Showing posts with label saudade. Show all posts
Showing posts with label saudade. Show all posts

1 March 2019

que o amor prevaleça

Toda morte nos coloca em alerta sobre quem somos, sobre quem nos tornamos com o passar dos anos... e sobre como precisamos nos acostumar com um fato muito doloroso: a vida é um piscar. Somos impotentes. Isso não muda, embora gostemos de milagres.
A gente se apega a tanta besteira, deixa de dar atenção e valoriza tão pouco as pessoas com quem convivemos! Tudo em função do tempo dedicado ao trabalho e às nossas muitas vaidades. Tudo é matéria? Não. Tudo evapora. Tudo se vai.
Aos 49 já entendi que, diante das minhas escolhas, eu não tive como gerar outra vida. Mas sou aquele tipo de ser humano que sofre pela dor alheia, como se mãe fosse.
É uma dor abstrata, intensa. E como a gente consegue se reinventar, para vida fazer algum sentido ou voltar a ter alguma graça, após a partida de um alguém que muito amamos?
A empatia nasce com a gente? É do ser humano ser solidário? Deveria ser de nascença.
Todo ser humano, a despeito de qualquer condição, deveria sair do seu umbigo e se colocar no lugar do outro. Esse é um exercício que nos humaniza.
Lula tem que ir abraçar o filho. É um tipo de elo, de amor, que nunca deveria ser impedido.
Que o abraço e o silêncio nos libertem das nossas mazelas e dos nossos egoísmos.

16 February 2019

o céu em festa no seu dia

Hoje eu acordei, depois de uma noite com insônia, e lá fui eu conferir os aniversariantes do dia.
Isso faz parte da minha agenda diária: espalhar afeto a quem me afeta. Dar os parabéns a alguém de quem gosto é como reafirmar o compromisso com a lealdade.
Ser leal significa legitimar cumplicidade, estar perto na dor e na alegria. É um vazio imenso não fazer um textão pra minha amiga que hoje completaria 56 anos.
Ela amava me ler! Cobrava mais escritos. Dúzia de vezes dizia que me considerava “uma das escritoras mais sensíveis”.
Saiba que eu amaria escrever pra você me ler hoje, minha irmã de fé. E gostaria de poder te dar um abraço, saudar sua nova primavera, aquariana com ascendente em peixes.
Queria te falar da minha saudade da nossa convivência, de enfrentarmos nossos infernos astrais de mãos dadas, de poder festejar sua data e planejarmos a minha, que está quase na esquina. Mas quis a vida terrena deixar você partir. É um lamento que faço principalmente quando estou muito feliz. E aprendi que devo celebrar chegadas e não partidas. É mais animador. Por isso, agradeço de novo e sempre muito por nossos quase 8 anos de amizade, aprendizados, alegrias e partilhas, creio eu, por sermos tão diferentes.
Espero que esteja descansando, num lugar de  leveza, luz e magia, como você merece. Que esteja dedicada a cuidar dos seus, acompanhando, com aquele seu brilho nos olhos, a sua netinha em suas conquistas e peraltices.
Com amor de quem sempre torceu por sua paz. ❤️

20 September 2018

ligação perdida

Recebo em média 3 ligações por dia e sequer me dão bom dia, boa tarde. Perguntam pela minha amiga querida, que infelizmente não está mais entre nós.
Eu e Ana nos tornamos amigas no dia em que nos conhecemos. Lembro que estávamos numa reunião de plenária do Centro de Educação e falávamos sobre o Enade em Pedagogia. O ano era 2011.
Nós éramos muito diferentes no modo de pensar e mais ainda de agir. Era até engraçado! E como aquarianas, não foi nenhum problema conviver, pois o respeito sempre norteou nosso afeto.
Dentre outros bons pactos, a gente incorporou a  tradição de indicar a outra ao fechar algum contrato, serviço, e considero que isso é algo muito bacana entre amigos que residem fora dos seus estados e se apoiam mutuamente. Ana tinha minha chave de casa. Cuidava das minhas plantas e das correspondências. Ela tinha meu chaveiro com a torrezinha Eiffel.
Éramos irmãs.
Em nome de nós, de todas as pessoas que se irritam com ligações insistentes, eu gostaria de dizer a todas as empresas que me ligam que buscassem se informar sobre seus clientes. Mas que o fizessem com respeito e educação.
É sempre doloroso ter que dizer que ela faleceu. Isso agride. Porque eu quero me acostumar com a dureza da ausência dela em minha rotina, na UFAL, no café, no supermercado, na praia, e em todos os lugares que frequentávamos juntas.
A verdade é que ao indicarmos alguém como referência o fazemos porque nos exigem, e com certeza, imaginamos que nunca seremos importunados.
A ligação em si já é uma invasão, mas ter que repetir algo que dói, é uma desumanidade.

14 September 2018

36 anos de uma dor que nunca morre

36 anos. 36 longos anos que meu pai partiu. Durante muito tempo fantasiei que estava só em uma das suas muitas viagens. Que logo voltaria e que chegaria bem cansado, querendo colo. Que pediria seu chinelo pra minha irmã. Que chamaria todo mundo pra almoçar à sua volta. Era uma rotina que eu amava na infância: ouvir a buzina, gritar “chegou” e ir correndo abrir o portão pra receber nosso senhor Waldemar de Carvalho Santana. A vida segue. Nós seguimos com essa ausência. Seguiremos com saudade de sua presença tão forte e marcante. Sempre digo que devemos lembrar dos que partem pelas suas datas de aniversario, mas hoje senti cheiro de estrume de boi, senti muito a falta dele em todos esses anos sem seus conselhos, sem seu abraço, sem me dizer pra onde ir e o que fazer.

14 December 2017

Catorze do doze

Meu pai foi o primeiro negro que (re)conheci.
O primeiro negro que vi na pele dele, literalmente, o quanto o mundo exclui, intimida e diminui quem não é do universo branco.
Ele nasceu na década de 20, num tempo em que ser preto e bem sucedido era ainda mais exceção que em 2017.
Hoje meu painho faria 93 anos.
Eu queria muito que seu Waldemar de Carvalho Santana estivesse vivo, sorridente, brincalhão e sisudo, ao mesmo tempo.
Eu queria muito que amanhã ele recebesse das minhas mãos, um exemplar do meu livro e me desse um senhor abraço.
Eu queria que ele me visse assim, do jeito que sou: pedagoga, professora, blogueira, escritora e, o principal, muito indignada com essa realidade racista, machista, homofóbica e misógina, em  pleno século 21.
Comemoro somente as datas de nascimento daqueles que eu amo e o tempo em vida que juntos trilhamos juntos, antes da partida. Foram só 12 anos.
Eu tenho 12 bons motivos, 12 meses, todos os anos, para agradecer pelos aprendizados, por ter aprendido que a minha luta nesse mundo, é pelo coletivo que ele (e eu) fazemos parte. É também por ele que sigo inspirada e desejante.

10 October 2017

devaneios numa terça

Eu tenho o maior desejo de comemorar a vida, ao ganhar uma foto com o nascer do sol, num dia que começa com notícia triste. 
Eu fico toda loba quando me mandam a imagem de uma lua cheia, transbordando pelo mar, naquelas noites mais solitárias.
Eu sigo toda tia babona quando baixa um novo videozinho do meu sobrinho, justamente quando tudo parece perder sentido.
Eu fico toda emocionada quando sou lembrada por gente querida, e até por simples colegas, com matérias, artigos, teses, livros que tratam de relações étnico-raciais, ensino superior, políticas educacionais.
Eu me desmancho inteirinha quando recebo poesia ou um "passando pra te mandar um beijinho grande".
Eu sou uma sortuda. Já ganhei algumas canções lindas. Recebi uma, por telefone, de um certo alguém que não conheci e incorporou Hebert Viana e me perguntou cantando "quais são as coisas e as coisas pra te prender?". Não respondi e a paixão seguiu platonicamente linda.
Ah... eu já ouvi (só pra mim) a versão de "Lambada de serpente". Isso nunca vai ter preço.
De fato eu enlouqueço quando um mimo virtual me faz sorrir pra uma tela fria, mas tão quente.
#devaneiosnumaterça

7 May 2017

sou dela

Eu nasci da junção desses dois lindos. Nasci pra ser inquieta e questionadora como meu pai e tranquila como minha mãe. Passei a entender como funciono quando penso na força de cada um para a construção de mim mesma. Da natureza forte de um e da natureza forte do outro. 
Minha mãe não é apenas uma mãe. Passou a acumular as funções de pai e mãe faz muito tempo. Passou a ter voz e vez entre nós lá nos anos 80, quando nosso velho partiu. E hoje, ao completar 7.6, fico só pensando o quanto ela abdicou dos próprios sonhos em nome de nós, filhos, seres carentes de pai e desejantes de tantas coisas.
De lá pra cá ela conseguiu ser colo, ser escuta, ser presença, sempre, independentemente onde estejamos. Passou a ser caixeira viajante, exatamente como ele era. Passou a fazer conta (ela tem caderninhos), como ele fazia. Passou a pensar em como sobreviver melhor, para tornar nossos sonhos mais possíveis. Então passou a ser muito mais importante pra gente. Fica comigo um tempo, depois com mana Dilma mais tempo, depois com os meninos e com a mana Lila. Sabemos bem qual é a missão dela entre nós: espalhar amor e paz. Mainha, a senhora é linda. 

Enquanto escrevo choro por tudo: por estar longe, por não acompanhar as marcas do tempo em sua história, por suas tristezas, por suas angústias, por não poder te dar um abraço no dia de hoje e sentir seu cheiro que me acalma e me faz tão feliz. 
Te amo muito, muito mais que seu vatapá delicioso!! ❤️🌺❤️ #soudela #mainhafazaniversáriohoje #fbf❤️❤️ #dasmaioressaudades

9 April 2017

ainda vivem um luto

A história dos dois começou com doses de troca de olhares. Na correria do trabalho, chegou um momento em que ela precisava admitir que buscava encontrar aquele par de olhos que a fitava profunda e longamente, até mesmo quando estava mais distraída.
Foi um tempo de muitas demandas para ambos. De atropelos. De prazos. O ano estava frenético. Parecia que tudo era urgente. E o que se passava entre eles também se fazia urgente viverem à exaustão.

10 August 2016

saudade do meu espelho

Eu queria muito ter meu pai vivo. Pra falar da vida, discutir política, pra ele me contar como sofre sendo negro num país racista que nem o nosso. Meu pai faleceu quando eu tinha apenas 12 anos. Não discutimos nada. Não nos abraçamos tanto. Não apresentei nenhum namorado. Não dançamos. Não fiz nada que uma filha apaixonada gosta de fazer ao lado do seu pai. Eu queria fazer café, bolo, lasanha, pra ele. Queria ouvir todos os seus causos; também poder lhe contar as minhas histórias. Eu queria ter ouvido conselhos. Queria que ele me dissesse palavras de conforto. Que me desse bronca (mais, né?). Queria aprender a gostar de números e finanças, como ele gostava. Queria ter tido o prazer de conversar com ele ao celular, pelo WhatsApp. Trocar fotos e afagos. Queria seu colo. Ainda quero aprender a tocar violão, lindamente, como ele tocava. 

18 April 2016

das faltas insuportáveis

Quando nos conhecemos, nos anos 80, nós estávamos saindo da adolescência, estudando para o vestibular, cheias de espinhas na cara e sonhos na cabeça. Passamos por fases. Passamos por farras. Frequentamos lavagens de medicina, de odonto, de direito. Viajamos com as outras amigas em réveillons, festas juninas. Curtimos em trupe todos os tipos de carnavais possíveis para uma única encarnação. Conhecemos a Argentina juntas. Temos fotos desses momentos todos. Temos memória para todo o sempre. Temos sorrisos acumulados. Atravessamos de um século ao outro. Nos mantivemos próximas, mesmo afastadas pela geografia.
Nunca duvidei nem questionei o valor que tenho por você, amiga. Ou que você tenha por mim. Então estar assim, distante de verdade, é estranho, doloroso, uma infelicidade. Todos os dias me levanto e peço a Deus para remover essa mágoa. Todos os dias peço proteção no seu caminho, como peço para todos os que amo. E, acredite, peço também para os que não amo. É a minha missão assumida semear amor, semear alegria, desejar a paz na humanidade.
Você me recebia na sua casa como se eu fosse parte de sua família. Nunca me senti hóspede. Nunca me senti rejeitada. Nunca me senti uma intrusa. As nossas novelas pessoais, dos amores e paixões, um capítulo que guardarei em segredo. Não imaginei que perderia a nossa cumplicidade. Espero que ainda dê tempo para dizer que lutar por justiça social, por democracia, pelo fim do preconceito racial, isso não faz de mim uma inimiga. Isso deveria fazer de mim mais amiga ainda. Porque se eu estivesse conspirando por coisas ruins, eu não estaria aqui apelando para a escrita, para uma rede social e declarando abertamente que te amo, amiga. E se me excluir da sua vida, como me deletou desse mundinho esquizofrênico pelos erros dos nossos políticos, a minha dor será pra sempre.
Dói muito não te dar o costumeiro bom dia ou mandar um áudio contando a resenha mais besta do dia ou da noite ou da madrugada. Seus olhos, seus ouvidos, seu coração, tudo isso me faz falta. Me deixa menor.

9 October 2015

a criança já era

Não, não consigo mais postar fotos da minha infância. O momento da adulta (que pretendo me tornar) exige de mim tal adequação. Tive momentos lindos de vida em família até os 12 e meio, mais ou menos. Me lembro que desde cedo eu tive liberdade irrestrita para ir e vir, sair e viajar com os amigos. Talvez a minha sorte é ter aprendido a fazer uso com sentido, desse "estar livre pelo mundo". Mas adolescer foi muito custoso, sem ter meu pai por perto. A morte é ridícula e invasiva na vida da gente. Poderia ser diferente. Não faço ideia de como. Assim, penso que amadurecer é tão difícil quanto necessário. De fato fui uma criança muito feliz. Mas fazia muita careta e também chorava muito. Nada mudei. Nem numa coisa nem em outra. Hoje o dia começou de madrugada, vendo um reencontro muito lindo no aeroporto: casal de enamorados se reencontram, após um ano, trocam alianças e juras de amor, aos pares de olhos curiosos naquele saguão. Hoje teve a defesa do meu amigo, outro momento lindo. Consegui definir quando será a minha, para logo mais. Tudo lindo. O dia foi longo, mas também triste. Minha mãe tomou uma queda, num piso escorregadio. Tava escuro e ela não percebeu que estava molhado. Felizmente não foi nada sério e ela está cercada de cuidado pelos nossos. Mas não quero acreditar que seja a primeira queda de outras tantas. Sinto muito por não poder estar ao lado dela, fazendo parte dos seus dias, dores, sustos e das pequenas e simples alegrias do cotidiano. A velhice bate à nossa porta e é impositiva. Eu não me lembro mais da voz do meu velho. Nem do cheiro, ou do seu olhar. Não há o que comemorar sabendo que a memória falha, com mais frequência. Nada mais de querer ver foto daquele tempo.