do lugar. Essa é a grande viagem de Dona Zenaide: dançar. Elas simplesmente marcam, agendam o táxi, racham a corrida de ida e de volta, e caem na dança. Não, ela não quer saber de cansaço, de colocar uma almofada gigante, daquelas ortopédicas, e estirar as pernas. Ela não quer saber de descansar, a ponto de ser considerada uma inválida. Essa palavra é muito forte. Ela é só validez. Valida tudo o que faz: da conversa com o porteiro do prédio aos diálogos mais que necessários com suas manicures, seu cabeleireiro, com as pessoas que circulam um simples salão de beleza. Claro que entrei para esse time. Não perderia meu tempo em falar sobre algo que não me afetou. Não desperdiçaria, também, a oportunidade de trazer pra cá, as melhores impressões dessa mulher falante, divertida, espirituosa, tão viva quanto o seu desejo de viver mais e mais. Impressionante como um simples encontro, assim do nada, sem estar programado, pode favorecer algum tipo de reflexão. Eu estava aérea, pensando sobre mim, do quanto estou atenta aos meus processos de crescimento e de envelhecimento. Estava ali, fazendo as unhas, quando ela adentrou o salão, com toda a sua vitalidade transpirando e contaminando o ambiente...
- Oh, Dona Zenaide!
- Pessoal, eu vou parar de andar com esse chaveiro! Todos pedem para apertá-lo. Vejam! (apertou o chaveiro de pelúcia, em formato de pato amarelo, e sorriu com o som, parecendo criança quando ganha brinquedo novo e se surpreende com seus efeitos sonoros)
- Ah, Dona Zenaide, só a senhora mesmo! E conta...vai que dia dançar? (nesse momento, eu já não prestava mais atenção em mim, já fazia tempo...estava de olho nela, admirando-a, por ela ser tão ela, tão autêntica e tão encantadora, mesmo com todas as rugas de expressão, pele flácida e voz frágil).
- Vou amanhã! Se esqueceu que marquei manicure pra hoje?
Não me contive. Estou em Maceió há exatos dois meses e um dia, e não me recordo de estar tão afoita para me preparar para uma saída noturna, muito menos com o objetivo de dançar. Então, ousei perguntar:
- A senhora vai pra onde, Dona Zenaide?
- Ah minha filha, vou pra o Buganvília. Lá é ótimo para dançar. Tem muita gente, muito casal, muito menino também. Mas eu danço sozinha, sabe? Porque quando me canso, sento em minha mesa, tomo uma bebida, como uma batata frita e depois volto pro salão, quando sinto vontade de dançar de novo.
- Ah, sim...
Fiquei pensando no meu fôlego, quase inexistente. Ela continuou, eufórica, com seus argumentos.
-  E se eu danço com um cavalheiro (achei lindo, isso), eu fico sem jeito de dizer pra ele que quero parar de dançar. Por isso, eu só danço só, porque assim, não fico sem graça e danço a hora que eu quiser!
- E é?
A minha pergunta, ao estilo alagoano de responder, foi mesmo de total surpresa, isso porque já me contaram que no Buganvília, as mulheres mais velhas pagam para dançar com os dançarinos contratados, no lugar. Em Salvador, tem um lugar similar, aliás dois. Não frequentei nenhum, por enquanto, mas sei que na melhor idade, vou acabar parando nesses espaços tão divertidos quanto democráticos...parece ser o canal da diversão, para quem quer continuar nos bailinhos...
- Sim, minha filha, você nunca foi lá? Menina, devia ir...suas pernas são lindas e precisa aproveitá-las...
Risos...
- Não, nunca fui...
- A cor vermelha ficou bem em suas unhas.....me diga, minha filha, sua sandália é confortável, não é?
- É sim.
- Ohhhhh deve ser ótima para dançar!
Eu apenas ri mais uma vez. Desta vez de mim, do quanto sou boba e limitada. Imagina...comprar uma sandália e pensar se ela serviria para dançar....nunca tive esse pensamento, tão estratégico...
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De verdade, quando me despedi dela, saí (mais) feliz, me sentindo mais leve, desejando chegar aos 70, 80... com essa segurança, com essa energia, com esse prazer pela vida.
Agora? Só penso em dançar...
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E é? (:

30 March 2011

Na fila de espera...

As filas me adoram. Não conheço mais ninguém que sempre pega as maiores filas. Quanto mais tenho pressa, mais espero em bancos, caixas de supermercado, banheiros de boate ou festas fechadas, check ins, e, claro, as esteiras com minhas bagagens. Abaixo, uma espera, daquelas, na esteira de número 3, no Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim. Confira!
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Horário Local: 17h35

- Ai, nem acredito que já chegamos! Estou ansiosa para curtir o Rio!
- Eu também...vamos pegar a bagagem?
- Sim, precisaremos de dois carrinhos...
- Ok, vá logo pra esteira, que eu vou pegar os carrinhos.
(...)
- Oba, que bom que minha bagagem já apareceu...olha a minha mala ali!
- Eu tô tensa...não vejo nem minha frasqueira, nem minha mala...será que minha bagagem foi extraviada? Quanta demora...estou zonza, com tantas voltas dessa esteira!
- Relaxa...já está vindo...sua mala é que cor?
- Vermelha, claro!
- Você marcou sua mala com uma fitinha do Senhor do Bonfim?
- Não...ela é básica, como a dona(:
(...)
- Juba, tem um cara ali do outro lado, te olhando muito.
- É, eu já vi. Mas ele tem um tique nervoso esquisito. Ao mesmo tempo em que me olha, levanta o ombro esquerdo..credo!!!
- E, é mesmo...
Risos
- Vamos olhar pro outro lado!
- Ali tem uma figurinha engraçada, de paletó azul e calça lilás.
- Esse não está me olhando...o foco dele é outro.
- Ihhhhhh, agora é pra você que o cara vesgo, de ombro levantado, está olhando...
- Ai, meu Deus, o que faço? Olho também? Parece ser do bem...
- Não...ihhhhhhh, descobri...não é pra nenhuma das duas... já entendeu, né???
- Ele é vesgo e tem tique nervoso! Tadinho....
- Eita, Juba....será que é aquela a sua mala??
- É ela mesmo! Basiquinha, como a dona! E a frasqueira????
Uma nova espera... só que, naquele momento, o homem de paletó azul e calça lilás já havia desaparecido, com sua mala preta marcada com fitas verdes. Agora, quem estava ao nosso lado, nada mais era do que  o homem vesgo, de ombro levantado, bastante atento ao nosso diálogo e olhando sabe-se lá pra onde...
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Horário Local: 18h50.

27 February 2011

Conversas de domingo


- Não. Sigo direto daqui pro Rio, na quinta.
- Mas então você trocou o vôo?
- Ai, nem me fale...já fiz trocas demais, a passagem ficou bem mais cara...
- Pois é... você, como boa viajante que é, precisa ser mais descolada, sabe?
- Sim, eu mando mal, eu sei... vou chegar no Galeão...pelo Santos Dumont sairia mais em conta, mas não consegui...
- Tem que gastar menos, aprender a andar de metrô, de ônibus, tem que aprender a ser uma mochileira...
- Não, isso não combina comigo... gosto de andar de táxi, gosto de conforto, não me incomodo de gastar mais... mas tenho que mudar, sim...
- Então tá! Descansa aí, pra sambar bastante aqui com a gente!
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- O seu anjo da guarda te protege, mas sofre com você!
Risos
- Deve sofrer mesmo. Mas me ajuda sempre... num só mês bati o carro e paguei a franquia, mudei de estado, perdi e recuperei uma caixa da mudança, comprei uma passagem aérea muito mais em conta e depois tive que pagar multa por alterá-la, isso umas três vezes...
- Além de te guardar, seu anjo custa caro, prima!
Risos
- Verdade, o pior é que é verdade...mas eu tenho risco zero de sofrer de stress, segundo a avaliação cardiológica!
- Putz, se eu passasse por metade dessas coisas, já estaria morta...você dá muito trabalho pro seu anjo!!
Mais risos...
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- Conta... como é esse camarote?
- Não prestei atenção em tudo e minha net pifou agora à noite... é sempre assim...
- Mas você prestou atenção em que?
- Na estrutura...
- Hein?
- É, no que vai ter lá...
- Sim, mas dá direito a bebida free? E comida também?
- Sim, "all inclusive"!
- Ah, bom...melhorou...
- Mas como que a gente vai pegar a camisa, se a gente vai chegar já na hora de ir pro camarote??
- Ué...temos que ver isso no site...
- Ok. Amanhã você vai trabalhar cedinho?
- Não, só à tarde...
- Ai, que delícia....
- É um problema, acordo cedão e fico sem saber o que fazer...
- Sério? Ah, vai malhar, Juba!
- Tá bom, tá bom...amanhã é segunda...

23 January 2011

"Num bar, todo mundo é igual..."

"...meu caso é mais um, é banal..."
Carioca perdido
- Estou solteiro...
- Solteiro, no Rio de Janeiro?
- É, solteiro no Rio de Janeiro...
- Mas, e essa agenda aí, de A a Z, não há ninguém, que possa matar a saudade?
- Não..zero.
- Nossa, tadinho...
- Vou chatear meu amigo Chico...veja só...
(ligou pro Chico, que definitivamente estava chateado com a insistência do amigo bêbado)
- Chico? Você quer ou não quer que eu vá pra sua casa?
(claro que não queria).
- Mas Chico, a noite é uma criança...
- Diga que a noite é um feto...
(Chico, muito irritado, nem quis mais papo...)
- Não aguento mais levar sermão do Chico...
- Ihh, então Chico é sua paixão?
- Não...é só meu amigo...
- Nossa, me conta, tem crise no mundo dos gays, também?
- Sim, não há homens decentes...
- Nossa, tia, estamos ferradas! Pensei que somente as mulheres sofriam nesse mundo...
- Mas eu tô mal...bebi muito...me ajudem a decidir: não sei se vou em casa, pego o Radar e venho pra cá, e depois levo o Radar pra casa... e volto de novo...ou fico aqui...o que vocês acham?
- O que? Quem é Radar?
- É o cachorrinho dele, tia..eu conheço o Radar...ele precisa descer..vá buscá-lo!
- É, ele precisa descer...e eu preciso ir ao banheiro...
- Já sei...está apertado...diga aí, o número 1 ou o número 2?
- Ah...o número 5!
(risos)
- Número 5? Como é isso?
- Ah, não dá...é muito sinistro....
(mais risos)
.......
As três, na 10ª Sessão da Terapia Grupal
-Não entendi...vocês vão querer dois espetinhos, um de carne e outro de frango?
- Isso..
- Eu acho que deviam ser três.
- Não... é muito...
(a garçonete bem tranquila, anotava..)
- Tá decidido, querida...traga somente dois...tá bom demais!
(...)
-Mas eu não acredito...você já está apaixonada?
- Sim, estou! Me apaixono por tudo: por um homem, por um lugar, por uma comida, por uma música, por um olhar...
- Caraca, você é muito ingênua! Não pode acreditar em tudo, assim...eu não acredito mais!
- Ah, mas minha intuição nunca me deixou na mão...
- ah, tá bom...foi só o telefone tocar e você ficou aérea...típico do seu signo...a Lagoa Rodrigo de Freitas, que você tanto ama, nem tinha mais graça!
- Isso não é verdade...aí é que ela ficou mais bonita...
- Poxa, amiga, vou te dar um corte...
- Por que, amiga?
- Nossa, você é muito pessimista, cara...
- E você? Tem medo até da sua sombra!
- Amiga, você tem que namorar um dançarino!
- Mas os dançarinos são gays... não quero saber de namorado.
- Mas namorar é tão bom...
- Vamos pedir mais um chopp?
(...)

10 December 2010

No sertão, com Nós4

Primeiro, um quase susto:
- Lá vem Melina, esquisitona, vestida de preto!
- Ela é linda, tia!
- Lindo é Fred...nossa, adoro os ternos dele...pena que é gay, na vida real!
- Né não Jucy... Essa menina inventa é coisa...
(pausa para gargalhadas entre as três...)
- Mãe, que horas são? Gente, faltam 20 minutos! Cadê o táxi que eu marquei? Chama o elevador, Cacau!
-Ok, Tia..calma, dá tempo...sempre dá!
-Aham...Seu Bráulio, o senhor já está aqui no prédio?
- Sim, estou aqui, te aguardando.
-Ok, estou no elevador. Mãe, obrigada por tudo, Cau, estuda mais...fui!
(...)
Depois, uma boa surpresa:
- Seu Bráulio, boa noite! Esqueci o horário...estava assistindo a novela Passione!
- Ok, temos 20 minutos...
- Ah...temos muito tempo! Nossa, quem está no DVD? Que sambinha gostoso...
- Uma banda de Recife, chamada "Nós 4".
- Onde o senhor comprou?
- Eu ganhei de um cliente.
- Oh...eu queria um...adorei...
- Pera que vou te mostrar as faixas...
- Nossa, me lembrou Jorge Ben Jor...
- Ah...escuta essa então...
(...)
-Chegamos!
-Obrigada! Deixa a cópia do DVD lá na faculdade, ok?
- Certo deixo sim...boa viagem!
O encontro musical com Seu Bráulio foi perfeito. Como cheguei mais cedo, procurei me acomodar pela rodoviária. Me sentei perto de três senhores que conversavam sobre as frotas das companhias de ônibus. Obviamente, me meti na conversa.
- Olha gente, esses novos modelos são mais confortáveis. A NH precisa renovar...
- Já temos uma linha de novos carros, senhora.
- O meu, de hoje, pra Bom Jesus da Lapa, é novo?
- Não. Olha ele ali...está chegando!
-Ok, bem acabadinho...estou indo então.
- Deixa que eu ajudo a levar sua bagagem.
Enquanto andava, sendo escoltada, estranhei como tudo estava bom demais.
Tinha eu, que estragar com a paz de tudo? Não foi bem assim.
Terceiro, a confusão.
Enquanto o motorista se ocupava em conferir as passagens, resolvi, sem anunciar, comprar uma bebida achocolatada. Bem infantil, eu sei, mas me alimenta e me dá sono. Já experimentei diversas vezes e realmente tem este resultado. Mas calculei o tempo errado. Enquanto discutia a qualidade dos achocolatados e suas marcas, com um vendedor da lanchonete, o meu ônibus partiu, com minha mala. Com o velho travesseiro em mãos, a bebida na outra, gritei, em vão, para o ônibus parar de se deslocar para longe. Em fração de segundos, fui até a agência, consegui sensibilizar o atendente e ligamos para o motorista.
-Seu Leonardo?
- Sim, pois não.
- É o motorista que está conduzindo o ônibus que vai pra Bom Jesus da Lapa/ Santa Maria?
- Sim, sou eu.
- É que sou uma passageira sua, que ficou aqui. Fui comprar um lanche e quando voltei, o ônibus já tinha partido. Está aonde, nesse momento? Posso ir de táxi até aí?
- Pode sim. Eu aguardo. Estou em frente ao Motel DR.
- Ok, não saia daí. Vou pedir ao taxista pra me levar, agora!
Corri, nervosa, sem saber como explicar para o taxista que iria para um motel sozinha, e com um travesseiro e um achocolatado nas mãos.
Claro que nem todas as pessoas são detalhistas e observadoras. Ou maldosas. Ele sequer olhou pra mim. Sabia aonde ficava o dito cujo motel, e partiu com pressa. Riu comigo, da própria confusão que eu me meti.
(...)
Por último, mais um milagre.
Das viagens para esse lugar, aonde o vento não chega, porque aqui, definitivamente não venta, só pude concluir que o que não me faz sofrer, vira relato. E não é que, de novo, Bom Jesus da Lapa me fez compreender a fé dos Romeiros?
Agora, uma boa música.
Escutem o quarteto. Aposto quem em breve, assistirei um show deles, em Maceió ou em Recife (:
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27 November 2010

Minhas horas e meus cariocas

Bahia Press
17h15
Aconteceu numa quinta-feira. Trabalhei o dia inteiro, normal, como se nenhum evento mais tarde fosse acontecer. Viagem marcada para Bom Jesus da Lapa, às 18h50. Novas aulas de pós-graduação. Estava tudo mais ou menos cronometrado. Primeiro iria buscar a minha tia no Aeroporto, às 17h30, deixá-la em casa, terminar de arrumar a mala e seguir para rodoviária.
Já no aeroporto, o tempo parecia contrário às minhas intenções: pouso demorado, a bagagem na esteira, que não aparecia, carros demais na saída do estacionamento. Nunca tinha passado por isso. Ou seja,  meia hora perdida, não prevista inicialmente.
18h05
A Avenida Paralela estava mais lenta que uma tartaruga de barriga cheia, querendo dormir. Tive uma ideia, para não perder a hora da viagem. Acionei meu primo, filho da minha tia, que estava em meu apartamento. Enquanto eu falava, ele ia arrumando a minha bagagem.
- primo, não esquece, do secador e da escova...estão no lavabo!
- que mais, prima maluca? Está faltando alguma coisa?
Respondi que não e ri, internamente, pela sua voz alterada, que salientava ainda mais seu sotaque carioca.
Pedi que ele fosse de táxi, que nos encontraríamos lá e também para convencer o motorista a aguardar a passageira atrasada. Minha tia seguiu comigo, se culpando por ter me atrasado. Eu, tranquila, desconversei e mudamos o rumo da prosa. Ela me contou as novidades da família e, óbvio, do Rio de Janeiro. Uma coisa é certa: há certos engarrafamentos que nos permite matar as saudades de companhias queridas como a dela. Tive certeza disso, neste momento.
18h30
O trânsito estava lento, muito lento. A região do Iguatemi, onde se concentram as duas pistas, estava apinhada de carros, caminhões, motos, todas as frotas de ônibus e de táxi. Claro, era véspera de natal. Recebi outros telefonemas. Um amigo me ligou, pedindo indicações de filmes. Comentei os que estavam em cartaz. Marcamos um cinema na Sala do Museu, para semana seguinte. Meu ex também ligou. Queria discutir a relação. Discutimos, mais uma vez. Enquanto isso, minha tia, quase tendo um ataque de tanta ansiedade, ficava impressionada com minha calma, e sinalizava o ponteiro do relógio. E me perguntava:
-cadê a placa indicando a rodoviária?
Eu lhe respondi.
-Ali, tia, logo ali na frente!
Claro que estava mentindo. A aflição dela me deixava aflita!
18h45
Meu primo gritava ao celular. O sotaque estava ainda mais forte. Eu comentei isso com minha tia. Ela concordou.
- primo, segura o motorista, se deita no chão, faz algo bem louco aí! Avisa que eu  já estou chegando!
Mais uma tentativa de impedir que o ônibus partisse sem mim.
Enquanto isso, ele gritava mais alto, ao mesmo tempo em que interrompia, obviamente, para "dar as ordens ao motorista", gente boa e paciente.
E, do nada, o trânsito fluiu, e chegamos à rodoviária.
- eita, mais um milagre natalino...
- nossa "tia" (ela me chama assim), impressionante como você consegue dirigir, falar ao telefone, conversar coisas sérias e ainda discutir a relação...
- ai, tia, sou de aquário, com ascendente em aquário e lua em leão...deve ser isso!
- putz, eu  achei que a rodoviária não ia chegar nunca!
18h50
Deixei minha tia, com o carro aberto, me despedi e saí às pressas, correndo desgovernada.
Logo ientifiquei meu primo querido, com as mãos na cabeça, e minha bagagem no chão.
Gritei pro motorista:
- cheguei, me espera!!!!
Meu primo me abraçou, me chamou de 'prima maluca' de novo, e sumiu na multidão, para reencontrar a mãezona.
18h56
Antes de sentar em minha poltrona e encarar os outros passageiros, agradeci, meio sem graça.
Recebi um sorriso de volta, além de um café quente, água mineral, um cobertor de lã e o costumeiro desejo de boa viagem a todos! Ritual pronto, partimos.
Outro milagre natalino...
19h
Já acomodada, o meu coração pulsava mais forte. Muita adrenalina, neles e nessa viajante, que me tornei.
Definitivamente, percebi que eu, não por ser baiana, lido com o fator tempo de forma diferente deles. Não por eles serem cariocas. Mas o que isso importa? Em nada.
Temos o mesmo sangue e nos amamos, em tempo real...

20 October 2010

Reconectar em 12 segundos...

- oi.
- oi.
- tudo bem?
- tudo, e você?
- tudo bem, também.
- que bom.
- e aí?
- e aí, o que?
- conta as novas...tem feito o que?
- trabalho, trabalho, trabalho...
- sei...
- e você?
- também... e suas viagens?
- nenhuma, por ora. 
- que pena.
- é, também acho...me sinto atracada, no cais.
- mais que estar em seu cais, eu queria ser seu porto.
- hein?!?!!

AVISO: a conexão foi finalizada.

11 September 2010

"My mala, onde está my mala?"


Eu tive um colega de trabalho, que odiava quando eu conversava misturando palavras de línguas diferentes. Ele ficava visivelmente irritado, com a minha versão poliglotademeiatigela. Daí pedia pra eu parar, voltar ao 'normal'. Eu insistia mais um pouco, e quando decidia parar, finalizava com a expressão "va bene cáspita!". Ele ria, aliviado, e me chamava de "besta"!

26 May 2010

Telefonema divâ

- E sua vida, como está?
- Acha que foi uma escolha certa se mudar pra aí?
- Acredita que está mais feliz agora?
- Tem viajado muito para as aulas de pós?
- E o carro, já resolveu tudo? O que falta?
- Por que não aciona um advogado?
- E a vida financeira, como está?
- E o coração?

22 May 2010

Quase uma Tieta

Primeiro os devaneios.

Me sinto a personagem de Jorge Amado, quando retorno em cada cidade visitada em aulas de pós-graduação.
Me dá uma vontade louca de cantarolar alto, na chegada:
“estou de volta pro meu aconchego, trazendo na mala bastante saudade...”
Surtei: saudade? aconchego? Nada disso. Carrego expectativas, necessidade de cumprir novas obrigações profissionais, angústia por estar longe do meu trabalho, oficial, e medo de nunca ter um porto seguro, que me estimule a parar de viajar, e me aquietar em casa, em volta de uma mesa, para dois lugares, arrumação de um segundo quarto, não para visitas, mas para um baby bem bonzinho, como deve(rá) ser o papai, e bem inquieto como a mamãe que vos fala.
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Contexto real.

Como sempre acontece, fui a última a adentrar o ônibus, cerca de três minutos antes da partida para Bom Jesus da Lapa, cidade baiana onde há mais romeiros do que moradores. Apenas sete horas na estrada. Cheguei de madrugada. Muito rápido!
Sempre partia de Salvador, e eram longas treze horas até chegar nesta terra esquecida pelos deuses da chuva. Faz tanto calor que causa náuseas, vontade de ficar embaixo d’água ou então usar roupas térmicas, encharcadas de gelo, para suportar a temperatura ambiente.
Quem me lê por aqui, ou convive comigo, sabe o quanto exagero nas ideias, e muito mais quando estou distante do meu canto. Coloco uma lupa (imaginária) gigante. Tudo fica maior, ampliado, invisível a olhos normais, sem lentes de grau, como os meus.
Mas não gosto de escrever sobre clima, parte histórica, lugares exóticos ou curiosidades das regiões que visito. Gosto mesmo é de narrar os absurdos que enxergo, os diálogos insanos que escuto ou travo, com pessoas comuns. Parece que me entendem, que sabem do meu blog, e que os "disparates" descobertos serão usados para rechearem meus escritos.
Engraçado comentar isso. Raramente comento sobre, mas de fato, todos os enredos param aqui...amo muito despejar neste lugar, tudo o que experimento, tudo o que gera alegria, ou me incomoda.
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A situação mais estranha.

Eu tentava abrir uma garrafa de água mineral. Todos pareciam dormir, exceto eu e o cobrador do ônibus. Viajava na poltrona ao lado. Ele e sua maleta preta.
- Não conseguiu abrir?
- Não. Está muito duro. Minha mão ficou vermelha!
- Deixe eu tentar.
- Toma.
- Nossa,  está mesmo.
- Não disse?
Nesse momento, ele lançou mão da capa da sua poltrona. Tentou abrir. Só tentou.
Partiu para a terceira tentativa. Parecia que queria me provar sua missão de macho, provedor, apto a conseguir abrir latas e garrafas, trocar lâmpadas, ou consertar coisas.... Fiquei feliz, pelo sua insistência. Definitivamente, sou machista. Essas ações que exigem força e astúcia, são de fato, tarefas de homens. De homens alfas.
Enquanto eu pensava nessa teoria, ele pediu licença e colocou a tampa da garrafa na boca. Arregalei os olhos, mas concordei. Imagina se não concordaria. Ele então tentou abrir com os dentes, como um pitbul o faria, faminto, na tentativa de morder sua vítima.
Não conseguiu, claro. Mas sua marca canina ficou lá, evidente no plástico azul da garrafa da água. Juro que nem fiquei com nojo, ademais, o contato com a água nem aconteceu!
Parecia ter desanimado. Eu estava mais sedenta. Me imaginei sozinha, com muita sede, no deserto, com essa garrafa. Eu e 'ela', lacrada. Iria enlouquecer.
Enquanto isso, meu “magaiver”, disfarçado de cobrador, abriu sua maleta preta. Retirou dela uma das suas ferramentas: uma tesoura de cortar unha. Eu ria internamente, cada vez mais impressionada com o esforço para agradar uma desconhecida. Alfa, ele é um alfa.
Analisou cuidadosamente a estrutura da tampa, e pronto: conseguiu desenroscá-la e me devolver com o conteúdo altamente sem sabor ou cor, mas com um líquido simplesmente vital, delicioso, para ser degustado com muita urgência.
Por último, foi assim:
Agradeci no escuro. A sede cessou. Concluí que sou uma sortuda mesmo. Tenho água, tive um solidário comparsa, cheio de talentos, ao meu bel prazer. Depois desse episódio, nem consegui dormir. Nasceu esse post só pelos meus pensamentos, embalada pela velocidade do ônibus convencional, sem ar, sem conforto, muito barulhento. 
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Sigo, como sempre, com muita força nos sonhos. Elba Ramalho está na torcida.
"me alegro na hora de regressar, parece que vou mergulhar, na felicidade sem fim..."

14 May 2010

Entre viajar e conhecer

Após um intervalo razoável de viagens para ministrar aulas de pós, hoje suportei 10 horas de estrada, rumo à Seabra, com direito a muitas paradas abusivas, de passageiros entrando e saindo o tempo inteiro, crianças correndo no corredor, muita poeira e o sol me perseguindo, aonde quer que eu me sentasse. Chegou um momento em que desisti de me esconder 'dele'. E expus minha face, para quem sabe, receber uma luz diferenciada.
As horas se arrastaram. Tive a impressão que o motorista desconhecia o caminho, e que logo chegaríamos em Aracaju, por exemplo. Mas não. Ele estava seguindo sua rota. Eu é que estou impaciente, intolerante, com uma ânsia em querer ver logo os resultados, as coisas acontecerem.
A expressão americana ideal seria boring, que traduzindo significa aquilo que nos causa importuno, enfado. Então, enfadadíssima, não consegui dormir, não consegui relaxar, nem ouvir músicas, e sequer prestar atenção nas paisagens da Chapada, sempre tão atraentes, tão verdes aos meus olhos.
Sou mesmo exagerada. Me diverti, sim, mas só um pouco, na passagem sobre a vila encantada de Mucugê. Me imaginei circulando de sandálias rasteiras e vestidinhos simples e alternativos, pelas ruas e praças. Um charme o lugar. Quero muito voltar lá, para comer pizza à noite, bisbilhotar todas as lojinhas, caminhar nas trilhas ecológicas tão famosas, conviver com pessoas mais aventureiras que eu.
Depois dessa visão paradisíaca, cheguei em Seabra, cidade que hoje completa 121 anos, literalmente exausta, desejando um banho bem quente e reconfortante. Meu tempo, pedindo por mais mudanças...
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Sol, cadê você hoje a noite?

12 April 2010

Ao sabor do taxímetro

Há dez minutos da rodoviária, numa tarde de domingo....

- Oi, está livre?
- Sim, não...só um momento.
- Ok.
...
- Olá, estou livre sim!
- Ótimo. Poderia me levar até a rodoviária? Estou atrasada.
- Claro. Mas hoje é domingo. O trânsito está livre.
- Mas está chovendo...
- Senhora, não temos engarrafamento daqui até a rodoviária. Que horas, a sua passagem?
- 12h30.
- Ah, temos meia hora.
- Ok, é que fico tensa. Preciso sacar dinheiro também para lhe pagar.
- Engraçado. Todos os passageiros precisam sacar dinheiro. Ninguém tem grana para o taxista.
- Hoje em dia usamos o débito...
- É. Todos dizem isso também.
- Vai ver é verdade. Uma questão de segurança.
- Eu não duvido. Corridas só prestam se for pelo Hotel. O que seria de mim se eu não tivesse essa parceria com o hotel?
- Mas não há passageiros na rua, precisando de táxi?
- Há sim, mas são sempre corridas bobas, de dez ou quinze reais. A gente se estressa, enfrenta engarrafamento, para deixar o passageiro na porta de uma clínica ou na rodoviária. Não vale a pena.
- Mas você tem meta por dia? Por semana?
- Não..contanto que dê para eu pagar o aluguel do carro (R$350), toda segunda, e do mês (R$400), tudo bem.
- Nossa, você paga caro...é mais caro que pagar um financiamento de um carro...
- Pra senhora ver. Por isso que gosto das corridas para o aeroporto. Rapidinho faturo cem reais, mas tenho que deixar os 10% no Hotel...fazer o que?
- É. Fazer o que?
Viajei na conversa...fiquei imaginando as despesas do taxista...mas me policiei: já não me basta saber o que eu tenho que pagar?! Ele, por sua vez, parecia em um divâ, um verdadeiro desabafo em seu quase monólogo.
- Pior mesmo é aturar os carros pequenos. Esse pessoal namora, passeia, anda devagar, fala ao telefone, fica indeciso, não sabe se vai, se volta, se segue ou se vira à direita. Impressionante. Os carros pequenos atrapalham meu roteiro, minha vida, meu trabalho...um transtorno!!! Pronto, chegamos. A senhora tem quinze minutos para sacar seu dinheiro e depois seguir viagem!
- Oh, que bom! Aguarda um pouco, que já volto.
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Paguei, agradeci e me distanciei do taxista que me fez repensar a vida no trânsito. Percebi que, provavelmente, sou uma motorista de carro pequeno que incomoda (muito) todos eles, os taxistas e também os motoristas de ônibus, que me incomodam mais que os taxistas..uma bola de neve de incômodos!
Em termos de retorno financeiro, a corrida comigo foi boba pra ele. Para mim, excepcional.

5 February 2010

O rei momo na berlinda


Fonte: imagem liberada na internet

- Olá, boa noite!
- Boa noite!
- O senhor me leva para rodoviária?
- Sim...já está fugindo do carnaval? Sorte a sua!
Risos...
- Não, quem me dera...
- Não gosta do carnaval de Salvador?
- Gosto sim. Quem me dera já estar de folga do trabalho, desde hoje. Mas o senhor não gosta de carnaval? Tem muito bêbado invadindo seu táxi?
- Não...quer dizer, é a melhor época para se ganhar dinheiro, pois tem mais turista na cidade, mais gente com medo de levar multa por causa da bebiba...mas em compensação a festa se transformou muito...há 25 ou 30 anos atrás era uma maravilha...bandinhas, músicas lindas, não existiam camarotes...

Parecia um desabafo. Eu ouvia balançando a cabeça, obviamente concordando, afinal vivenciei tudo isso. E ele continuou sua reflexão.

- Hoje, você passa na Barra, em Ondina, na Avenida Sete...só se vê gente montando camarotes...mudou tudo...antigamente as pessoas é que faziam seus camarotes...arrumavam a varanda, faziam comidinhas, traziam as cadeiras e bancos e dava tudo certo...todos andavam à vontade pelas ruas, limpas, sempre limpas, as crianças participavam junto com os pais....me lembro que todo mundo usava máscara ou fantasias...tinha serpentina no ar, era muito melhor...hoje temos uma banda que faz sucesso que se chama Psirico, e outra que se chama Vixe Mainha! Que absurdo...
- E o senhor sabe o que quer dizer Psirico? Perguntei já entrando no clima carnavalesco dele.
- Ah, não faço idéia...nem sei se no dicionário tem essa palavra...sei que odeio tudo que eles tocam...é uma porcaria. Mas ganham dinheiro!
- Oh, chegamos...
- A senhora vai trabalhar no fim de semana?
- Sim. Estou indo agora para Seabra, na Chapada Diamantina.
- Ah...conheço Mucugê...muito lindo aquilo lá... boa viagem!
- Obrigada!

Paguei, peguei um carrinho, tentei sacar dinheiro, e não consegui. O relógio marcava 23h05. Fiquei triste porque o percurso durou pouco, no máximo 5 minutos de boa prosa.

O taxista parecia (muito) carente, querendo conversar sobre algo interessante. Penso que, como ele, as pessoas mais falantes (ou que escrevem mais) são as mais solitárias e carentes. Claro que me enquadro, nos dois grupos.

Mas apesar de pouco, foi um tempo suficiente para eu rever os últimos 39 anos de carnaval da minha vida. Inferno astral está pesadão...dia 19 acaba(rá), enfim.

Naquela época, por volta dos oito anos, eu tinha meus manos e pais juntos, em bailes num clube, lá em Vitória da Conquista.

O cenário era exatamente esse que o taxista descreveu.

Me lembro que minha mãe sempre me vestia de baiana (eu sou desde que me entendo por gente) ou havaiana, com um vestido floral, com um colar de plástico com folhas coloridas.

As fantasias das outras meninas eram sempre mais lindas: bailarinas, borboletas, cinderelas... os meninos estavam sempre de piratas ou de tarzan, sinônimo de masculinidade, força, liderança...eram e são tantos os clichês entre homens e mulheres...

As músicas, melhor as marchinhas, falavam em pierrot, colombina, que as águas iam rolar...

Mas veja: já se falava em bebedeira, mas era realmente outro mundo, outro estilo de vida e de carnaval. Era mais brincadeira do que qualquer outra coisa. Falávamos assim: vai brincar o carnaval onde? Hoje falar isso é sinal de velhice, de ter pertencido a tempos jurássicos.

Mas discordo dele, quando diz que atualmente o carnaval é péssimo. Aos 15 anos, no dia do meu aniversário, nada de valsa ou festa com vestido cor de rosa...ainda assim, foi maravilhoso: curti o meu primeiro show do Chiclete com Banana, que contava ainda com Luiz Caldas. Simplesmente contagiante! 

Já na fase adulta, tive o prazer de curtir muitos blocos e camarotes, sempre rodeada de amigos, e muitas histórias para contar na melhor idade...

Ou seja, me divirto independente do seu formato. Talvez antigamente o carnaval fosse mais poético, mais romântico. Hoje é (muito) mais profano, e mais caro, também.

Coincidências ou não, repensar o valor do carnaval é quase tão interessante quanto repensar o que mais importa viver, em tempos líquidos.

Por falar nisso, também não sei o que que quer dizer psirico, que agora reduziram para PSI, mesma sigla do curso de Psicologia da faculdade em que trabalho.

Mas agora vou descansar porque a noite promete. Terei a primeira aula de pós-graduação do ano, sobre avaliação e intervenção psicopedagógica. As águas já estão rolando, pra mim.
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Ah...bem lembrado. Nasci no mês 'dele': 'fevereiro, alegria, muita festa todo dia...'!

21 November 2009

Onde o Rio é mais baiano- parte 1

Sinceramente, optei em escrever sobre essa viagem, concebendo-a desde o embarque em Salvador, até o momento de pisar de novo em minha adorada terrinha. Mas daí, fiquei tensa. Como conseguiria ser objetiva, e não cansar meu querido leitor? O mini-blog famoso, que limita a escrita em no máximo 140 caracteres, certamente já me ajudou a ampliar essa habilidade mas concluí que não havia como resumir tanto, já que foram muitas situações emocionantes e engraçadas, que precisariam (digo, deveriam) estar registradas nesta narrativa.

Assim, para dar a impressão de textos mais curtos, decidi dividi-la em três partes: o antes, uma espécie de bastidores na chegada, o que nos aconteceu durante o casamento, e enfim, os eventos pós bodas de minha prima Paulinha com seu príncipe Léo. Prometo que tentarei contemplar os melhores momentos...para quem quiser tirar um cochilo antes e voltar aqui, fique à vontade...a leitura pode ficar para depois. Sou a favor da liberdade para o leitor! Porque, como bem refletiu Daniel Pennac, o verbo ler não suporta o imperativo. Maravilha! Portanto, vou usar essa lógica aqui em minha escrita, assim me sentirei mais livre para escrever o quanto me der vontade!

Então vamos a ela!
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Parte 1: A viagem mais esperada finalmente aconteceu.
A ida para a cidade do samba, me lembrou Caetano Veloso, porque ele descreve sobre a terra dos globais, com muita propriedade em várias das suas músicas, inclusive essa, título desta história narrada aqui. Como diz na letra, essa viagem foi realmente o retrato da Bahia no cenário do Rio, uma espécie de ensaio da Mangueira, por conta dos preparativos e a alegria contagiante dos descolados integrantes, com direito a tudo: trocentos desembarques e horários de chegada distintos, de locais diferentes, malas, bolsas e celulares de todas as marcas e toques possíveis, mesa (sempre) farta e muita, muita algazarra. Num espaço de 4 dias curtimos uns aos outros, 36 ao todo, fomos a la plaia, bebericamos muitos chops nos bares de Copa (cabana, princesinha do mar...), conversamos e nos divertimos com as histórias e dos micos de todos, nos enfeitamos para as festas: da família reunida, da minha mana aniversariante e dos noivos, motivo maior da nossa viagem ao universo dos cariocas.

No embarque, fui parar na fila imensa dos vôos internacionais, me dei conta do erro, ri sozinha, saí à francesa e acabei me encontrando com os familiares que estavam no ságuão, à espera de outro vôo, diferente do meu. Um café, um pão de queijo e conversa rápida com minha manas e sobrinha, atualização das últimas horas, sob a vigilância de um gentil recepcionista da cia aérea, que me permitiu almoçar às 16h35, antes do embarque.

Me despedi depressa delas e, já alimentada, adentrei a aeronave, procurei minha poltrona e percebi que estava ao lado de um casal muito simpático, ambos com um sorriso acolhedor. Como estava com muita ansiedade, fiquei mais calma, porque entendi que o canal estava aberto para nos conhecermos. De fato, conversamos a viagem inteira.Vi fotos do afilhado da curitibana, conversamos sobre a vida, o casamento deles, a Bahia, Morro de São Paulo e também como era o reveillon no Paraná.  Me lembro que falei do meu blog, e que certamente eles seriam citados, em breve...se vierem aqui, verão que cumpri a promessa!
Duas horas e meia depois, cheguei ao Rio! Peguei minha sacola, subi, chequei os e-mails, visualizei comentários carinhosos postados por amigo querido, me encantei com lembrancinhas cariocas nas lojas, folheei as revistas e em seguida decidi comer batata frita, acompanhada de um "garotinho", já tentando me adaptar ao estilo carioquês de passar o tempo.

Como observadora que sou, fiquei impressionada com meus vizinhos das mesas à minha volta. Tinha um bem ruivo, com óculos de armação cinza chumbo, calças vermelhas, blusa rosa, cachecol lilás, blazer e meias azul marinho e tênis de couro branco com detalhes vermelhos...além de exótico, me parecia um alemão...sorriu pra mim e fiquei desconcertada, afinal estava claro que eu não o estava paquerando, mas conferindo o quanto era diferente dos demais por ali!

Percebi ainda muitos carrinhos apinhados de bagagens e outros tantos com bebês adormecidos...que lugar cheio... as pessoas circulando pela praça de alimentação como se estivesse num shopping center! Que engraçado essa dinâmica desse povo reunido que não se conhece...também vi mais pessoas solitárias como eu, e imaginei o que rondava em cada ser pensante...tristezas por amores perdidos? Viagens canceladas? Atrasados para os encontros? Reuniões de negócios? Espera de familiares vindos de vários lugares, como estava eu aguardando? Depois dessa divagação toda, fechei minha conta e me dei conta que nesse ritmo iria gastar mais do que havia combinado com minha conta bancária. A voz de dentro me disse "moderação, garota...vamos com calma...sequer saiu do aeroporto!" Ri mais uma vez...angustiada e ansiosa pela chegada dos demais!

Então, a primeira leva de seis visitantes chegou, recepcionados por Carmem, madrinha da noiva, meu tio, o pai da noiva, e seu irmão, que foram gentilmente nos apanhar. A pergunta dos três, que nos fizeram repetidamente foi: quantos vão chegar amanhã? Rimos muito, e nem conseguimos responder, porque ficou claro que a multidão baiana dominava literalmente o imaginário de todos os anfitriões!

Enquanto isso, na casa da (tia amada) Lola, dois carros com cinco em cada, chegaram de Ipiaú e estavam perdidos pela nossa senhora de copacabana...mais risos...na manhã seguinte, voltamos ao Galeão (olha a intimidade) para recebermos os novos acreanos: mais seis e meio, considerando Lucas, meu sobrinho de quase 2 anos, o mais fofo dos fofos! Fomos, eu e Mana Dinha com dois primos (Diogo e Cau), em dois carros!!! Confesso que pleiteei em seguir dirigindo, mas preferiram não arriscar, dada a minha dificuldade em seguir esquerdas e direitas...preciso vencer essa confusão tão simples...

17 October 2009

A cidade aos pés da serra

Abre aspas. Embora com novas expectativas, a rotina (ainda) prossegue em meus dias. 20h30 de sexta, nova viagem para ministrar Estágio Supervisionado, uma das cinco confirmadas até a terceira semana de dezembro. Nova arrumação de mala, nova correria, e de novo, ônibus lotado, com duas poltronas vazias: a minha e a do meu lado. Daí pensei: oba, sorte minha! Ora, não vai ser tão difícil assim, de o tempo passar aqui.

Ledo engano! As horas se arrastaram, num espaço que desejei muito me livrar logo: dois bebês, e um deles chorando com a chupeta que eu intuí que iria sumir, de tanta algazarra que fez, tamanha sua felicidade em estar ali, seguidos de muitos casais: senhorios e senhoras de idade melhor, com conversa (fiada) sem fim, mesmo com tudo escuro.

E claro, muito barulho de dedos buscando abertura dos trocentos sacos plásticos com quitutes e lanchinhos para uma viagem de 5h apenas! E fiquei pensando como me livraria desse barulhinho tão chato. Bem, creio que se alguém inventar uma nova modalidade de sacola, que não produza efeito sonoro em locais fechados, ganhará um prêmio inovação e será reverenciado por mim e por todos os que se incomodam com coisas tão pequenas, mas chatinhas de aturar. Fecha aspas.

A chegada, enfim, aconteceu. De tanto tentar dormir, me mantive acordada e a cada parada, busquei identificar se já não estava em Ruy Barbosa. E minha memória fotográfica me fez reconhecer as árvores chapadas, da praça que circunda bancos, comércio e o Hotel Orobó- nome de todas os outras referências comerciais, em homenagem à Serra do Orobó, 950 m de altura em relação a Ruy Barbosa, e que, segundo um site não muito confiável, diz que muitas vezes a serra já foi utilizada como rampa de asa delta e para a prática do ecoturismo. Uau....precisaria conferir isso de mais perto!

- Vou descer aqui, avisa que vou descer aqui!
Alívio imediato, ao sair e sentir o friozinho noturno, o vento da serra, uma delícia.
- Senhora, tem mala?
-Sim, uma vermelha.
- Certo, preciso do seu ticket.
- Ok.
- Obrigada e boa noite.
- A senhora vai para o hotel?
- Sim, como faço? Está tudo escuro por lá!
- Fica tranquila, ao lado tem uma delegacia.

Simples assim.E lá se foi ele, seu ônibus apinhado de gente e sacolas plásticas ruidosas... fiquei incrédula, olhando em volta, no silêncio da noite, e me perguntando se estava eu numa enrascada. Falei alto:
- Claro que não!

Então, saí arrastando a mala, muito certa de que daria tudo certo, porque sempre encontro um anjo, do nada. Batendo palmas, gritei baixinho, sem querer alardear que estava sozinha e sem teto e então disse:
-Oi de casa. Nada. Ri de mim mesma, óbvio.
-Oi de casa! Desta vez mais alto...mas nenhum sinal de lá de dentro.

Segui a dica do motorista e fui até a delegacia, que estava com luzes acesas. Não avistei ninguém por lá. Mas talvez estivessem dormindo. Ou, quem sabe, o delegado ou o plantonista estivesse curtindo a tranquila noite de sexta-feira com sua namorada...será que ele tampou a boca da moça, para ela não me responder com um solícito "já vai"? Não. Chega de imaginação!

Voltei, e de novo gritei "oi de casa". Nada, nada, nada. Daí resolvi arriscar chamando a dona do hotel pelo nome, que eu não me lembrava, mas que deveria ser Dona Lúcia, Dona Rita...e comecei com um, depois com o outro e...nada.

Meu anjo apareceu, enfim. E me disse:
- Desse jeito, você não vai conseguir nada. Vou tentar do outro lado!
- Dona Raimunda??????? Tem uma hóspede sua aqui na portaria!

Ah, então era esse o nome mais cobiçado por mim, às 2h35 do sábado? Sim. Pior que eu sabia que era um nome bem simples, como ela e sua deliciosa carne do sol com aimpim.

Então as luzes se acenderam, cheguei "em casa" e o sono venceu o início de um dia muito estranho.