Aos 12 anos eu tinha muito mais imaginação que hoje.
Eu fantasiava que a minha vida seria sempre cercada da família, dos meus irmãos e meus pais.
Eis que a história roubou esse sonho e aos 12 perdi o convívio com meu pai, que partiu sem nem dizer tchau.
Verdade que eu não quis e nem iria querer uma despedida. Mas essa falta do seu olhar sobre mim me faz questionar qual o sentido para muitas coisas que nos acontecem e nos assombram, aquelas coisas terríveis que machucam, que causam dores, sofrimento, angústia e tristeza nesse mundo às avessas.
Então 12 sempre vai ser isso: uma justa homenagem aos 12 anos que convivemos, meu pai.
E me tornei doutora há 4 anos atrás, no dia 12 de novembro de 2015.
Na minha imaginação bem menor que a de antes, juro que senti você presente, no ar, nos sorrisos, naquele auditório cheio de gente que gosta de mim. O senhor estava ali, para me dar força e me fazer concluir uma etapa tão importante na minha trajetória profissional.
De lá pra cá tudo mudou! De lá pra cá eu já perdi a esperança e a recuperei tantas vezes.
Qual o sentido dessa vida sem você, sem minha mãe e meus manos por perto? Sigo sem resposta.
Só me conforta saber que sigo honrando seu nome e lutando pelo que acredito!
Obrigada por ter ensinado uma menina de 12 anos a seguir de cabeça erguida e continuar a viver, mesmo longe de tanta gente que ama, mesmo sem receber seus abraços e suas broncas. Como fazem falta! Eu acho que preciso de limite.
❤️
Showing posts with label quase um conto. Show all posts
Showing posts with label quase um conto. Show all posts
12 November 2019
12 August 2017
transmimento de pensação
A primeira vez que falei com ela foi na noite anterior à viagem que faríamos juntos no dia seguinte. Ela me deu boa noite, muito gentil e me pareceu um pouco apreensiva. Ela questionou se eu estaria no horário marcado. Confirmei que sim. Ela insistiu, desconfiada: vai mesmo?
9 April 2017
ainda vivem um luto
A história dos dois começou com doses de troca de olhares. Na correria do trabalho, chegou um momento em que ela precisava admitir que buscava encontrar aquele par de olhos que a fitava profunda e longamente, até mesmo quando estava mais distraída.
Foi um tempo de muitas demandas para ambos. De atropelos. De prazos. O ano estava frenético. Parecia que tudo era urgente. E o que se passava entre eles também se fazia urgente viverem à exaustão.
Foi um tempo de muitas demandas para ambos. De atropelos. De prazos. O ano estava frenético. Parecia que tudo era urgente. E o que se passava entre eles também se fazia urgente viverem à exaustão.
16 March 2015
um dos meus pais
Eu não me canso de repetir isso. É que ele nos deixou cedo demais. Eu tinha 12. Ele tinha 18. Em meio à nossa vida toda bagunçada, com a ausência do nosso velho, foi ele quem tomou a frente da difícil tarefa de continuar provendo tudo em casa: do pão ao leite, da verba para pagar as despesas às nossas fardas. Estávamos todos muito bem acostumados a confiar no talento do nosso querido homem da casa, para gerar renda e alegrias em volta da mesa. O mundo despencou sobre nossas vidas. Minha mãe perdeu o marido, nós perdemos o nosso pai, o mundo perdeu um ser humano especial. E assim seguimos nós. A mulherada toda de Seu Waldemar, incluindo a nossa vó Maria [que morava conosco], sob uma "nova direção". O meu mano Val, que amanhã completa 50 anos, teve que distanciar-se da escola e se entregou de corpo e alma ao mundo rural. A sorte é que ele amava cavalos. A nossa sorte é que ele realmente amava tudo o que nos foi herdado. Junto com meu Tio Di, deram continuidade ao trabalho que meu pai iniciou. De pai pra filho. Meu mano aniversariante sustentou bem a nova missão. Cuidou da gente e dos manos mais novos com todo o amor e responsabilidade que tinha, tão jovem.
E ele cresceu e se apaixonou pela Vaquejada, depois por sua amada e única namorada. Com ela se casou, teve três filhos lindos. Das coisas que me lembro, do passado, não me vem à mente nada que não seja uma linda convivência familiar. O meu pai, bom em matemática, foi muito esperto: preparou os três filhos para serem unidos e apaixonados por terra, gado, cerveja e futebol. Mais que isso, preparou os três para se tornarem nossos pais. Cada um ao seu modo, eles realmente continuam cumprindo essa função da paternidade. Nossa mãe é a filha mais querida. Babam por ela.
Eu amaria ter uma varinha mágica, meu mano cinquentão, para chegar até você, não através de palavras. Queria só te abraçar e te agradecer por ter conseguido o feito de cuidar da gente, como o nosso pai teria feito. Queria te dizer, também, que eu te amo muito e que você precisa viver para sempre. Com esse seu jeito despachado, briguento e divertido. Com esse olhar durão e com esse coração mole. Parabéns, Leu. Continua a tocar sua boiada e sua terra e sua madeira. O dia melhor é sempre o que está por vir. Estaremos te esperando sempre, em volta da mesa, com um bobó ou uma lasanha ou um bacalhau com o vatapá, ou aquela bela feijoada que você adora. Queria cantar parabéns, te dar um abraço e dizer que sou sua filha, sim, e com muito orgulho.
E ele cresceu e se apaixonou pela Vaquejada, depois por sua amada e única namorada. Com ela se casou, teve três filhos lindos. Das coisas que me lembro, do passado, não me vem à mente nada que não seja uma linda convivência familiar. O meu pai, bom em matemática, foi muito esperto: preparou os três filhos para serem unidos e apaixonados por terra, gado, cerveja e futebol. Mais que isso, preparou os três para se tornarem nossos pais. Cada um ao seu modo, eles realmente continuam cumprindo essa função da paternidade. Nossa mãe é a filha mais querida. Babam por ela.
Eu amaria ter uma varinha mágica, meu mano cinquentão, para chegar até você, não através de palavras. Queria só te abraçar e te agradecer por ter conseguido o feito de cuidar da gente, como o nosso pai teria feito. Queria te dizer, também, que eu te amo muito e que você precisa viver para sempre. Com esse seu jeito despachado, briguento e divertido. Com esse olhar durão e com esse coração mole. Parabéns, Leu. Continua a tocar sua boiada e sua terra e sua madeira. O dia melhor é sempre o que está por vir. Estaremos te esperando sempre, em volta da mesa, com um bobó ou uma lasanha ou um bacalhau com o vatapá, ou aquela bela feijoada que você adora. Queria cantar parabéns, te dar um abraço e dizer que sou sua filha, sim, e com muito orgulho.
16 September 2014
28 July 2014
anybody in home?
Era assim que ao abrirmos "nossa casa" buscávamos descobrir que realmente estávamos à sós, protegidos de olhos e ouvidos externos. Era desse jeito que nos descobríamos trancados. Dia após dia, noite após noite. Tornou-se nosso código secreto. O nosso "enfim sós".
O tempo passou rápido. É difícil aceitar que agora a casa só conta com um coração. Os corpos não se encontrarão mais na varanda. A mesa do café não contará com duas xícaras ansiosas por doses de calor. A quem mesmo desejar "bom dia, meu amor"?
Depois de ontem, descubro hoje que a vida segue sim, mas não com a mesma dinâmica, com o mesmo ritmo e muito menos com o entusiasmo da véspera. As lágrimas correm soltas. Um luto que resisti e ainda resisto. O sentimento não morreu. E quer sobreviver. Oceanos se apresentam agora, mas, cá entre nós, eles sempre existiram. De que são feitos os sonhos, se não nos movemos [até o fim] para merecermos vivê-los?
Não, não há mais ninguém em casa. Nem eu existo mais sozinha. Está tudo inundado de dois: dois pares de olhares perdidos, por aí, dois corações tristonhos, relembrando coisas lindinhas, duas almas que se desejam muito mais que antes. Se em inglês ou em italiano ou em português, declarar já não nos basta. Nenhuma tradução nos basta. Será mesmo preciso emitir novos bilhetes internacionais.
O tempo passou rápido. É difícil aceitar que agora a casa só conta com um coração. Os corpos não se encontrarão mais na varanda. A mesa do café não contará com duas xícaras ansiosas por doses de calor. A quem mesmo desejar "bom dia, meu amor"?
Depois de ontem, descubro hoje que a vida segue sim, mas não com a mesma dinâmica, com o mesmo ritmo e muito menos com o entusiasmo da véspera. As lágrimas correm soltas. Um luto que resisti e ainda resisto. O sentimento não morreu. E quer sobreviver. Oceanos se apresentam agora, mas, cá entre nós, eles sempre existiram. De que são feitos os sonhos, se não nos movemos [até o fim] para merecermos vivê-los?
Não, não há mais ninguém em casa. Nem eu existo mais sozinha. Está tudo inundado de dois: dois pares de olhares perdidos, por aí, dois corações tristonhos, relembrando coisas lindinhas, duas almas que se desejam muito mais que antes. Se em inglês ou em italiano ou em português, declarar já não nos basta. Nenhuma tradução nos basta. Será mesmo preciso emitir novos bilhetes internacionais.
5 July 2014
"...do visgo que me prendeu..."
Nunca mais tinha sentido vontade de escrever meus [quase] contos! O doutorado e suas obrigações me desviaram desse interesse. A copa no Brasil também desviou a minha atenção. Bastou eu aportar no Rio de Janeiro e tudo mudou.
6 April 2014
eu CURTO vestido CURTO
Nos idos anos 90...
Éramos namorados e tudo indicava que seríamos marido e mulher dali a pouco. O verbo no passado não é só sugestão. O noivado não prosseguiu por uma série de motivos, todos bem justificados. Mas, em uuma noite de inverno, começamos uma briga feia, não sei bem porquê. Talvez pelo ciúme costumeiro dele. Talvez pela minha implicância em insistir ser do contra, quando o assunto diz respeito à minha liberdade para ser do jeito que eu sou, ops, do jeito que eu já era, lá atrás.
- ou ela ou eu!
- hein?
- isso mesmo... ou sua minisaia ou eu.
pensei por 2 segundos e gritei alto:
- ELA!!!!!!!!!!!!!!
- O QUE??
- isso mesmo que você ouviu. Eu fico com ela. Eu não preciso continuar com você, se acredita que a minha roupa é um problema. Não vou deixar de usá-la. Para mim está acabado.
(...)
Alguns muitos anos se passaram e nos tornamos amigos. Ele me confidenciou que aprendeu com a situação. Deixou de ser ciumento.
Eu não acreditei muito na mudança. O jeito de comportar-se diante das mulheres continuava apontando para o seu machismo nada oculto. Eu continuei com o meu guarda-roupa e segui acreditando nisso: somos o que desejamos ser. Não perdi nada. Me livrei de outros dissabores, quiçá, de doses de violência verbal ou até física.
Nos dias atuais...
O barzinho com música ao vivo estava apinhado de gente. O burburinho de brindes e vozes eram contagiantes. Impossível ficar triste ou cabisbaixo com tanta gente animada e "azaração" por todo lado. Eu percebi que o cara da mesa ao lado, que estava sozinho, não parava de me lançar olhares. Eu correspondia à paquera, porque queria ver como ele agiria para se aproximar. Gosto de perceber as atitudes assim, quando ainda duas pessoas são desconhecidas.
Ele fez sinal para eu me dirigir ao banheiro.
- O QUE??
Ele fez uma negativa com a cabeça, chateado com a exposição. Provavelmente era tímido.
- ah, ok.
Fui, então, ao banheiro, para tentar entender isso melhor. Ele me seguiu, imediatamente.
- oi!
- isso lá é um bom lugar para um primeiro encontro?
- eu sou tímido!
Bingo.
- ah...
- e você não precisava ter gritado "O QUE?"!!!
- ah, você achou errado?
- sim, eu fiquei envergonhado...
- desculpas!
- vamos sair daqui...
- ah, sim, seria bom...
- e aí?
- e aí, o que?
- e você, está com um short embaixo desse vestido curto?
Ao invés de falar, arregalei os olhos.
- o que foi?
- nada...
- não vai me responder?
- ah, sim... quer dizer, não, não estou com short algum por baixo do vestido.
- sério?
- sério...
- mas é muito curto!
- mas você achou bonito?
- achei...
- e?
- e se você fosse minha namorada eu não deixaria você usar esse vestido.
- ah... mas não sou.
(...)
Obviamente me lembrei da discussão de décadas atrás e a conversa não rendeu. Eu voltei ao meu lugar de origem, sob pena de continuar dando munição para tipos absurdos como esse sujeito.
A origem de todo esse machismo eu nunca pesquisei. Mas condeno, abomino e combato, mesmo que a vítima não seja eu.
Por falar nisso, a recente pesquisa do IPEA apontou que para 65% mulher de roupa curta merece ser atacada. Depois fizeram uma errata e informaram outro percentual: apenas 26%!!!! Apenas? Faça-me o favor: me bata um abacate! "Nada ficou no lugar", diria uma musiquinha fofa de uma mulher desesperada para chamar a atenção da sua paixão. E cá entre nós, violência que venha de palavras ou corpos, não nos emancipa. Seja de que lado for. Melhor lutar por dias com mais paz e menos machismo.
Éramos namorados e tudo indicava que seríamos marido e mulher dali a pouco. O verbo no passado não é só sugestão. O noivado não prosseguiu por uma série de motivos, todos bem justificados. Mas, em uuma noite de inverno, começamos uma briga feia, não sei bem porquê. Talvez pelo ciúme costumeiro dele. Talvez pela minha implicância em insistir ser do contra, quando o assunto diz respeito à minha liberdade para ser do jeito que eu sou, ops, do jeito que eu já era, lá atrás.
- ou ela ou eu!
- hein?
- isso mesmo... ou sua minisaia ou eu.
pensei por 2 segundos e gritei alto:
- ELA!!!!!!!!!!!!!!
- O QUE??
- isso mesmo que você ouviu. Eu fico com ela. Eu não preciso continuar com você, se acredita que a minha roupa é um problema. Não vou deixar de usá-la. Para mim está acabado.
(...)
Alguns muitos anos se passaram e nos tornamos amigos. Ele me confidenciou que aprendeu com a situação. Deixou de ser ciumento.
Eu não acreditei muito na mudança. O jeito de comportar-se diante das mulheres continuava apontando para o seu machismo nada oculto. Eu continuei com o meu guarda-roupa e segui acreditando nisso: somos o que desejamos ser. Não perdi nada. Me livrei de outros dissabores, quiçá, de doses de violência verbal ou até física.
Nos dias atuais...
O barzinho com música ao vivo estava apinhado de gente. O burburinho de brindes e vozes eram contagiantes. Impossível ficar triste ou cabisbaixo com tanta gente animada e "azaração" por todo lado. Eu percebi que o cara da mesa ao lado, que estava sozinho, não parava de me lançar olhares. Eu correspondia à paquera, porque queria ver como ele agiria para se aproximar. Gosto de perceber as atitudes assim, quando ainda duas pessoas são desconhecidas.
Ele fez sinal para eu me dirigir ao banheiro.
- O QUE??
Ele fez uma negativa com a cabeça, chateado com a exposição. Provavelmente era tímido.
- ah, ok.
Fui, então, ao banheiro, para tentar entender isso melhor. Ele me seguiu, imediatamente.
- oi!
- isso lá é um bom lugar para um primeiro encontro?
- eu sou tímido!
Bingo.
- ah...
- e você não precisava ter gritado "O QUE?"!!!
- ah, você achou errado?
- sim, eu fiquei envergonhado...
- desculpas!
- vamos sair daqui...
- ah, sim, seria bom...
- e aí?
- e aí, o que?
- e você, está com um short embaixo desse vestido curto?
Ao invés de falar, arregalei os olhos.
- o que foi?
- nada...
- não vai me responder?
- ah, sim... quer dizer, não, não estou com short algum por baixo do vestido.
- sério?
- sério...
- mas é muito curto!
- mas você achou bonito?
- achei...
- e?
- e se você fosse minha namorada eu não deixaria você usar esse vestido.
- ah... mas não sou.
(...)
Obviamente me lembrei da discussão de décadas atrás e a conversa não rendeu. Eu voltei ao meu lugar de origem, sob pena de continuar dando munição para tipos absurdos como esse sujeito.
A origem de todo esse machismo eu nunca pesquisei. Mas condeno, abomino e combato, mesmo que a vítima não seja eu.
Por falar nisso, a recente pesquisa do IPEA apontou que para 65% mulher de roupa curta merece ser atacada. Depois fizeram uma errata e informaram outro percentual: apenas 26%!!!! Apenas? Faça-me o favor: me bata um abacate! "Nada ficou no lugar", diria uma musiquinha fofa de uma mulher desesperada para chamar a atenção da sua paixão. E cá entre nós, violência que venha de palavras ou corpos, não nos emancipa. Seja de que lado for. Melhor lutar por dias com mais paz e menos machismo.
A música citada "Mentiras" é de autoria de Adriana Calcanhotto e faz parte do Álbum Senhas (1992)
28 March 2014
"...da gente na ondina"
Ela começou a acreditar que era filha do carnaval. Ele, provavelmente, nunca pensou sobre. Mas como nasceram no mesmo dia, certamente que os pais de um e do outro acertaram na proposta: garantir que os dois nascessem no mês da folia momesca. Eis que nasceram no carnaval. Ou melhor, no mês mais comum dessa festa que une gregos e troianos em torno de trios, blocos, danças, músicas, sons, batuques, maquiagens e fantasias. Fantasias? Sim. Toda a festa envolve fantasias. Das roupas, dos adereços. Nos olhos e nos corações de todo bom folião que se preza.
14 December 2013
"pensando em você"
Hoje acordei antes das seis. Revirei na cama. Vi que ainda era madrugada. Era mais cedo ainda. Menos de cinco, já que o relógio do celular está adaptado ao horário de Brasília. Não me incomodei. Prefiro acordar sem pressa. Prefiro estar adiantada que atrasada. Mas não fiquei pensando nas horas. Nem no quê iria fazer tão mais cedo. Pensei nele, no dia dele.
4 October 2013
livre pra voar
Era uma manhã de sol. A orla, como sempre, linda, colorida, com seus coqueiros altos e baixos, com suas amendoeiras, e o mar, tomando conta de tudo, completamente sedutor, com seus tons verdes e azuis. Para quem nunca esteve em terras alagoanas, bom que imagine que o mar daqui lembra uma piscina infinita, recheada de ondas fininhas. Uma belezura sem fim.
Do lado oposto, na avenida principal, um ir e vir de bicicletas, carros, motos, transportes urbanos; todos, num mesmo ritmo frenético, governados pelos sinais de trânsito. E eu?
Do lado oposto, na avenida principal, um ir e vir de bicicletas, carros, motos, transportes urbanos; todos, num mesmo ritmo frenético, governados pelos sinais de trânsito. E eu?
22 April 2013
antes que eu me esqueça...
Narrar a minha infância, aos 43 do segundo tempo, é tarefa confusa. Me confundo com datas, estações, viagens, personagens; me lembro vagamente das quedas que tomei aprendendo a andar de bicicleta. As marcas no joelho, no entanto, me refrescam e posso até sentir a dor ao receber um algodão embebido em mertiolate, o que arde, e não o moderninho que as crianças de hoje sequer sentem na pele o que está sendo queimado.
Quando cheguei em Maceió, para morar, fui presenteada com esse momento lúdico numa magricela. Senti vergonha por ser desajeitada e não saber me equilibrar, sendo a adulta que sou. E daí fiquei a pensar nesse tal de equilíbrio emocional, que todo ser humano após os 21 precisa mais que aparentar, precisa efetivamente ter.
Das viagens memorísticas que tento fazer sobre minha vida antes da adolescência, me vem algumas cenas marcantes, que talvez o tal do equilíbrio até existisse mais que hoje.
Não me recordo de chorar por qualquer coisa, como faço agora. Choro em despedidas, ao ver gente querida discursando, ao ver novelas ou seriados, se uma música me lembra alguém distante. É um desatino sem fim. As lágrimas surgem à minha revelia. Se estou ou não maquiada, isso não me incomoda. Gosto mesmo é de desatar nós, me desequilibrar, momentaneamente.
Das viagens memorísticas que tento fazer sobre minha vida antes da adolescência, me vem algumas cenas marcantes, que talvez o tal do equilíbrio até existisse mais que hoje.
Não me recordo de chorar por qualquer coisa, como faço agora. Choro em despedidas, ao ver gente querida discursando, ao ver novelas ou seriados, se uma música me lembra alguém distante. É um desatino sem fim. As lágrimas surgem à minha revelia. Se estou ou não maquiada, isso não me incomoda. Gosto mesmo é de desatar nós, me desequilibrar, momentaneamente.
12 April 2013
há dados e dados
Dado Dolabella viajou num mesmo voo que eu e minha irmã, no retorno de Rio Branco, na semana passada. Descobri, nessa experiência com um "famoso", que já estou quase curada da síndrome da tietagem, que carreguei durante anos. Mesmo estando mais tranquila, claro que analisei ele de cima a baixo, sobretudo de costas, já que estava na poltrona da frente. Pude observá-lo muito, e fiquei impressionada como gosta de alisar os fios do seu cabelo sedoso. A minha irmã, ao meu lado, tecia comentários hilários. Ele realmente é muito bonito, fisicamente. Por fora, bela viola.
11 March 2013
no dia em que o sorriso sumiu
Parecia que se conheciam muito e já fazia muito tempo que se conheciam. Mas era só uma impressão. Conheceram-se há pouco mais de um mês, numa conversa truncada, mediada por uma pessoa que ama juntar corações solitários. E dessa conversa truncada, trocaram outras tantas.
1 February 2013
janeiros vencidos
Já passaram dias, inteiros.
Janeiros, calendário que nunca chega ao fim.
Início sim, é só recomeçar.
Janeiros, calendário que nunca chega ao fim.
Início sim, é só recomeçar.
A vida segue à revelia do que sinto. Lá fora imagino o trânsito como sempre, caótico, o mar, suas ondas e as pedras pelo caminho. Os coqueiros, com seus lindos balanços nas folhagens. As pessoas fazendo coisas e coisas, entre diálogos e brigas. Muita gente trabalhando no sol forte; outras confinadas em salas com ar gelado; alguns preparando fantasias carnavalescas e tensos com os prazos de entregas. A televisão brasileira, mesmo desligada aqui em casa, ainda esmiuçando mais do mesmo, sobre a tragédia lastimável em Santa Maria. E como será que está sendo viver, depois de tudo? Penso nos traumas dos que sobreviveram [e nem sei se são sortudos], e em todas as famílias envolvidas. Tento imaginar suas angústias, suas dores e suas saudades. Não consigo. É demasiadamente pesado. Sofro mais. Tento focar em outros pensamentos.
1 December 2012
era uma vez nós 2
Bom encontro é feito de dois, como diz uma musiquinha-recado de Vanessa da Mata. Certo que eu ainda imagino ter direito a viver um conto de fadas. Espero ainda viver um encontro efetivamente feito de dois.
Até bem pouco tempo atrás pensei ter encontrado um príncipe mais que encantado, tamanho o meu envolvimento apenas pela maneira como ele me fitava.
Por ele, juro ter pensado que eu seria capaz de enfrentar bruxas, madrastas, florestas tenebrosas, duendes, anões zangados, lobos, estradas, mares, luas, espinhos, curvas e curvas. Sem a mesma disposição do outro lado, claro que não obtive êxito.
Por ele, juro ter pensado que eu seria capaz de enfrentar bruxas, madrastas, florestas tenebrosas, duendes, anões zangados, lobos, estradas, mares, luas, espinhos, curvas e curvas. Sem a mesma disposição do outro lado, claro que não obtive êxito.
E como todo conto que se preze, esse findou porque tinha de findar. Pena que de forma abrupta. E, como imaginam, estão certos: nós não não ficamos juntos para sempre. Acho até que nos transformamos em uma abóbora gigante, cheia de lindas lembranças.
10 September 2012
O amor é mágico
Um amigo querido me disse que essa viajante que vos escreve anda muito romântica. Que há uma certa dose de autobiografia em meus devaneios. Ai, ando sim. E tenho muitos bons motivos para isso. Descobri, a tempo, que o amor se manifesta de vários jeitos e formas. Que devemos todos estar atentos aos sinais lançados no tempo, no espaço, até numa canção. Hoje vou narrar sobre uma história bem real, que mais imita um lindo romance, desses de encher os olhos d'água e o coração de esperança. Me lembra muito O amor nos tempos de cólera, de Gabriel Garcia Marques. Me afeta tanto, que parece ser minha a história também, tamanho o envolvimento nesse enredo recheado de encontros memoráveis, muita cumplicidade, despedidas e partidas. Meu desejo é que haja sim, um reencontro logo, para acabar com a sofreguidão que [nós] sentimos.
4 September 2012
"...como ver o mar..."
Já li a mesma frase umas trocentas vezes. Já ouvi muitas pessoas também repetirem essa máxima. Não deve ser mentira. Como algo falso poderia ser propagado com tanta exatidão? Aposto que se dissessem isso, naquela famosa brincadeira "telefone sem fio", ainda assim, a mensagem seria idêntica: o amor chega quando menos se espera!
Ocorre que a maior parte das pessoas não está preparada para comemorar sua chegada, sem suportar a espera, sem criar expectativas, sem curvar-se à ansiedade. Mas concordo, ora bolas. Também acredito que paixões arrebatadoras, ou histórias lindas de amor, acontecem naturalmente, sem hora marcada, cabelos alinhados e unhas perfeitas. E geralmente nascem de repente, do nada, quando menos estamos adequados fisicamente. Pensando nessas coisas, resolvi narrar um encontro inusitado, que resultou em amor, só não sei se pra vida toda, ou "até que a morte os separem".
17 July 2012
Ainda bem
Lá fora chove a cântaros. Não quero nem imaginar o caos no trânsito dessa cidade que nem combina com inverninho, frio e agasalhos. Mas a temperatura caiu muito. Tive que fechar janelas e varandas, e agora estou na torcida pro calor voltar logo. É que dependo disso para voltar aos treinos da natação, dirigir [mais] livremente, permitir minhas caminhadas, reencontrar o cheiro da maresia, que tanto me faz bem.
Hoje acordei com uma sensação esquisitinha. Não foi só por causa do clima alterando a rotina e os sentidos. O vendedor de frutas e afins passou pela rua, como sempre o faz, em todas as manhãs. Gritou meio cantando o famoso "macaxeira". Imaginei se ele estava preparado para o dia, com um guarda-chuva e agasalhado. Se estava protegido do vento e dos pingos fortes. Tadinho.
Afastei essa cena do imaginário e passei a contemplar o travesseiro do lado direito, ocioso e frio. E não quis me levantar logo. Fiquei pensativa, sorumbática [triste, melancólica]. Esse verbete foi roubado do dicionário surpreendente do meu eterno e querido Jonnie, que vez ou outra me dizia estar sorumbático. Agora eu o entendo, perfeitamente.
A estranheza que me atinge tem a ver com o silêncio dele, daquele ser especial, que me agrada aos olhos e aos ouvidos. Sinto muito a falta dos nossos diálogos, da nossa cumplicidade, do nosso afeto.
Não sei se ele desapareceu para sempre. Ou se de repente vai me ligar ou tocar a campainha e abrir um sorriso ao me reencontrar.
O pior que sei o que lhe incomoda, a ponto de retirar-se para longe de mim. Tristeza mais sorumbática que essa, impossível. E sabe aquela música de Cássia Eller, que diz "quando penso em alguém, só penso em você"? É nele que penso, quando penso em alguém. É nele. É nele. Mil vezes. É nele.
Mas tenho trocentas coisas pra cuidar. Artigos, resenhas, inscrições e prazos dos eventos. Não posso me dar ao luxo de devaneios infrutíferos como esse. Preciso produzir mais e mais, mesmo hoje, com todos os docentes paralisados, com completos 60 dias de greve das universidades federais.
A minha vida segue assim: com draminhas corriqueiros, chuva, vento frio e garganta dolorida. Meu coração também dói, mas a dor não é física. Daí esse título.
Hoje acordei com uma sensação esquisitinha. Não foi só por causa do clima alterando a rotina e os sentidos. O vendedor de frutas e afins passou pela rua, como sempre o faz, em todas as manhãs. Gritou meio cantando o famoso "macaxeira". Imaginei se ele estava preparado para o dia, com um guarda-chuva e agasalhado. Se estava protegido do vento e dos pingos fortes. Tadinho.
Afastei essa cena do imaginário e passei a contemplar o travesseiro do lado direito, ocioso e frio. E não quis me levantar logo. Fiquei pensativa, sorumbática [triste, melancólica]. Esse verbete foi roubado do dicionário surpreendente do meu eterno e querido Jonnie, que vez ou outra me dizia estar sorumbático. Agora eu o entendo, perfeitamente.
A estranheza que me atinge tem a ver com o silêncio dele, daquele ser especial, que me agrada aos olhos e aos ouvidos. Sinto muito a falta dos nossos diálogos, da nossa cumplicidade, do nosso afeto.
Não sei se ele desapareceu para sempre. Ou se de repente vai me ligar ou tocar a campainha e abrir um sorriso ao me reencontrar.
O pior que sei o que lhe incomoda, a ponto de retirar-se para longe de mim. Tristeza mais sorumbática que essa, impossível. E sabe aquela música de Cássia Eller, que diz "quando penso em alguém, só penso em você"? É nele que penso, quando penso em alguém. É nele. É nele. Mil vezes. É nele.
Mas tenho trocentas coisas pra cuidar. Artigos, resenhas, inscrições e prazos dos eventos. Não posso me dar ao luxo de devaneios infrutíferos como esse. Preciso produzir mais e mais, mesmo hoje, com todos os docentes paralisados, com completos 60 dias de greve das universidades federais.
A minha vida segue assim: com draminhas corriqueiros, chuva, vento frio e garganta dolorida. Meu coração também dói, mas a dor não é física. Daí esse título.
12 November 2011
Como um bom samba
Me faz um favor: vasculhe sua memória e tente recordar-se de um momento de satisfação plena, vivenciado no auge da sua juventude. Eu fechei meus olhos, respirei fundo e me lembrei... minha regressão foi assim:
Esse cara, lá de trás, me fazia rir e agir no impulso. Tinha mesmo que vir parar aqui, para tornar-se uma prova viva de que já fui assim: mais livre, mais impulsiva, muito jovem.
Já estávamos rodando de carro há bastante tempo. Eu me lembro que estar na companhia dele me fazia perder a noção das horas. Enquanto ele dirigia, eu me deliciava com sua presença perturbadora... me envolvia em suas histórias, suas conversas fiadas, imaginando a sequência a seguir dos seus beijos e abraços calorosos... creio que amava até suas mentiras e o seu par de óculos, com uma das perninhas tortas. Amava também o seu sotaque fortemente baiano. A sua paixão pelo time tricolor (Bahia). As suas risadas altas e contagiantes. Tudo era lindo nele. Enquanto eu viajava bem ali ao seu lado, minha paixão mais contagiante dirigia confiante, cúmplice, ciente do alto poder de sedução sobre mim. Já na Cidade Baixa, paramos na Ribeira, um dos bairros mais antigos de Salvador. E continuamos o namoro-passeio, procurando o que fazer, além do programa- padrão para todos os que ali chegavam: saborear o sorvete de coco, o mais saboroso de toda a cidade. Sei que, de repente, avistamos uma multidão cercando o tradicional Clube de Regatas Itapagipe. Estacionamos e fomos conferir o motivo daquela algazarra, no acesso principal do evento.
- Sério? Jorge Aragão vai tocar?
- É, é ele... o show já vai começar! Vamos?
À nossa volta, não havia ninguém pra dizer PROIBIDO, NÃO PODE... olhei pro meu par, a pessoa que eu mais amava estar, e claro, me joguei, prontamente! Compramos os ingressos, escolhemos um lugar e ficamos ali, dançando, cantando, rodopiando, os dois, bem longe de casa, das programações mais badaladas, da cidade alta. Era como se estivéssemos no céu. Ou num outro tempo. Jorge Aragão estava mais romântico que nunca. A gente curtiu cada música, cada sambinha. Foram horas divertidas e simples, de uma farra a dois, a céu aberto, coadjuvantes desconhecidos, presenciando a nossa alegria, numa noite mágica. Tenho a impressão de que vivi aquele amor à exaustão, aos pulos, aos segundos, como se eu já tivesse a certeza do seu fim.
Esse cara, lá de trás, me fazia rir e agir no impulso. Tinha mesmo que vir parar aqui, para tornar-se uma prova viva de que já fui assim: mais livre, mais impulsiva, muito jovem.
Subscribe to:
Posts (Atom)

