Título com trecho da música A novidade, Paralamas do Sucesso, Álbum Selvagem, 1986.
Showing posts with label teseando. Show all posts
Showing posts with label teseando. Show all posts
21 September 2015
"oh, mundo tão desigual..."
Aí com um discurso lindo, verdadeiro, impactante, feito pela PRIMEIRA atriz NEGRA que ganhou um prêmio cobiçado, eu desabei. Após dias e dias na feitura da tese, pensando a partir de muitos olhares, muitos autores, todos unânimes, com milhões de argumentos que comprovam a falta de oportunidades dos negros, no mundo todo (pior que não é só aqui)... aí, nesse mesmo dia que essa atriz linda comove um monte de gente, em seguida eu escuto na televisão, um adolescente se tremendo de medo, tendo que explicar que não é culpado por nada do arrastão na zona sul carioca, só porque ele "aparenta" ser culpado. É mesmo verdade: não basta ser pobre para aparentar ser bandido, assaltante, marginal, drogado, traficante... e por aí vai... é preciso ser preto, e essa é a condição para se rotular todo mundo num grande balaio. É isso que o policial pensa, no automático, ao vistoriar, com toda a sua "sensibilidade " e levar todo mundo preso, sem nenhuma flagrante, sem nenhuma prova concreta, a não ser a dos grandes olhos raivosos, cheios de preconceito.
4 September 2015
sobre a construção social negativa do Outro
"É racista quem defende a superioridade sócio-genética de um grupo; é etnicista quem defende a superioridade da sua comunidade imaginada de origem; é xenofobista quem defende a preeminência e a supremacia de uma nação. Nos três casos está em jogo a luta pelo monopólio dos recursos de poder, em função dos marcadores: pigmentação no primeiro caso, pequena comunidade imaginada no segundo, grande comunidade no terceiro". Carlos Serra, moçambicano, doutor em Sociologia, me ensinando a ler direito todo esse caos social que vivenciamos.
Em minhas andanças por aí, já conheci muita gente preconceituosa e limitada. Quando conheci Roma, a cidade mais linda do mundo, tive uma decepção com alguém que considerava muito legal e de quem gostava muito. Descobri, no entanto, que ele é um preconceituoso, desses bem perversos. Mas me disse que o preconceito era meu, por achar que ele tinha preconceito! (risos)
Era o primeiro dia de aventura para conhecer a cidade. Estava animada demais e ansiosa, igualmente. Nós entramos num ônibus bastante cheio. Eu logo encontrei uma poltrona e me sentei, e perguntei se ele não iria se sentar ao meu lado. Acenou bravo (de carranca). Eu perguntei o porquê. Me justificou assim: "é que estão sujas. São usadas por esses imigrantes imundos, drogados e ladrões que fazem uso (indevido, claro) dos serviços públicos. Daqui uns anos não teremos mais romanos em Roma. Eles (com toda a repulsa) vão invadir tudo".
Eu tive vontade de cuspir na cara dele, mas sou educada e cordial. Apenas lhe respondi: penso que essa é uma situação especial. Entendo que seja responsabilidade e obrigação do Estado acolher e propor políticas sociais para esses grupos marginalizados. Eles precisam de moradia, educação, transporte e trabalho, como você, como eu, como qualquer ser humano.
Era o primeiro dia de aventura para conhecer a cidade. Estava animada demais e ansiosa, igualmente. Nós entramos num ônibus bastante cheio. Eu logo encontrei uma poltrona e me sentei, e perguntei se ele não iria se sentar ao meu lado. Acenou bravo (de carranca). Eu perguntei o porquê. Me justificou assim: "é que estão sujas. São usadas por esses imigrantes imundos, drogados e ladrões que fazem uso (indevido, claro) dos serviços públicos. Daqui uns anos não teremos mais romanos em Roma. Eles (com toda a repulsa) vão invadir tudo".
Eu tive vontade de cuspir na cara dele, mas sou educada e cordial. Apenas lhe respondi: penso que essa é uma situação especial. Entendo que seja responsabilidade e obrigação do Estado acolher e propor políticas sociais para esses grupos marginalizados. Eles precisam de moradia, educação, transporte e trabalho, como você, como eu, como qualquer ser humano.
Citação extraída do livro O que é racismo, organizado por Carlos Serra, em 2014.
22 August 2015
6 é metade de 12: quase na puberdade!
O aniversariante me forçou a dormir fora do horário habitual. A tarefa de casa era bem simples: listar as postagens que prometi fazer, das andanças que fiz pelo mundo afora, entre setembro de 2014 e junho de 2015. E exigiu mais: no mínimo 6 grandes postagens. O desafio foi aceito. Resolvi dar um intervalo na tese, de poucas horas, e resolvi voltar a sonhar com a escrita livre.
21 August 2015
choro insistente
Acordei animada com a tese. E com a cara amassada, e com a tpm cada mês pior, sorri pra mim ao espelho. Animadinha, inventei de me conectar, para saber das novidades dos amigos, entre as dez de ontem e as seis desta manhã. Me deparei com notícias tristes, mas também de superação e de amor. Choro pela tristeza alheia e me comovo, igualmente, por compreender que morte e vida fazem parte dessa lógica humana. O choro é só um desabafo de quem não se acostuma com essa lógica e não entende os tais dos "desígnios" divinos.
3 August 2015
não era para estar aqui
Todo mundo deveria saber: a vida de um docente não é moleza. Os amigos, de outras profissões, se assustam quando falo da carga horária semanal de aulas, momento obrigatório para comparecer ao meu local de trabalho. Ironizam, dizem que a vida de professor com dedicação exclusiva (DE) é muito tranquila. Escuto perguntas assim: "quer dizer que só trabalha 12 horas durante a semana? Você não vai todo dia para o trabalho? Como assim, não odeia segunda-feira? Ah, vida boa, 45 dias de férias e mais os recessos? Nossa, você é que é feliz!!"
Óbvio que eu não ignoro essas falas.
Óbvio que eu não ignoro essas falas.
18 May 2015
sigo morna
Escrever uma tese exige muito estudo, disciplina e inspiração. Não é uma brincadeira. Há pedras no caminho, e, às vezes, até dentro do sapato. Incomodam que só! Perdi dinheiro (ou fui roubada?) justo nessa moeda em alta por aqui, mas em baixa no meu bolso. Bom, eu não escondo o que me deixa fora do ar. Escancaro os instantes felizes e também aqueles que poderiam nem existir.
17 April 2015
gerundiando (ou a gestão dos meus dias)
Estou atravessando o último ano do meu doutorado. Com todos os ruídos e motivos de sobra para dispersão, eu estou escrevendo os capítulos, desenvolvendo uma pesquisa de campo em paralelo, revendo a metodologia e planejando as etapas finais da tese, que pretendo que aconteçam entre junho e agosto. Também estou colaborando, com o mesmo entusiasmo, com um projeto de iniciação científica [PIBIC] na universidade em que trabalho. É conflitante e é delícia estar fazendo tudo ao mesmo tempo, mesmo sem qualquer financiamento. E tudo indo, assim mesmo, no gerúndio.
8 April 2015
transcrevo, logo penso
Há quem pague para alguém fazer as transcrições de entrevistas. Além de caro [quase um luxo para quem não tem dinheiro sobrando], penso que se aprende muito mais tendo que transcrevê-las. A escuta atenta, distanciada daquele momento anterior, pode contribuir para renovar os sentidos e a compreensão do pesquisador sobre aquele sujeito e o seu contexto. É muito bom analisar a fala materializada na escrita, cheia de pausas e omissões, no ir e vir dos diálogos... eu, sinceramente, duvido que isso seja possível, sem estar mergulhado nas linhas e nas entrelinhas dessa cumplicidade nascida apenas entre entrevistador e entrevistado, no corpo a corpo, olho no olho, no tete a tete. É trabalhoso, é chato, é cansativo, é insuportável de tão enfadonho.... enfim, um mal super necessário. Passei mais de cinco horas transcrevendo apenas uma entrevista de 25 minutos e três segundos. "A cabeça cheia de problemas, não me importa eu gosto mesmo assim..."
Música citada, Olha, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, do Álbum Roberto Carlos (1975)
5 April 2015
diário de uma doutoranda
Penso no vestido que eu preciso comprar, para usar no grande dia. Penso tanto sobre o final que, muitas vezes, uma lagrimazinha teimosa foge do meu controle. Hoje é um dia desses. Penso também que o meu pai gostaria de me olhar nos olhos e abraçar a filha-professora-doutora, que escreveu sobre políticas públicas destinada aos seus irmãos, todos os demais negros brasileiros. Penso que é só uma questão de tempo invertido. Melhor, de uma passagem de um tempo por vir. Penso que para escrever uma tese, talvez seja mesmo necessária essa ansiedade pelos finalmentes. Penso no tanto de gente que preciso agradecer. Penso na epígrafe e todo dia me apaixono por uma diferente. Penso na dedicatória. Só não penso que pensar sobre isso já é tempo perdido.... Emoticon wink
5 June 2014
da série: monólogos e delírios
- Será amanhã, às 14h.
- Pois é, em plena sexta-feira...
- Tudo pronto. Ou quase.
- Porque eu quero revisar de novo.
- Aff, o tempo voou mesmo!
- ... nem parece que foi ontem...
- Sim, estou muito tensa.
- Não, não tem jeito.
- Falar é fácil...
- ... mas eu não consigo relaxar!
- É, tem razão.
- Claro, se inventei, vou ter que passar por isso.
- Exatamente, pior que nem é a última etapa.
- Também acho...
- Ah, quem me dera!!!!
- O vestido está definido
- É verde... mas falta escolher a sandália...
- Claro que é tudo novo!!!
- Sou uma boba declarada.
- Tá, eu vou tentar!
- Pois é, em plena sexta-feira...
- Tudo pronto. Ou quase.
- Porque eu quero revisar de novo.
- Aff, o tempo voou mesmo!
- ... nem parece que foi ontem...
- Sim, estou muito tensa.
- Não, não tem jeito.
- Falar é fácil...
- ... mas eu não consigo relaxar!
- É, tem razão.
- Claro, se inventei, vou ter que passar por isso.
- Exatamente, pior que nem é a última etapa.
- Também acho...
- Ah, quem me dera!!!!
- O vestido está definido
- É verde... mas falta escolher a sandália...
- Claro que é tudo novo!!!
- Sou uma boba declarada.
- Tá, eu vou tentar!
13 May 2014
13 de maio: abolição, que nada!
Quis muito que minha qualificação do doutorado fosse nessa data- 13 de maio. Mas não foi possível, infelizmente, por conta dos trâmites internos e envio do relatório aos professores avaliadores. Ainda assim, hoje eu cuidei de ler bons textos e boas reflexões sobre essa tão famigerada data, enaltecida por muitos, como sendo a data da libertação da população negra brasileira dos séculos de escravidão.
De tudo o que tive acesso, e foi bem pouco, a certeza de que essa data não pode nem deve ser comemorada. Não deve ser lembrada como ato de generosidade de uma princesa branquinha, ou coisa que o valha. Essa data deve ser vista e tida como uma data reflexiva. Sobre o racismo brasileiro, sobre a falsa democracia racial, sobre a exploração sexual de mulheres negras aqui e fora do país, exportadas, e, portanto, também subordinadas a outros donos, tão perversos como os senhores de antes. Minha hipótese é que a escravidão ganhou novos formatos e novos tons. Muito mais de 50, inclusive. Muitas e muitas mulheres negras continuam sendo tratadas como seres inferiores e, muito mais ainda, como objeto sexual. #dia13demaio #maisumdiadeluta
De tudo o que tive acesso, e foi bem pouco, a certeza de que essa data não pode nem deve ser comemorada. Não deve ser lembrada como ato de generosidade de uma princesa branquinha, ou coisa que o valha. Essa data deve ser vista e tida como uma data reflexiva. Sobre o racismo brasileiro, sobre a falsa democracia racial, sobre a exploração sexual de mulheres negras aqui e fora do país, exportadas, e, portanto, também subordinadas a outros donos, tão perversos como os senhores de antes. Minha hipótese é que a escravidão ganhou novos formatos e novos tons. Muito mais de 50, inclusive. Muitas e muitas mulheres negras continuam sendo tratadas como seres inferiores e, muito mais ainda, como objeto sexual. #dia13demaio #maisumdiadeluta
22 April 2014
dos percalços
Fazer doutorado é estar em sobressalto sempre. Tem dia que acordo exausta. Tem dia que me animo. Tem dia que me estresso. Tem dia que me isolo. Tem dia que quero rua. Tem dia que invento faxina. Tem dia que fico horas lendo [ou inventando] receitas de suco verde. Tem dia que fujo pro cinema. Tem dia que fujo pro blog [ops]. Não adiantam muito as voltas que dou. Paro diante de mim e as perguntas me assombram: por que resolvi fazer essa viagem? Essa estrada que entrei me leva a algum lugar seguro? Será que tenho fôlego para sustentar essa subida? Sou eu mesma a protagonista disso tudo? Por que não termino logo com esse suplício?
7 December 2013
oração ao tempo [da qualificação]
me investe de concentração
fazei com que o meu amor pela escrita, me ajude a materializar a tese
me mantenha lúcida nesses momentos de pressão
colabora com o clima lá fora
calor na medida
ou chuva para refrescar as ideias
orienta o meu olhar para as leituras mais pertinentes
me ajuda a identificar o caminho das pedras
me liberte das fugas
mas que o cinema venha sempre como um brinde,
por bom comportamento
que as redes sociais [ou antissociais] se desfaçam dos meus interesses
que eu consiga concluir as metas no prazo
passe devagar até que o volume 1 seja enviado
passe rápido até o momento de eu rever os meus
amém
fazei com que o meu amor pela escrita, me ajude a materializar a tese
me mantenha lúcida nesses momentos de pressão
colabora com o clima lá fora
calor na medida
ou chuva para refrescar as ideias
orienta o meu olhar para as leituras mais pertinentes
me ajuda a identificar o caminho das pedras
me liberte das fugas
mas que o cinema venha sempre como um brinde,
por bom comportamento
que as redes sociais [ou antissociais] se desfaçam dos meus interesses
que eu consiga concluir as metas no prazo
passe devagar até que o volume 1 seja enviado
passe rápido até o momento de eu rever os meus
amém
20 November 2013
a luta não é de hoje [ou a luta continua]
Acordei com esse 'título' na cabeça. Pensando em como me manifestaria no dia de hoje, dia da consciência negra no Brasil, já que me manifesto todos os dias. Eis que tenho o bloguito, para despejar minhas inquietações, meus devaneios, minhas tentativas de acalmar essa alma tão inquieta, e também esse coração, tão indignado com o andar da carruagem.
11 November 2013
#BASTAdeexclusão #cotasSIM
Os caminhos da inclusão são sempre rechaçados, tortuosos, limitados. Educadores e políticos com seus discursos e suas práticas desarticuladas. Todos sofrem e perdem com esse descompasso. Perde também a maior parte da população, por desconhecer e pactuar com a falta de cuidado e respeito junto aos mais excluídos. Me questionam porque pesquiso sobre. Porque defendo. Não sou negra, pelas características físicas. Isso não me faz ser superior, de maneira alguma. Mas com certeza tive e tenho privilégios, pela ausência da cor e dos traços. Moro num país que discrimina, que rotula, que exclui, SIM. E não suporto aceitar essa realidade. Por isso defendo as ações afirmativas. Trata-se do meu compromisso político, por acreditar num mundo mais humano e justo. E não estou me candidatando a nada. Apenas acredito que a mudança se faz necessária e a educação deve contribuir, na medida em que pode estimular para a emancipação dos sujeitos, que tiverem acesso garantido, e de qualidade, à universidade pública, espaço possível para a construção de conhecimentos e de intervenção na realidade.
publicado originalmente no mundinho azul em 09/11/2013
Subscribe to:
Posts (Atom)