14 September 2018

36 anos de uma dor que nunca morre

36 anos. 36 longos anos que meu pai partiu. Durante muito tempo fantasiei que estava só em uma das suas muitas viagens. Que logo voltaria e que chegaria bem cansado, querendo colo. Que pediria seu chinelo pra minha irmã. Que chamaria todo mundo pra almoçar à sua volta. Era uma rotina que eu amava na infância: ouvir a buzina, gritar “chegou” e ir correndo abrir o portão pra receber nosso senhor Waldemar de Carvalho Santana. A vida segue. Nós seguimos com essa ausência. Seguiremos com saudade de sua presença tão forte e marcante. Sempre digo que devemos lembrar dos que partem pelas suas datas de aniversario, mas hoje senti cheiro de estrume de boi, senti muito a falta dele em todos esses anos sem seus conselhos, sem seu abraço, sem me dizer pra onde ir e o que fazer.

4 September 2018

é tudo mentira nesse bilhete

A solução  é privatizar tudo!
Escolas, universidades, hospitais, estradas. Imaginem aí... museus sendo administrados por organizações sociais e empresas... querem queimar (ops) e acabar com todos os nossos bens públicos e o discurso que predomina e convence quem não lê a realidade com lentes críticas, também acredita e propaga a ideia que as instituições públicas não sabem fazer gestão dos seus recursos....  bom... a mídia golpista tem ajudado a consolidar a ideia, tão impregnada da intenção política de desqualificar gestores públicos... assim o estado deixa de arcar com suas obrigações e passa a ser cada vez mais mínimo... estado pequenino que vai trabalhar para isentar impostos e conceder vantagens para os ricos e abastados... 0,1% da população vai ficar feliz, porque 99,9% não terá nenhum direito social assegurado.
O ódio partidário tem a ver com a ideia de que a desigualdade social é natural e legítima: tem que continuar existindo assimetria sim.
Pobre e preto cursando medicina? Nem combina com jaleco branco.
Pobre e preto com iPhone? Roubado.
Pobre e preto circulando em shopping? É vandalismo na certa.
Pobre e preto andando de avião, comprando carro? Não pode, não deve.
Pobre e preto na mesma praia que aqueles que odeiam a galera da esquerda radical? Não podem. Precisam de ilhas. Precisam de muros altos e cercas elétricas.
O Brasil global que alguns querem não tem imigrante, não tem favelado sonhando com ascensão, porque sabe que tem que servir o patrão, a patroa.

7 August 2018

Moção de repúdio: em respeito à memória de Anamelea de Campos Pinto

Essa moção de repúdio é contra toda e qualquer forma leviana de exposição desmedida da vida privada de qualquer um de nós, em especial de Anamelea de Campos Pinto, que faleceu em 04 de julho de 2018.

5 August 2018

do lado errado da história

Quem quer eleger Bolsonaro quer estimular uma sociedade que legitima a tortura e a violência como princípios.
Quem quer ajudar a eleger Bolsonaro entende que a democracia  só pode fazer sentido no discurso, mas não pode nem deve ter vez no mundo real.
Por que não podemos ter um Brasil mais democrático? Por que quem apoia o tal do candidato bizarro, concorda com ele que temos que ter e manter desigualdades, sim, pra crescermos?
Essa galera fã do Bolsonaro ama as idiotices que arrota em horário nobre e concorda que "afinal o sol não é pra todos, nem pode.... o sol é apenas pra quem merece, né?"
E quem merece sol, casa, comida e roupa lavada são os que estudam e trabalham... esses 13 milhões de desempregados por aí... bem, eles não merecem oportunidades, por isso estão e merecem estar à margem.
Essa é a lógica capitalista, que prega a ascensão do indivíduo e não propõe uma mudança na estrutura, que possa conceber uma outra sociedade que invista para transformá-la.
O projeto Bolsonaro no Planalto visa garantir mais e mais o estímulo à competitividade, a corrida desenfreada e injusta por espaços de poder. É uma visão desumana, egoísta, absolutamente equivocada.
Então... se o voto é direto, quem são eles e elas? São eleitores e eleitoras que diretamente validam a lgtfobia, o machismo, o fascismo, a exclusão social e a exclusão étnico-racial.
Mas diante de tanta desinformação... triste é constatar que a nossa educação também tem muita culpa nisso. O nosso sistema educacional, de rede pública, tão fragmentado e desqualificado no estado brasileiro, precisa investir muito mais e pesadamente na formação política dos nossos docentes, das nossas crianças e jovens.
A luta se mantém gigante e também urgente.

2 August 2018

quem é meu pai, mãe?

Escrevi isso em 2013. Eu sinto tudo isso ainda, cinco anos depois. Hoje eu diria mais: seu pai é o que escrevo, filho.
Em clima de festa! O môblog, leonino, até dizer chega, fará 9 anos no dia 22 de agosto de 2018.
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Das conversas esquisitas, e difíceis, que em algum momento uma mãe tem que ter com seu filho:
Filho, hoje fiquei pensando em quem poderia ser o seu pai. 
Calma, não pensa que sua mãe é uma leviana, que não sabe a quem dedica amor, tempo. 
Não é bem assim. É que em seu caso, por ser um "filho" diferente da normalidade, seu pai também não poderia ser qualquer um. Ele reside em mim. E quando sai de mim, vira texto, texturas. Ele, seu pai, é o meu pensamento. Ou o meu sentimento materializado no pensamento, depois na escrita.
Não sei se com quase 4 anos vai me entender, mas resumindo, o seu pai é o que penso e o que sinto. E será assim, pra sempre.

22 July 2018

sobre o efêmero

eu quero a sorte de um amor tranquilo
com sabor de fruta mordida
nós na batida, 
no embalo da rede
matando a sede na saliva
ser seu pão
ser tua comida
todo amor que houver nessa vida...


Sempre quis viver essa música. Sempre achei ser possível viver um amor assim, com sabor de fruta mordida, natural, sem artifícios, sem maquiagem. Talvez por isso essa canção faça parte da minha trilha sonora e me acompanha em todos os meus dilemas, durante os estragos amorosos. Digo estragos, mas com muito pesar. Queria (ser capaz de) viver um romance e que também fosse duradouro, resistisse ao tempo, às tempestades. Cansei de desistir das minhas paixões. Já desisti de histórias lindas, fortes, incríveis. Eu não queria mais desistir de viver nada. Queria apenas insistir. Mas me pergunto como conseguiria... porque eu penso que as relações hoje em dia são mais frágeis que as de antes. Será que acompanham a evolução das tecnologias? Do mesmo jeito que surgem, são deletadas, num clique? Será que desaparecem se o sinal da internet oscilar? Alguém me ensina como viver um amor tranquilo? Tem receita pra isso? Onde encontro? Onde estou errando nessa busca? 

7 July 2018

minha irmã partiu

Eu estive e continuo chorando todos esses dias. Anamelea era como uma irmã pra mim. A gente não tinha quase nenhuma característica parecida, além de sermos aquarianas e professoras do Centro de Educação da Ufal, mas nos tornamos grandes amigas, cúmplices, parceiras de caminhadas, de compras de supermercado, de baladinhas, de diálogos, de almoços, de muita troca e respeito.
Eu vou sentir muito a falta dela. Já estou seguindo, com esse vazio. Porque ela preenchia todos os espaços com sua amorosidade e alegria e mesmo quando estava triste, ainda assim era muito generosa.
Ana era amor. Só queria amar. Só queria receber amor de volta. Espero que ela esteja num lugar melhor.
Não entendo nada de vida após a morte mas só desejo que ela esteja em paz, que descanse desse mundo hostil.

5 July 2018

a saudade já é eterna

- Alô?
- Alô, o que amiga? Tu não tá vendo aí que sou eu? Pra que serve o identificador de chamadas?
- Oh Juju... eu sou da geração baby boom, anos 60...
- Sim, amiga, mas tu é das TICs... identificador de chamadas já existe... não seja contraditória...
- Mas é um hábito antigo... é tocar o telefone e digo "alô".
- Oh senhor...
- Mas diga aí, minha irmã.. o que você manda? Tá por onde?
...
Era assim que nos falávamos TODOS OS DIAS. Anamelea com suas idiossincrasias. Anamelea sendo Anamelea. Anamelea do signo de aquário e de ascendente em Peixes. Anamelea, a brasileira mais francesa, com descendência portuguesa e seu sotaque paulistano, com sua voz lindamente forte, quase uma locutora de rádio.
Eu vou me lembrar sempre disso, toda vez que alguém atender uma ligação minha no celular e me disser "alô".
Eu vou me lembrar dos nossos ricos diálogos, da nossa cumplicidade.

1 July 2018

heróis não existem

Argentina e Uruguai foram os primeiros países que conheci fora do meu. França, o primeiro da Europa que ousei chegar. Portugal, lugar que escolhi pra estudar. Passei pelos 4 com muita humildade, respeito e curiosidade pelas suas culturas e povos. Não acredito em heróis e por isso não faço chacota dos seus jogadores. O futebol é um esporte que emana a paixão das crianças, dos jovens, dos mais velhos também. Ser brasileira em outras terras sempre me causou essa impressão. O fervor pelas ruas em dias de jogos é muito lindo. Como baiana que sou, amo as torcidas do BAVI e não compreendo um time por um único jogador bom de bola. Time é time. Cada jogo é um jogo. Não creio que Messi e Cristiano Ronaldo deixaram de ser melhores jogadores apenas por uma única partida!! Só não são a bola da vez, nesta copa. A mídia não sabe lidar com esse fato. É preciso criar uma cultura de ídolo? Não. Não precisa. Os torcedores continuarão amando o futebol, seus países e seus times.

28 June 2018

semear milho, colher canjica: por que não?

O mês de junho, melhor do ano depois de fevereiro, trouxe muita coisa boa, mais milho na comida (risos), mais milhas geradas nos ares e nas estradas, mais desejo de viver na simplicidade, sem querer nem mais nem menos, sempre em paz, torcendo por menos dor, mais saúde, mais torcida a favor que contra.
o mês dos santos prediletos me faz surpresa todo ano. O mês de Antônio, João e de Pedro (amanhã), gera milagre pra quem tem fé, pra quem acredita que o mundo pode ser menos hostil e que podemos confiar mais uns nos outros.
Muitas lágrimas secaram. Outras insistem. A luta não cessa.
Torcendo muito pela recuperação de minha amiga querida. Torcendo muito por todos os meus afetos. É que quando perdemos presenças lindas em nossos dias, devemos insistir por vida plena e feliz para os que estão vivos e presentes. 

23 March 2018

Meu Luan formou!





Demorei um pouco pra cumprir a promessa de escrever um textão narrando tudo que aconteceu nos três dias e noites de festa da formatura de Luan Costa Miranda Rayres, para os íntimos apenas o "meu Luan", apelido carinhoso como todos nós familiares o chamamos. 
Aí me dou conta de que "um apelido carinhoso é mais difícil de esquecer", como nos lembra a música mais tocada na balada do meu Luan, que nos embalou 24h por dia e abalou (literalmente) a estrutura da casa de praia da festança, em Stela Mares, situada num dos lugares mais lindos e paradisíacos do litoral de Salvador, da nossa Bahia.
Vamos às lembranças mais recentes:
O evento do núcleo #BatistaRayres começou bem antes de 17 de março de 2018. Foi planejado nos últimos seis meses e festejado nos últimos cinco anos, desde que o Meu Luan começou a faculdade de Engenharia Civil, lá atrás, nos idos 2013.
Antes de falar desse evento em si, é preciso registrar que a nossa família é rainha em realizar festas grandiosas. Nossa família é acostumada com grandes eventos que reúnem todos os núcleos, em um único espaço, com direito a presença de cachorro com nome de príncipe, o famoso Lord, e muita gente circulando: gente pequena, gente grande, que chega de carro, de avião, de carona, de ônibus. 
Momentos com participação de parente que chega de viagem pela manhã, ou à noite, ou de tardezinha, ou de madrugada, ou de surpresa, fazendo barulho, que diz que não vem, mas chega na hora H.
Festa com gente linda que faz (muita) comida o dia todo, gente que bebe mais do que deveria, que passa mal de ressaca, que dorme no chão, no sofá e até de gente que não dorme nunca. 
Voltemos no tempo. 
O formando e o pai do noivo, ops, do formando, choraram juntos, muitas vezes e claro que entendemos o motivo de tanta sensibilidade.
A mãe do noivo, ops, do formando, ficou tensa, chorou um bocado e entrou em desespero, com medo de que as coisas não saíssem como tanto sonhou e investiu. Ela parecia que ia mesmo casar seu filho único, tamanha a sua preocupação com os mínimos detalhes da cerimônia. Flores delicadas e iluminação diferenciada, decorando os espaços, buffet com garçons e mesas dispostas no jardim, bebidas e coquetéis servidos aos convidados, de um lado ao outro da casa, na beira da piscina. Um bolo com um edifício projetado, doces personalizados com os temas da engenharia. Comemos delícias em formato de tijolos e eram doces e macios, contrariando a ideia do concreto, da dureza, do cimento. Não se tratou de obra inacabada ou abandonada. Tudo foi feito com amor, alegria e muita emoção de ver Meu Luan formado e celebrando lindamente com seus muitos amigos e amigas.
Da emocionante missa numa igreja linda, na cidade baixa à colação de grau, tudo foi lindo de ver e viver. Do choro às gargalhadas. Do silêncio no altar aos muitos decibéis do DJ que tocou até o amanhceer, tudo na festa-casamento-formatura do Meu Luan foi incrível, surpreendente.
Eu vou torcer pra que todas as boas novas cheguem na vida desse novo engenheiro, para que possamos continuamente celebrar a lindeza de ser humano, de filho, de primo, de profissional que certamente se tornará.
Deu tudo muito certo. A festa-rave foi perfeita, primos. Meu Luan formou e agora é saudade desse tempo juntinhos e muita esperança num futuro que promete novas conquistas. 




Amo vocês.

Prima Juba do Núcleo Santana

6 February 2018

7 anos não são 7 dias

Hoje completo 7 anos que passei a residir nas Alagoas.
Me lembro bem que cheguei em Maceió de ônibus, após 16h de viagem e também de muito choro da família na despedida, lá mesmo onde a noite esfria, em Vitória da Conquista.
Cheguei com malas, caixas e muitas expectativas sobre a nova morada, o novo trabalho, os novos amigos, os novos sonhos.
Lá em 2011 eu tinha menos ousadia que hoje. Mas me sobrava romantismo. Ah, tá. Sigo romântica. Mas bem menos, com certeza.
Foram 7 anos bem vividos, com muitas conquistas pelo caminho: doutorado, um sanduíche em Portugal, viagens fantásticas, turmas lindas na Pedagogia e nas licenciaturas, amigos que eu ganhei.
Que eu possa continuar firme nas minhas lutas diárias.
Que eu possa sonhar muito ainda.
Que independente de onde eu esteja, que eu valorize as minhas memórias.
Que eu sempre comemore a minha história.
Isso é legitimar o que se vive.
É assim que acredito ser possível reunir trabalho e alegria.
Alagoas dos coqueiros mais altos e lindos.
Alagoas da minha amada Ufal, que mais do que nunca precisa concretizar uma Outra Ufal.

22 January 2018

o que é do homem o bicho não come

Essa é uma expressão que ela sempre teve dificuldade de entender, por não acreditar muito em destino. Pra dizer francamente, apesar de gostar da astrologia, de tarô, búzios, linhas da mão e toda a sorte de energia para explicar a subjetividade no mundo material, essa mulher é cética demais. Argumenta, por exemplo, que entre gostar e acreditar tem-se uma distância gigantesca.
Conjectura que se aquário é oposto complementar de leão e se libra é par perfeito de aquário... isso serve mais pra justificar escolhas (ou a falta delas) do que qualquer outra coisa. Não, ela não acredita em nada disso. Duvida completamente que o universo conspira só porque é lua cheia ou porque um arco-íris apareceu do nada, justamente quando estava buscando um sinal dos céus.
Lembra que não é possível interpretar o cosmos, ainda mais sendo leiga de pai, mãe e todos os seus antepassados, num assunto complexo como esse.
Pensando como ela, penso que quando estamos envolvidos, apaixonados tudo ganha dimensões inexplicáveis apenas pela razão. Tem que adicionar música, poesia, sentidos outros.
Eis que essa pessoa tão incrédula, que tem certeza que papai noel não existe, mas sempre liga o pisca-pisca em todo natal, decidiu que quer passar a crer que "o que é do homem o bicho não come". Isso dá um alívio, sabe? Deve ser o máximo quem confia nisso e simplesmente vive tranquilo, sem expectativas, sem ansiedades. Sabe que em algum momento aquele "estalo" vai acontecer e por isso pode viver com essa leveza, sabendo que o melhor vai chegar em sua vida, que o amor vai enfim, pousar em seus dias, e assim vai desaparecer desgosto, desilusão, desencontro, dissabor, distância e o tal ceticismo que até gosta de alimentar entre os amigos cheios de fé e escapulários.
Ela quer acreditar nisso. Veementemente. E está de dedos cruzados, já sorrindo para o mundo inteiro, pela magia dessas palavras que (agora) soam tão verdadeiras.

14 December 2017

Catorze do doze

Meu pai foi o primeiro negro que (re)conheci.
O primeiro negro que vi na pele dele, literalmente, o quanto o mundo exclui, intimida e diminui quem não é do universo branco.
Ele nasceu na década de 20, num tempo em que ser preto e bem sucedido era ainda mais exceção que em 2017.
Hoje meu painho faria 93 anos.
Eu queria muito que seu Waldemar de Carvalho Santana estivesse vivo, sorridente, brincalhão e sisudo, ao mesmo tempo.
Eu queria muito que amanhã ele recebesse das minhas mãos, um exemplar do meu livro e me desse um senhor abraço.
Eu queria que ele me visse assim, do jeito que sou: pedagoga, professora, blogueira, escritora e, o principal, muito indignada com essa realidade racista, machista, homofóbica e misógina, em  pleno século 21.
Comemoro somente as datas de nascimento daqueles que eu amo e o tempo em vida que juntos trilhamos juntos, antes da partida. Foram só 12 anos.
Eu tenho 12 bons motivos, 12 meses, todos os anos, para agradecer pelos aprendizados, por ter aprendido que a minha luta nesse mundo, é pelo coletivo que ele (e eu) fazemos parte. É também por ele que sigo inspirada e desejante.

2 December 2017

hoje vou fazer uma sopa

Todo sábado me permito faxinar. A casa, as unhas, o carro empoeirado.
Todo sábado prolongo aquela horinha preguiçosa na cama e decido ali permanecer: sem pressa, sem correria, sem relógio apontando que o sol segue alto.
Minha rotina não é das piores. Cabe música, paradinhas pra responder mensagens, olhadela nos grupos, nas redes, tempo pra um café caprichado.
Não sei até quando terei energia para limpar a casa, os cantos e organizar armários. Não sei até quando a faxina seguirá sendo minha terapia. Mas tem funcionado. Ao fim do dia, como agora, parece que limpei todas as arestas. Parece também que fiz uma espécie de peeling na mente e esvaziei quilos de perguntassempropósitos, respostaspranemseioquê.
Claro que eu poderia contratar alguém pra fazer esse trabalho. Claro que posso me dar a esse luxo. Mas cuidar da minha casa é um luxo. Ora, se eu moro só e vivo na rua, por que não curtir esse momento a sós, eu e a minha bagunça? Quem mais deveria estar aqui, se sou eu quem provoco a sujeira? Não cabe ninguém. Não quero ninguém bisbilhotando minha lixeira, minhas compras, minhas esquisitices. Não pega bem alguém me ouvir conversar sozinha. Mais de uma mulher habita em mim. Eu pergunto e eu respondo. Não são monólogos. Ouso a dizer que são diálogos doidos, que não começam nem terminam.
Por isso, insisto em dizer que simplesmente não cabem estranhos no meu apartamento. Aqui só entra quem eu convido. Não cabe ninguém que vai mudar as coisas de lugar. Eu gosto de controlar, sim. Que mal há nisso se o que controlo me pertence? Problema seria se eu estivesse por aí, tirando as coisas dos outros do lugar. Ok, confesso. Faço isso na casa de minha mãe. Mas ela ama que eu esteja lá e fazendo tudo do meu jeito. Dona Nalva confia em mim. Ela sabe que faço tudo pra deixá-la confortável, com tudo fácil de apanhar.
Ao final da limpeza, além de fome, dá mesmo a sensação de que está tudo em ordem. Ao menos piso descalça e sinto que o caminho está livre e o ar mais leve. 
E além do estômago que pede atenção, o coração também anuncia que parece querer visita quando a casa está limpa. Mas chega dessa conversa fiada que não vai levar a lugar algum. Decidi que eu vou pra cozinha e, por ora, é melhor mesmo esquecer essa segunda parte.

31 October 2017

a vida é um piscar e dói mais do que deveria.

Ontem dois irmãos morreram afogados.
Alisson, 20 anos. Andrei, 16 anos.
Estavam desaparecidos e a família desesperada com o sumiço.
Allison era um jovem estudante de Biologia da Ufal, Campus Arapiraca, que seguia seu sonho de tornar-se pesquisador de insetos. Eis que decidiu trilhar sozinho e levou o irmão junto, certamente como apoiador da aventura pela ciência a céu aberto.
Fico pensando na dor da mãe que antes estava desesperada e, na primeira das seguintes segunda-feiras, dormiu sem receber em casa os seus filhos da volta de um passeio de domingo.
Hoje tivemos outra morte no trânsito.
Foram quase 2h num engarrafamento na via expressa e o que eu sabia é que tinha havido um acidente grave.
Junto com o corpo do jovem estendido no chão, a pista sangrava. Quem chorou por ele? Quem o aguardava? Será que estudava? Será que tinha filho? Será que, assim como eu, estava atrasado para o trabalho? Será no quê ou em quem pensava no momento da batida?
Eu, impaciente, só pensava em mim e no MEU compromisso. Eu só não imaginava que veria a cara da morte, assim, no asfalto, e pior, que eu passaria (de novo) com pressa, sem parar, agradecendo por ter o meu caminho liberado.
Partiram 3 que eu soube, em dois dias.
Eu tenho plena convicção que eu não deveria ser tão egoísta ou considerar natural a morte de ninguém.
Eu não deveria seguir como se nada tivesse acontecido.

10 October 2017

devaneios numa terça

Eu tenho o maior desejo de comemorar a vida, ao ganhar uma foto com o nascer do sol, num dia que começa com notícia triste. 
Eu fico toda loba quando me mandam a imagem de uma lua cheia, transbordando pelo mar, naquelas noites mais solitárias.
Eu sigo toda tia babona quando baixa um novo videozinho do meu sobrinho, justamente quando tudo parece perder sentido.
Eu fico toda emocionada quando sou lembrada por gente querida, e até por simples colegas, com matérias, artigos, teses, livros que tratam de relações étnico-raciais, ensino superior, políticas educacionais.
Eu me desmancho inteirinha quando recebo poesia ou um "passando pra te mandar um beijinho grande".
Eu sou uma sortuda. Já ganhei algumas canções lindas. Recebi uma, por telefone, de um certo alguém que não conheci e incorporou Hebert Viana e me perguntou cantando "quais são as coisas e as coisas pra te prender?". Não respondi e a paixão seguiu platonicamente linda.
Ah... eu já ouvi (só pra mim) a versão de "Lambada de serpente". Isso nunca vai ter preço.
De fato eu enlouqueço quando um mimo virtual me faz sorrir pra uma tela fria, mas tão quente.
#devaneiosnumaterça

3 October 2017

como é que ainda tem jornalista que nos diz "boa noite"?

No fim da tarde, após um mundo de assuntos finalizados, ela respirou fundo e pensou alto, como sempre faz pela casa inteirinha só dela (e só pra ela):
- chega de trabalhar, agora vou ver como é a tal da nova novela!
Lembrou que isso de falar sozinha está virando parte da rotina e é preocupante.
- bobagem, quem nunca?
Riu de si mesma, se ajeitou no sofá, esticou as pernas, agradeceu pelo clima de outono que insiste na primavera e ligou a televisão.
Estava passando a tal da nova novela de época, com cenas de machismo, de racismo explícito, e com aquela (velha) história repetitiva de pai que não aceita namoro de filha que aparece grávida e ordena que vá pro convento.
- Mais do mesmo, minha gente... custa inovar?
Enquanto pensava sobre isso, seus olhos pesaram e adormeceu antes do jornal das oito que tanto queria assistir. Acordou sobressaltada, achando que estava atrasada para um compromisso. Desistiu de levantar e continuou cochilando. O compromisso era ali mesmo, entre uma almofada e outra.
Vai ver a programação estava ruim e o sono venceu. Vai ver o cansaço era grande e o sono venceu. Vai ver era pra se desligar mesmo e esquecer essas coisas todas ruins que povoam as redes sociais, os nossos ouvidos e os nossos olhares indignados: um falso presidente que insiste que governa, um reitor que se suicidou, outro que exonerou, mais terrorista tocando o terror na cidade dos que casam à meia-noite e separam pela manhã, quando a ressaca denuncia.
É fato que dormir muitas vezes se confunde com fuga, para além do cansaço. Sonhar com um mundo melhor enquanto se dorme nem sempre funciona. A TV ligada lembra que a vida aqui do lado de fora continua um assombro e é isso que faz essa moça despertar e voltar renovada para a luta, ainda que seja para desabafar.
Escrever também é uma forma de resistir.

11 September 2017

daí que ganhei o dia num banheiro público


Daí você entra apressada no banheiro, com muita vontade de encontrá-lo limpo, com papel e avança em direção à cabine disponível. Como não tem nenhuma livre, recua e fica ali, se apertando e torcendo pra vagar logo e chegar a sua vez. 
Nesse momento de alívio (quase) imediato, a porta se abre e dá de cara com um lindo sorriso, seguido de:
- professora Jusciney?
- oi querida, como você tá?
- eu tô bem...
- que bom...
Daí você sai do "box" e o sorriso continua ali, presente, entre uma pia e outra e aí você se dá conta de que aquela menina quer continuar o papo do reencontro. Então você lava as mãos e pergunta:
- como está a turma?
- ah professora, eu não sei... já fiz mestrado e já estou no doutorado.
- hein? como é que é? quando você foi minha aluna?
- eu fui sua aluna em 2011, em Ciências Sociais.
- mas faz muito tempo... e lembrou de mim? Desculpa, mas são muitos alunos, muitas turmas...
- é, eu imagino... mas sua aula é ótima.. a senhora é inesquecível.
- ah... que lindo... assim eu fico emocionada... e veio visitar a Ufal?
- pois é... acabei de me inscrever num concurso pra substituto no Instituto de Ciências Sociais...
- ah... que legal, você vai passar! E como se chama?
- Noélia.
- Noélia... me conta aí do seu doutorado... o que está pesquisando? onde está fazendo?
- ah... uma pesquisa sobre o pensamento desviante na igreja universal do reino de deus, na Universidade Federal de Campina Grande.
- uau... o que será que vem por ai?
- ruptura, professora....
Daí que abri o meu sorriso também, desejei sorte no concurso e na vida.
Daí que num meio de uma segunda meio chuvosa, me apareceu Noélia e seu sorriso encantante com efeito dominó. Com tanta miséria humana alardeada pelos 4 cantos, eu penso que ainda é possível (e necessário) se animar.
#elaadoracausos #serdocenteéomáximo
(fim)