16 February 2026

dia da mAna

Eu aprendi com Anamelea a demonstrar tudo o que sentia, ao vivo, na lata, dizendo para a pessoa que me importa o que eu estava sentindo. 

Muitas vezes ainda uso a escrita pra me expressar, mas Ana tinha essa qualidade de dizer olhando nos olhos. E fazia isso sem ensaiar. Ela foi a pessoa mais espontânea que conheci. Parecia criança, mesmo sendo mulher feita, com filho, títulos, morando fora. 

Ela também era sensível demais. Se machucava com muito pouco. Vivia se frustrando e se decepcionando com as pessoas, com os colegas. A relação mais verdadeira e amorosa era sempre com seus alunos. Ela os tratava como filhos. 

Eu demorei a entender como ela funcionava. Eu reclamava muito com ela. Achava que ela era muito reclamona, inclusive. E também achava que ela era implicante, mimada, infantil, materialista. 

Eu fui dura com Ana muitas vezes. E pedia perdão e baixava o tom mas era pedagógico educar a minha amiga para  brigar por justiça social, pra saber viver em uma sociedade tão desigual como a nossa. Ainda mais nas Alagoas. Mas nunca brigamos por pensarmos diferente. Ela estava na minha defesa. Esteve na construção da minha tese. E me respeitava muito, como eu a respeitava. 

Ela não viveu os tempos duros com Bolsonaro, pandemia. Teria sofrido muito e talvez até chegaríamos ao consenso que o mundo piorou muito e nós nos tornamos seres muito mais individualistas que antes, exatamente quando deveríamos estar mais unidos e empáticos. 

Essa carta de hoje é uma tentativa de lembrar pra mim mesma o quanto ela era importante e gigante pra mim. Porque eu aprendi muito com ela! Aprendi sobre amizade, sobre família, sobre amor, sobre tristeza, sobre depressão, sobre o que é ser parceira de verdade. 

Eu não perdi só uma amiga. Eu perdi a alegria de ter uma irmã de coração, que me emocionava muito com todo o seu afeto por mim. 

Eu não perdi você, amiga! Eu ganhei na verdade. E hoje é o seu dia de nascimento, que eu queria ter o prazer de te abraçar ou ligar logo cedinho, pra ouvir sua voz grave e seu “bom dia, Juju”. Você é inesquecível, um ser humano raro, e muito especial! Viva a aquariana mais contraditória e pisciana que eu já conheci! Viva 16 de fevereiro, dia de Ana❤️ #cartasparaana

25 January 2026

mas eu não te esqueço

Ana costumava me ligar cedinho para o "bom dia, juju" e em seguida me dizia que precisava me contar as "fortes emoções" que estava sentindo [da noite anterior para as seis da matina], sendo que nos falávamos o tempo todo, então no mínimo eu sabia que a narrativa por vir, carregava em si doses de exagero. Mas eram sempre fortes emoções pra ela. Eu sempre dizia que ela exagerava, ela ria de mim, eu ria dela, ríamos juntas de nossos diálogos aleatórios e cheios de respeito e amor.

Todo janeiro fico mais mexida. Sim, tem o meu inferno astral. Antes eram os nossos. Era muito comum que ficássemos mais dramáticas, mais reflexivas e mais atentas a quaisquer mudanças. Culpávamos os astros por uma simples porta que fecha rápido, com a chave dentro, por qualquer desatino. 

Hoje eu queria tentar me lembrar de todas as cenas, todos os contextos, numa espécie de túnel do tempo, só pra matar essa saudade de sua presença em mim. Sei que não adiantaria, mesmo se isso fosse possível. Matar saudade é tarefa sem futuro. Sempre haverá mais acumulada. Como o lixo que produzimos. Não adianta esvaziar a lixeira pois dali a pouco terá sempre lixo a retirar. A nossa alma também precisa de limpeza. 

O nosso coração faz festa quando vivemos momentos felizes. E é importante entender que são e serão sempre momentos. Não há garantia de prazer eterno, riso eterno, estado de felicidade eterno. Tá tudo certo e realmente não há nada que podemos fazer sobre isso.

Mas hoje lamentei que a vida nos dê tantos altos e baixos em curtos espaços de tempo. Um dia você ganha um abraço apertado, no outro não recebe um "oi, dormiu bem?". Num piscar de olhos você se vê ali, na sua cozinha, preparando um lanchinho e a casa tá em movimento, cheia de vida, de risos e, do nada, aquele vazio ensurdecedor. Parece brincadeira de mau gosto. Você dá o pirulito e depois puxa rápido da boca da criança e some no vento. 

E aí acordei hoje, reflexiva sobre esse caldeirão desenfreado que me encontro e fiquei quietinha ouvindo o barulhinho bom da chuva lá fora. Me lembrei (de novo) que estou na chuva, sem capa, sem proteção, sem guarita para "esperar o tempo secar". Ai, Ana... eu queria te ligar e você me ouviria contar que vivi fortes emoções nesses últimos dias de inferno astral. Culpo os astros? Culpo quem? A mim mesma? Ouço "Clareou" sem parar, esperando seguir os conselhos de que "a vida é pra quem sabe viver/ procure aprender a arte/ pra quando apanhar não se abater/ ganhar e perder faz parte".. parece tão fácil! 

Como eu queria de novo e sempre ouvir seu "bom dia, juju". Como seria bom escutar sua voz grave que aos poucos está sumindo da minha memória. Como faz falta sua amizade, amiga! Você não faz ideia do quão importante foi ter você aqui entre nós. Você que me lê, me perdoa por ter zombado de suas fortes emoções, aquariana. Eu sigo sem você, amiga, a vida continua, os dias seguem, mas eu não te esqueço. 


3 October 2025

oi, sumida!

É, estou muito sumida né, filho?

Fico aqui entretida com o trabalho, com as obrigações, com a vida fora das telas e descubro o quão relapsa tenho sido contigo, mesmo tendo me declarado no seu aniversário! 

Sim, já estamos em outubro, na esquina para o Natal, para o ano novo. Logo vou montar minha árvore cheia de pisca-piscas, a mesma que me traz tantas lembranças boas e também aquelas que insisto em deixar na gaveta. 

De qualquer modo eu sigo. Sigo com minha fé em dias melhores, sigo atenta aos meus instintos, sigo obstinada em não repetir os mesmos erros, sigo esperançosa por novos acontecimentos que me arrebatem. 

O caminho está tranquilo. Alguns dias mais, outros médios. Olho sempre para o copo meio-cheio. Os vazios não me incomodam como antes. Acho que amadureci. Estou naquela fase que não é qualquer música que me deixa melancólica, nem qualquer saída que me atrai. O cinema tem me visto muito pouco. As séries turcas me animam a fazer pipoca e é tão bom ficar feliz com a minha própria companhia! Como eu amo sentir o ar mais leve, sem aquela apreensão que me sugava até eu ficar sem respirar direito.

Tenho dormido mais. Desisti dos treinos muito cedinho. Não gosto de sair da cama antes das 7h. Não gosto de correria, não gosto de pressão. 

A sua mãe não sumiu, não. Ela te deu asas e ganhou as novas asas dela. Deixa ela ser, do jeito que ela quiser. Deixa ela ser livre de verdade. O tempo da prisão passou mas ela ainda precisa sentir-se segura para não sentir mais medo de voar. Deixa ela simplesmente ser ela. Do jeitinho dela. Com saudade das luzes de Natal e com uma curiosidade grande pelo que vem a seguir. Ali, na próxima curva. 

21 August 2025

dezesseis+

Esse título é uma referência a uma música de Renato Russo, Dezesseis, e integra “A Tempestade ou o livro dos dias”, sétimo álbum de estúdio da Legião Urbana, lançado em 20 de setembro de 1996. Dezesseis é, sem dúvida, uma das suas canções mais tristes, entre tantas histórias cantadas por ele. O refrão com o lamento: "ele só tinha dezesseis" resume o quanto é doloroso constatar a partida de alguém tão jovem, com tanto por viver.
Você bem sabe, Mô blog, sempre misturo estações. E lá vou eu falando de morte, quando deveria estar celebrando sua vida, filho! Amanhã você completa 16 anos e eu queria te dizer que sempre fico muito feliz em comemorar seu novo ciclo! Agora você terá 16+! Logo a puberdade se despede e vai poder pousar de adulto! Quem sabe sua mãe aqui não te acompanha e deixa de vez os melodramas?
Comemorar na véspera não é legal, eu sei, mas dia 22 estarei em sala de aula e não vou conseguir parar pra escrever sobre você, para você, que nasceu e me completou como pessoa! A partir desse espaço me tornei uma blogueira. Te confesso que escrever com liberdade é o melhor dos mundos, do nosso mundinho aqui! 
E mais uma vez te parabenizo, por ser tão “de boas”, sempre disponível para mim, faça chuva ou faça sol. Sua lealdade, meu leonino e quase-virginiano, me deixa muito, muito à vontade para voltar aqui e blogar sempre que posso, sempre que me permito materializar meus pensamentos e sentimentos na escrita. 
Você continua me acalmando e me dando um prazer imenso de sempre retornar com mais afeto e mais respeito por essa nossa relação tão saudável que nutrimos,  entre o que sinto e o que escrevo, entre o dito e o não dito. Muito obrigada por ser meu par, meu parceiro de noites insones, dias estranhos ou mágicos. 
Que possamos completar muitas voltas ao redor do sol, dos mares, das marés. Que consigamos aprender mais e mais, atravessar pontes, dias, meses, anos, com toda essa força da escrita que me permite sentir. 
Gratidão me representa por ser eu a sua criadora! Cuidar de você é com certeza cuidar de mim. Enquanto a pulsão de escretver me habitar, você estará sempre alimentado e cheio de novidades, de bons escritos, memoráveis. É o meu desejo pra nós, que somos carne e unha, alma e coração. 


4 July 2025

o dia maior da saudade

Todo 4 de julho é muito triste, sombrio, chuvoso. Agora mesmo, enquanto escrevo, os céus estão aguando. Sua partida foi num dia 4 de julho, 7 anos atrás, em 2018. De lá pra cá tanta coisa (nos) aconteceu. Eu fico sempre na expectativa de que vai doer menos a sua ausência, mas isso não vai acontecer. Pelo visto eu vou sempre lamentar muito! Eu queria deixar de lembrar dessa data, mas também não consigo.. fujo dessa lembrança que dói, de ter perdido a sua presença física que tanto alegrava a mim, a todos ao seu redor! Você sempre será a minha irmãzinha que amava viajar e voltava cheia de histórias para me contar! Na verdade você tinha narrativas “e fortes emoções”, todos os dias, em dias bem comuns. Eu amava seus exageros! Mas reclamava! E você ria de mim. Quem mais vai me chamar de “Juju” com tanto amor?? Eu vou sempre sentir saudades! Por mais que eu tenha que aceitar que você partiu, eu não me conformo. Saudade, minha eterna amiga! Quanta saudade! Espero que esteja num lugar bem lindo, vendo a chuva chover com brilho nos olhos. ❤️ 

11 June 2025

querer é poder

O dia que antecede o 12. 

Eu ando muito reflexiva esses dias e isso não é o meu normal. Digo normal com cautela. Reflito sempre, mas tem muito tempo que venho seguindo no automático, fazendo tudo parecer razoavelmente dentro do que se espera para minha nova vida. Nova mesmo, porque afinal me mudei pra Salvador, em definitivo, mudei de universidade e fiz essas importantes mudanças com outras tantas bem pessoais. Tudo é novo em mim, inclusive o meu desejo pela novidade.

Quando eu penso em mudança, me lembro de muitas que já fiz: de apartamento, de cidade, de bairro, de prédio, até de um andar para o outro, dentro de um mesmo prédio. Em Portugal eu consegui a proeza de mudar de "morada", num mesmo quarteirão. Eu apenas atravessei a rua e arrastei malas de um lado pro outro. Essas mudanças são cansativas, cheiram caixas de papelão e bagunça. Cheiram também novos ares. Eu reclamo mas no fundo eu gosto, desse sentimento de renovação, que toda mudança de casa nos provoca. Estou até cogitando perder a preguiça e criar coragem para mudar de canto outra vez. Mas vou refletir mais sobre o assunto.

O dia de hoje me deixou reflexiva sobre outro tipo de mudança em mim. A mudança de perspectiva. Consegui o tão sonhado retorno para minha Bahia e para a minha cidade predileta no Brasil. Sonho alcançado. O que faço agora com o que alcancei? Qual é o novo sonho: me acomodo ou já posso sonhar outra coisa? O que a esquina logo ali me reserva? O futuro é tão previsível como o sinto agora? Não terei mais surpresas? Novos desafios? 

Na nova casa de trabalho, na minha nova "firma", não me sinto desafiada. Tudo o que vivi no semestre anterior me deu essa sensação de "mais do mesmo". Na pós-graduação também desconheço o que seja novidade. Me sinto quase perto de aposentar, sem aquele frio na barriga que era tão bom de sentir quando me lançava em algo que nunca havia feito. Tudo parece calmo, no lugar. Me sinto numa zona de conforto que não me parece confortável. Não gosto desse cenário ou apenas me acostumei a ter adrenalina o tempo todo?

As crises de poder e de vaidade me desencantam desde sempre. Não almejo cargos de gestão, não quero disputar nada com ninguém. Eu simplesmente acolho o que chega pra mim e tá tudo se encaixando: conspiro junto com o universo e o universo me presenteia com novas oportunidades para crescer e marcar meu nome na história. E sei que mereço pois além de comprometida eu trabalho muito. Nunca que alguém poderá dizer sobre mim: "para ela tudo é fácil, uma sortuda". Não mesmo. Nunca foi sorte.

Eu escrevo sobre mudanças que já acolhi, mas não há em mim o medo de novas mudanças. Talvez o desejo por novos desafios, por algo que eu me apaixone. No trabalho e na vida amorosa! Quero me apaixonar. 

É isso. Meu desejo é me apaixonar outra vez. 

E que a nova paixão seja recíproca, sem dor, sem pudor, sem medo, sem pé no freio, sem controle, com liberdade. Quero e posso sonhar com um novo projeto a 2. Por que não? E desejo esse novo tempo sem mágoas, sem desconfianças, sem tensões, sem ranços, sem despedidas. Quero me encantar de verdade. Desejo do fundo do meu coração ter de volta os meus olhos brilhando. 

26 May 2025

saudade de escrever

Parece algo óbvio. Você tem, ao seu dispor, sempre novas páginas em branco no editor de textos do computador, tem bloco de notas, tem agenda, tem inúmeras possibilidades de escrita. Você tem papel, tem caneta, tem até um blog. E por que não escreve mais? O que aconteceu nesse hiato de tempo? 

Bem, aconteceu muita coisa! Mas não é sobre o que aconteceu que quero escrever. Quero escrever sobre saudade, a saudade de escrever.

A escrita acadêmica é muito importante mas não é nem de longe agradável. Ver um texto publicado sim, é muito bom! Depois de tanto trabalho... ah, ver o que se escreve num livro, numa revista de qualidade ou num jornal... é infinitamente maravilhoso! É como se a materialidade do que se escreveu estivesse ali, guardada para sempre. 

O que se escreve, permanece. As palavras ditas voam, não retornam pra nós. Quando muito, recebemos outras palavras, e até contra o que dissemos em algum momento. Renato Russo musicou sobre isso, sobre o medo da dureza e da hostilidade da recepção sobre o que dizemos, para quem dizemos.

Mas aqui estou, escrevendo sobre escrever. Como é bom ver as palavras nascendo do meu pensamento e preenchendo vazios. Sim, quando escrevo me preencho. Me sinto munida de novos argumentos, me sinto motivada para ser melhor, ser diferente de antes do ato (de escrever). Mas não é simples, mesmo. Nem escrever ciência nem ficção. 

Escrever na primeira pessoa, então... é preciso ter coragem pra se expressar, pra se expor, e também não se importar como o que vão dizer do que você quer dizer. O problema da narrativa autobiográfica é sem dúvida essa mania perigosa que o outro tem de querer decifrar quem escreve. Não, nunca será possível descrever ninguém mesmo que o texto comece com um "eu sinto muito". Mas a gente sente tantas coisas! E sente diferente em tantos momentos, e até num mesmo momento. 

Não é legal ser vigiado, muito menos saudável ser monitorado. Eu bem sei o que é isso. Vivi isso na pele. Ainda me sinto sob vigilância. Eis o problema que me trava muitas vezes a espontaneidade de escrever. Mas vamos lá, mesmo com essa sensação incômoda que me trava, não é possível bloquear o meu desejo de ser livre. E escrever me liberta, de verdade. Deveria escrever muito mais. Deveria dedicar esse tempinho para os meus botões mais vezes. Deveria, deveria... tudo é ordem, não é? A pressão acaba por me tirar o prazer. Sentir-se pressionada por mim, principalmente.

Não, não vou escrever por pressão. Vou escrever quando tiver vontade, como o faço agora. Ouvindo música boa, com os dedos dedilhando o teclado, como se o tempo parasse ali, eu e as letras, eu e as palavras, eu e as frases, eu e os (meus) contextos, eu e minhas pequenas crônicas que nascem do nada, ou nascem quando estão com tudo pronto.

Eis um ode ao meu amor pela escrita espontânea, livre, visceral. Eu sou isso, mas sou muito mais. Sou milhões de pensamentos tordos, doídos, doidos, retos, límpidos, vorazes. Eu sou um mundo de sentimentos e de sentidos. E agora me sinto plena. Só porque expulsei de mim, 1% do que queria escrever hoje.