22 April 2013

antes que eu me esqueça...

Narrar a minha infância, aos 43 do segundo tempo, é tarefa confusa. Me confundo com datas, estações, viagens, personagens; me lembro vagamente das quedas que tomei aprendendo a andar de bicicleta. As marcas no joelho, no entanto, me refrescam e posso até sentir a dor ao receber um algodão embebido em mertiolate, o que arde, e não o moderninho que as crianças de hoje sequer sentem na pele o que está sendo queimado.
Quando cheguei em Maceió, para morar, fui presenteada com esse momento lúdico numa magricela. Senti vergonha por ser desajeitada e não saber me equilibrar, sendo a adulta que sou. E daí fiquei a pensar nesse tal de equilíbrio emocional, que todo ser humano após os 21 precisa mais que aparentar, precisa efetivamente ter.
Das viagens memorísticas que tento fazer sobre minha vida antes da adolescência, me vem algumas cenas marcantes, que talvez o tal do equilíbrio até existisse mais que hoje.
Não me recordo de chorar por qualquer coisa, como faço agora. Choro em despedidas, ao ver gente querida discursando, ao ver novelas ou seriados, se uma música me lembra alguém distante. É um desatino sem fim. As lágrimas surgem à minha revelia. Se estou ou não maquiada, isso não me incomoda. Gosto mesmo é de desatar nós, me desequilibrar, momentaneamente.
São tantos os motivos que me levam ao choro incontrolável, que não me desculpo mais, entre os perfeitinhos de plantão, que não exalam seus sentimentos e aflições. Já chorei num casamento como se estivesse num velório. Já tentei dizer "eu te amo", os olhos inundaram e a fala ficou presa. Já provoquei choro em quem estava quieto e já fiz gente rir do meu desespero.
Mas meu pai ficava irritado em ver criança chorando. Gritava em alto e bom som "VAI CHORAR NO MATO! Vai ver vem daí o meu choro acumulado. Me transformei numa manteiga derretida quando ele se foi.
E lembrar dos tempos em que eu tinha toda a minha família reunida, num só espaço geográfico, me emociona demasiadamente. Sinto falta da buzina do meu pai, para abrirmos a garagem. Sinto falta de não irmos mais para a fazenda e vê-lo matar um boi, ou um carneiro, num ritual que contava com a presença de todos à sua volta. 
Ontem, enquanto tomava colheres [ou xícaras] de açúcar no formato daquele refrigerante mais famoso, me lembrei de como éramos saudáveis e desatei a falar sobre nossos costumes e nossa alimentação. Nos anos 70 não eram vendidos, e, portanto, não comíamos tantos enlatados e embutidos como atualmente nos enfartamos.
De milho cozido a coalhada, de farinha de mandioca a fígado cru, de coco extraído do pé a laranja descascada, sem falar em todos os tipos de banana que eram cozidas, assadas ou fritas, além dos muitos goles de leite de vaca quentinho que tomávamos em canecas de alumínio... fato é que tudo era colhido, extraído, feito e consumido no dia; não havia congelados, muito menos informes com prazos de validade.
Se minha mãe ou minha avó decidisse que teríamos galinha caipira no almoço ou sopa no jantar, tudo era feito um hora antes. Pão branco, ou de qualquer cor, era comprado no dia da feira, aos sábados. Ou seja, somente no fim de semana tínhamos esse alimento no cardápio.
Não comprávamos salgadinhos cheios de sódio, o vilão do momento, que já virou até piada entre os amigos aqui nas Alagoas. Esses trecos que mais parecem isopor nem existiam nem faziam sentido existir; o milho da pipoca, vendido em grãos, sempre esteve presente em momentos festivos. Sinto até o cheiro que inundava toda a casa.
O fogão era a lenha e tudo era demorado pra ficar pronto. Creio que [por isso] valorizávamos ainda mais os sabores dos cozidos e assados. Claro que a manteiga era caseira. O queijo também. E havia uma casa de farinha, que funcionava a todo vapor. A tapioca dos dias atuais, era o beiju de lá.
Eu amava quando mainha e minhas tias faziam biscoitos fritos na gordura. Açúcar e canela sempre fizeram parte dos meus temperos adocicados. Ai, que delícia lembrar dos aromas deliciosos dos doces em calda: de leite, de mamão verde com coco, de banana, de abacaxi. Com tanta fartura nenhum de nós fazia greve de fome ou tinha dificuldade para se alimentar. O meu pai, mandão que só, nos forçava a tomar colheradas diárias de fortificantes, porque não queria nenhum filho magro demais.
Foram 12 anos de férias inteirinhas vivendo e consumindo frutos da Laranjeira, nome da nossa roça saudosa. Junto conosco, os primos também eram convidados e faziam parte das nossas aventuras. As mulheres lavavam roupa na beira do rio [ou açudes] e nós andávamos a cavalo, brincávamos no curral, de esconde-esconde;
Naqueles tempos não havia luz elétrica nem televisão. Ficávamos em volta da fogueira, ouvindo causos e histórias amedrontadoras, contadas por Lila, minha irmana mais velha. E permanecíamos ali, até o sono chegar, por volta das vinte horas, quando a iluminação, feita por lampiões e candeeiros, era apagada.
Dos medos da época, me recordo que tínhamos das cobras escondidas no quintal, de aranhas-caranguejeiras pelo teto; de bois brabos; de desconhecidos e malvados perambulando pela fazenda, enquanto todos dormiam.
Lembrar dessas coisas me mantém conectada com meu velho. A vida rural me é familiar até hoje. Cheiro de estrume e sons de animais da fazenda não me assustam ou me intimidam. Gosto do silêncio cortado por um rugido de um animal e do céu colorido no final de tarde. E nessa última viagem que fizemos para o Acre, chegamos até uma fazenda que meus manos amam. Foi fácil entender a paixão deles.
Os três juntos, tão lindos, são o espelho do nosso eterno pai, que nos ensinou a gostar das coisas simples, da terra, e principalmente a valorizar a família. Meu sobrinho Lucas parece gostar e entender essa trajetória, e tenta inconscientemente resgatar esses ensinamentos.
Ele implora para ouvir histórias envolvendo a infância dos seus tios e tias, do seu pai, do avô que nem conheceu. Parece que gosta até mais que escutar os contos de João e Maria ou Chapeuzinho Vermelho. Claro que ele teme o velho e bom lobo mau, e venera o seu quarteto fantástico: Homem Aranha, Incrível Hulk, Thor e o Capitão América. Entendi que esses heróis fazem parte das fantasias do seu tempo, mas que ele curte muito histórias reais ou aquelas reinventadas por nós.
Quanto a mim, só temo perder essa unidade que nos liga, porque fisicamente já estamos afastados. Daí fico numa corda bamba, querendo segurar o passado, nem que seja pela escrita. E não há como o choro não vir. 


19 comments:

  1. Oh maninha linda que "escreve muito bem",como diz o mano Deculino...saudades teremos para o resto dos nossos dias.Daquilo que foi a vida em família,na nossa família. E com a presença da matriarca vó Maria,tudo se encorporava ainda mais.Esta semana me lembrei e ,comentei com Cau sobre o sabor do leite "fresquinho" dos úberes das tantas vacas com os seus lindos bezerrinhos,que visitávamos no curral,obrigatoriamente, às seis da matina,na ordenha!!E é isso,"viver e não ter a vergonha de ser feliz",de termos sido muito felizes,na simplicidade.Mas acima de tudo,com EXCESSO de amor e atenção,por parte deles(pais e avós)e RESPEITO,por nossa parte.
    Um beijo..chora mermo..mas de contentamento..de alegria,em fazer parte desse contexto familiar invejável,que tenho hoje como mãe,dificuldade em adaptá-lo a este mundo 'líquido',como vc diz. Um cheiro...saudades de tudo e de todos,também :(

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    1. Carolzinha precisa aprender a dar valor... nada de nescauzinho mais, na "listra"....risos... beijo!

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  2. Querida, amei essa parte "Não me recordo de chorar por qualquer coisa, como faço agora. Choro em despedidas, ao ver gente querida discursando, ao ver novelas ou seriados, se uma música me lembra alguém distante. É um desatino sem fim. As lágrimas surgem à minha revelia. Se estou ou não maquiada, isso não me incomoda. Gosto mesmo é de desatar nós, me desequilibrar, momentaneamente.' É tão eu. rsrs parabéns pelo texto, quando estava lendo lembrei da minha infância. AMO recordar porque recordar é viver!! Bjuss!! Ass: Jane

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    1. Obrigada, minha aluninha! Fico feliz de tê-la aqui, nesse espaço. Beijo e volta sempre!

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  3. Eu sou uma das choronas que se acaba de rir com seus choros de cinema...Pobre Vítor!...kkkkk... Juba, se a gente procurar no Google vamos encontrar alguma teoria que estuda o choro, receitando: chorar faz bem pra felicidade! Bjsss

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    1. Pobre Vitor... kkkkkkk.... foi muito hilário aquele dia... Maga, me avisa qdo chegar!! Bj

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  4. Amiga saudosa, fui até a minha casa no meio do mato, visitei os meus quintais, brinquei com as bonecas de milho, ri dos provérbios que diziz a linda vó Zezé, me emocionei com o meu eterno pai, que amava deitar na varanda quando o sol se escondia para descansar....Vivi a " velha infância", pegando carona no vagão da memória e pogando nas palavras de seus escritos... E, pra variar, lindos de viver..( Como cantava a saudosa Hebe Camargo. Bjão ( LINA)

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    1. Ai que legal provocá-la... e fico feliz de ter ido até a sua casa no meio do mato... me senti em casa, em seu casório!!! Beijo, Miguxa! Te dollo!!! risos..

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  5. Lindo, amei!
    Até o sódio está presente!;)

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    1. Cleee... a minha infância teve pouco sódio... risos.... beijo, querido!

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  6. Quem te vê assim tão urbana e cosmopolita, não diz que já foi roceira. É bom não esquecer nossas raízes.

    Bem, eu me enquadro no grupo das que não choram em público (exceto no meu casamento, ou na hora do parto) mas não me importo com a emoção alheia. Pelo contrário, me inspiro com isso.

    Ah, pede pro Lucas te explicar que o Quarteto Fantástico é outra galera, esses heróis citados no texto são os Vingadores. kkkkkkk

    beijos.

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    1. Patiinha... ele sabe sim... eu é que misturo histórias e ficções... vc sabe... risos... beijão!

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  7. "Segurar o passado pela escrita", isso é um dom minha amiga e poucos sabem fazê-lo melhor que você!

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    1. Quem me dera, Paula! Um beijo, linda!

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  8. Bacana saber mais de você, Ju. Ainda mais da sua infância. Mas não tenha medo de chorar, isso é ótimo e não pode ser considerado um defeito. Ainda mais se acumulou isso por tanto tempo. Liberte-se. Beijos.

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    1. Ah.. minha infância foi muito feliz. Meu pai era super protetor, muito autoritário, mas presente e amoroso. Eu sinto falta dele, ao longo desses tantos anos... provavelmente será sempre assim. E não se preocupe. Basta eu me emocionar para o choro vir... e faço isso em qualquer lugar... definitivamente eu não corro pro mato... risos... beijão!

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  9. Mano Mô via FB27 April 2013 at 19:12

    Ju eu li, enfim te achei uma filosofa, que n esqueceu momentos da infancia mas sobretudo mto inteligente e perspicaz para recordar momentos exclusivos q só nós tivemos.

    Se continuar a falar, falarei mas do que vc...pq sinto mta saudade do meu pai sem msm n conhecê-lo direito!

    Ainda bem q tem meus irmãos e irmãs pra relembrar fatos e histórias do nosso pai!
    Te amo muito!!

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    1. que lindo, mano.... também te amo!!!!

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    2. Bom mesmo manos, termos esta união..que nunca nos esqueçamos de nossas origens..pois, é o que nos une ainda mais!!

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