É muito verdade que aprendemos a dar valor na dor, na ausência. O carnaval da Bahia, de Salvador especificamente, sempre foi sagrado. Para todos os baianos e para todos os turistas que amam chegar até nós.
Confesso que passei um tempo me estranhando, me sentindo estranha e nos últimos anos rejeitei a festa mais gigante daqui, que reúne gente de todas as idades, cantores, músicos, foliões que se jogam nas ruas durante uma semana inteirinha, pra lá e pra cá. Um povo que antes do carnaval faz tudo virar prévia. É um jogo sem fim.
É uma festa de encontros, de reencontros, de muita música que algumas letras não fazem o menor sentido, mas que a gente aprende e canta achando massa.
É inédito não termos o carnaval acontecendo. É triste demais. Triste para quem ama a festa. Mais triste ainda para quem depende do carnaval para (sobre)viver.
Mesmo tendo cordas e camarotes que separam pagantes de pipoqueiros, o som do trio é imponente, é contagiante, é envolvente e, nesse sentido, chega pra todo mundo, chega a ser democrático, guardadas às minhas críticas sobre o assunto.
Como baiana, que desde criança amo me fantasiar e festejar todos os fevereiros, percebi que essa pandemia nos atingiu em todos os sentidos. Perdemos a festa. Perdemos parentes, amigos, perdemos cultura, perdemos vidas, perdemos empregos, perdemos fé, perdemos esperança, perdemos a alegria.
O roçar de corpos, as dancinhas, os abraços, os contatos físicos das multidões que se espremem nas avenidas, isso sempre foi a razão de ser dos encontros carnavalescos. Estão vetados e simplesmente não podem existir. Deixamos o vírus tomar conta de tudo.
Precisaremos sufocar justamente o que nos impulsiona a expulsar, ano a ano. Todo carnaval é explosão de sentimentos. Todo carnaval tem seu fim, como diz uma canção. Quando a quarta de cinzas chega, é a hora que entendemos que nossas forças se esgotaram, que precisamos mais um ano de preparação para ganhar ruas e esquinas de novo, com samba, com frevo, com axé, com todo o tipo de movimento nos pés e em nossos corpos.
Sem carnaval, sem plano de imunização e sem vacina suficiente para todos nós. Que dureza de desgoverno. Esse é o Brasil do mito. E essa é a imagem do por sol no farol da barra, no sábado, o sábado de carnaval 2021. 😢
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