1 July 2026

São José que me perdoe

Eu faço parte de um grupo infinito de pessoas, mundo afora, que amam fazer e pagar promessas.

Não sei ao certo quando comecei a acreditar em santos e orixás, para além da religião católica dos meus pais. Fiz parte de um grupo de catequese, na igreja do bairro onde eu morava, em Vitória da Conquista, no início dos anos 80 e o meu pai ainda estava vivo e as missas dominicais eram sagradas.

A minha avó materna também morava conosco. Mas Dona Maria Costa da Pesada tinha outras crenças. Ela sempre nos rezava com folhas de arruda ou outras folhas colhidas do pé do nosso jardim. Eu ficava impressionada com as rezas que nos fazia e somente agora compreendo que a ancestralidade indígena dela estava ali, muito mais perto de nós do que dos livros didáticos e literários, onde essas histórias não encontram lugar, ainda hoje. 

Me lembro dessas cenas, da minha família reunida na igrejinha que fui catequizada, e de minha avó com "ramos" nas mãos, nos benzendo. Recordo de como isso era poderoso. A gente fazia fila. Todo mundo ficava aguardando ela chamar pra passar as folhas pelo nosso rosto e ombros. Enquanto escrevo, vejo ela bem viva, concentrada e rezando baixinho. Era um ritual simples, mas cheio de significado e silêncios. 

Relembrando isso que vivi na infância, compreendo que conviver com crenças distintas ajudou a construir a minha fé, ou melhor dizendo, a construir muitas formas de fé que fui ressignificando, à medida que entrava na adolescência. Daí em diante, as influências convergiram também para a astrologia. 

Foi morando em Salvador que me aproximei, com muita paixão, dos santos e dos orixás. A fé absoluta em Senhor do Bonfim, em Iemanjá, em São José, em São Jorge, e nos juninos_ Santo Antônio, São João, São Pedro_. Fé redobrada em Santa Bárbara e em Iansã. Aqui estou citando os mais frequentes que me vêm  à mente, mas é preciso destacar que sempre caberá mais santidades e suas celebrações. Sou uma aquariana cheia de fé e o misticismo me cai bem. 

E com a fé nos santos e orixás, também enveredei para o mundo de pagadores de promessas. Não me lembro mais qual foi a primeira e muito menos o motivo. A maior delas foi feita em 2019. Dessa eu me lembro bem, com o meu forte desejo de retornar a viver na Bahia. 

Desde 2020, foram longos e esperançosos anos de promessas, renovadas a cada 4 de dezembro. Com a graça alcançada em janeiro de 2025, com minha transferência definitiva da UFAL para Unilab, decidi seguir na mesma sintonia, agradecendo muito mais que pedindo para Santa Bárbara, Iansã e Iemanjá.

Essa vitória parece simples, como escrevo, mas foram dias, meses e muita ansiedade que me acompanharam e foram responsáveis por muitas mudanças pessoais, para além dos vínculos laborais. A certeza do que eu queria mantinha a minha fé acesa, mas passei por muitos desgastes e aprendizados.

Acessei em lágrimas, a (nova) portaria de nomeação no Diário Oficial da União. Não fosse a minha fé, eu não teria como acreditar em milagre. Aconteceu comigo. Desde então, acredito que milagres também acontecem com quem sustenta a esperança, mesmo quando tudo parece improvável. Eu sou uma testemunha viva do quanto Deus atuou para me fazer feliz. E Ele fez isso através dos seus santos. 

Todo esse novelo para contar que estou cumprindo uma nova promessa. E desta vez escolhi o dia de São José. Desde 19 de março de 2026 não estou consumindo coco e nenhum dos seus derivados. São muitas provações diárias porque parece que tudo que quero comer tem coco presente. Ficarei um ano inteirinho sem degustar cocadas, bolos, biscoitos, água de coco, moquecas... não tem sido fácil, mas a promessa é reavivada toda vez que me deparo com uma oportunidade para saborear algo que contenha essa fruta que amo tanto.

São José tem sido mais que um santo protetor. Tem me vigiado e me estimulado a ter sempre mais fé. Mas hoje tive que pedir perdão. Inacreditavelmente, o xarope que comprei, o melhor para o tipo de tosse que estou, tem sabor de coco. Assim que tomei a primeira dose, senti levemente o gostinho do fruto proibido.

Tenho certeza de que São José entende essas pequenas ironias da vida. Ainda estou refletindo sobre o significado disso, mas tenho fé que São José quer me ver saudável e sem tosse, aposto. Tenho fé que São José vai me perdoar por essa situação tão inusitada de quase quebra da promessa. 

Esse foi o ponto alto e até engraçado, do primeiro dia de julho. Querido Santo, eu não tive intenção, me livre dessa culpa! 

27 June 2026

o presente e a presença

As datas de aniversário são pra mim sagradas. As minhas e de todas as pessoas que eu amo. O dia que a gente nasce é importante porque de fato marca o início de uma vida em sociedade, de uma vida que começa a existir em diferentes espaços e dimensões, em todas as instituições que faremos parte, para além da família. 

Sempre digo que a escola é esse lugar de pertencimento, que iniciamos o movimento para descobrir variados sentidos de nossa existência. Depois, ou em paralelo, as casas dos amigos, as igrejas, os clubes, os shoppings, a universidade, para quem consegue chegar até ela, e por fim, as trocas e tantos meios de aprender nos locais de trabalho. 

Outro dia conversando com uma amiga muito querida, com quem tive e tenho a oportunidade de aprender, falávamos sobre o papel da educação no combate a todas as formas de opressão, incluindo a maior delas, do meu ponto de vista, que é o racismo que opera, em todas as vezes, de forma sempre perversa e desumana. 

Não era para falar sobre racismo. Vou recomeçar. Tentarei, mas não sei se terei êxito, porque a minha mente não tem caixinhas, onde separo os assuntos. Se pararmos pra pensar, mesmo, tá tudo junto e misturado. E sei que prometi separar, mas preciso destacar sobre o racismo, apenas nesse último parágrafo que vai ficar longo, já adianto. É que o racismo é um fenômeno social que guia todas as nossas formas de nos relacionarmos enquanto sujeitos. Não é possível mais ignorarmos isso e nem o fato de que, independente se formal ou informal, educar para diversidade e para o antirracismo, são sim as nossas grandes responsabilidades enquanto humanos. Caberia aí um artigo, que eu poderia desmembrar como penso, quais são os meus argumentos para defender essas ideias. Mas prometi e vou voltar pro início. 

Os aniversários são datas sagradas, únicas, especiais. Até para aqueles que dizem que não gostam do dia em que nasceram. Talvez  essa impressão possa derivar de algum trauma, alguma situação hostil, algo que lembra um desconforto, uma memória infeliz. Só lamento e sempre vou querer encher a pessoa que não gosta do seu dia, de mensagens lindas, de textões, de palavras amorosas, de torcida pela paz, pelo sucesso, pela alegria.

Estar vivo deveria ser a condição para exercitarmos nosso bem viver, mas é claro que nem sempre dá pra gente sorrir. Muitas vezes o choro vem antes do nosso desejo anterior. E tá tudo bem. Mas eu queria só falar de como é bom ganhar presente de aniversário. Não o presente físico em si. O presente simbólico de ser lembrado, de receber uma ligação inesperada, mensagens cheias de afeto, votos, mimos, carinhos virtuais e abraços. Ah... como é bom receber abraço. Se vier acompanhado de beijo, aí o presente já vira um combo.

E tem aqueles presentes materiais que a gente ama, né? Ana não gostava de dar presente aleatório. É sobre isso, é sobre ela que quero falar. Eu ganhei dela um guarda-chuva. Primeiro ela achou um absurdo o presente de aniversário ser um guarda-chuva. Depois entendeu que eu daria muito valor e talvez ela já soubesse que eu levaria esse guarda-chuva comigo, em qualquer viagem, para qualquer chuva, fininha ou com pingos grossos. E ela caprichou. Escolheu um guarda-chuva lindo, reforçado, com duas camadas. Uma preta por fora e a outra com estampa animal print (tão Anamelea). Eu simplesmente amei esse meu presente. Morro de medo de perder e sempre confiro se está bem guardado no banco de trás do carro. É quase um amuleto. É a presença dela, mesmo não existindo mais fisicamente. 

Hoje eu senti necessidade de usar o guarda-chuva, que abrigou a mim e a minha mãe. Um guarda-chuva para dois. Da matéria virou símbolo. Símbolo de amor, de afeto, de irmandade, de lealdade. De valorizar quem amamos. Em vida, a minha amiga Ana me amou de verdade. Sou eternamente grata por ter sido amada, com tanta generosidade. E por ter ganhado dela um guarda-chuva que me acolhe até da saudade.


7 June 2026

e isso é só o começo

Eu respeito muito o processo do luto. Seja o luto que vivo em mim ou o luto em alguém que eu amo ou que me importo muito, que é praticamente a mesma coisa, já que só me importo muito com quem amo. Não que eu não me importe com as outras pessoas que não amo. 

Ser empática não indica, por exemplo, que eu ame aleatoriamente. Só significa que consigo me colocar no lugar do outro e que consigo perceber sua perspectiva, seu sofrimento ou sua dor.

A empatia é um sentimento que nos impulsiona a sermos mais humanos. Cultivar a nossa empatia é sempre mais interessante do que alimentarmos a nossa indiferença porque ser indiferente ao que alguém passa ou sente, vai retirando de nós a nossa humanidade, a nossa possibilidade de transformar indignação em uma forma de luta.

Luto e luta. O movimento desses dois artigos que muda o sentido de cada uma dessas palavras é também uma forma análoga de revertemos tristeza em força. De um estado depressivo em alerta. Quem morre deveria sempre nos impulsionar a lutar pela vida de quem fica. A nossa vida e a vida dos nossos. 

Mas nem sempre o luto se transforma em luta. Muitos declinam. Tem até aquela estranha e mórbida conclusão de que quem morre nos mata um pouquinho a cada dia, porque uma porção nossa vai embora junto. Mas e se pensarmos na porção que fica? Não seria melhor reunirmos nossas forças que restam para vencermos a dor e lutarmos por mais vida, mais prazer, mais alegria?

Parece egoísmo? Parece frieza? Parece descaso com quem partiu ou parece respeito e muito amor, a ponto de optar viver com mais vontade ou até com mais urgência?

Mas é preciso que eu diga que eu não tenho essas respostas. Esse exercício que faço na escrita, é mais um de muitos outros que ainda virão, pensando nos lutos que já enfrentei e enfrento para recalcular a minha rota para guiar as muitas lutas que já enfrento ou aquelas que terei que enfrentar no futuro.

Estar vivo é (de fato) uma celebração diária, por segundo. Não deveríamos lidar com a (nossa) vida como se estivéssemos preparando o caminho para a nossa morte. Há quem compre lápides ou preparem o funeral bem antes da véspera. É um jeito prático de agir, mas não considero nada prazeroso acelerarmos essa conversa sobre nosso fim que sem dúvida é a única certeza da vida que temos. 

Mas no intervalo, enquanto vivemos, precisamos enfrentar nossos medos, nossas próprias sombras e repensar as nossas escolhas enquanto ainda estamos por aqui. Seja para honrar os que já partiram antes de nós, seja para lutarmos em tempo pela nossas próprias missões, nossos projetos e sonhos inacabados. 

Todo dia é um dia de luta  para quem decide aproveitar a vida e o tempo que vai desaparecendo e sem compromisso de “zerar” para recomeçarmos de onde estacionamos. 

Cada parada que fazemos, por decidirmos “dar um tempo”, “deixar a vida nos levar”, é uma escolha infeliz. Escolher não se responsabilizar pelo tempo perdido pode ser um caminho perfeito para a procrastinação.

E como lutar sem forças? Como lutar pela vida estando em luto, com muita saudade de quem partiu? Como lutar para encontrar novos sentidos, novos motivos pra sorrir? Como se refazer de dores e festejar a vida? Como guardar na memória apenas o que foi bom? Qual é a virada de chave para perceber que a vida ainda presta, mesmo sem a presença de alguém que nos importamos muito? 

"Meu amor, o que você faria, se só lhe restasse esse dia?" Paulinho Moska, acertou (em cheio) na mosca. Vamos pensar sobre o que faríamos? Com quem passaríamos o último dia? Onde? Aproveitando como!?

E, por fim, quando o fim chegou numa relação... como se luta para viver bem (e melhor) sem alguém que, embora esteja vivo, prefere seguir sem a nossa presença? 

Os enterros simbólicos são sempre bem-vindos. Estou na posição de dar conselhos sobre o assunto.  Acenda uma vela. Faça orações. Converse com Deus! Mentalize com seus santos ou orixás. Peça por mais esse livramento. Ou faça terapia. Valorizemos a nossa existência! Cuidemos-nos mais! Ainda dá tempo!

E escrever também salva alguns dias mais sombrios. Também faço áudios pra mim mesma. Ao menos pra mim tem me ajudado a enfrentar todos os meus lutos e reinventar as minhas novas lutas. 

4 June 2026

ele não me leu

Eu poderia ter esquecido você naquele local inóspito, dentro da caixa das piores lembranças de coisas que eu não deveria ter permitido viver.

Poderia ter perdido as chaves. Melhor. Poderia ter jogado as chaves ao mar e torcer para que um peixe que curte comer tudo que machuca comesse.

Porque não sei se sabe, ou se deu conta, você me machucou, mesmo. Me deixou acreditar que fui nada pra você. Me fez odiá-lo. Me fez torcer pra nunca mais cruzar o meu caminho com o seu.

Hoje tenho, ao mesmo tempo, a intuição de que foi só uma fase ruim, e pra ambos. Depois da mágoa curada, fico feliz, por não ter jogado as chaves ao mar. Ficaria enlouquecida, à procura de algum peixe tarado por coisas fortes.

Porque tenho certeza de que sabe, foi forte o que nos ocorreu. Mesmo pela brevidade do tempo, que nos uniu e nos separou, como uma chuva de verão, daquelas rápidas, com pingos tão bravos que doem ao bater na nossa pele.

Causou uma tempestade em mim. Fiquei literalmente molhada, do tanto que chorava e lamentava ter perdido a oportunidade de estar ao seu lado quando a chuva esvaziasse. Porque não imagino que saiba, eu fiquei me sentindo vazia depois daquele encontro de uma noite só. Desejei novos encontros. Desejei você em minha rotina. Desejei me encaixar na sua, como se tivéssemos descoberto a pólvora, tamanho o estrago do fogo.

Por tudo isso, não tinha mesmo como te esquecer naquele local inóspito, dentro das piores lembranças. Te coloquei no lugar errado. Você não foi um evento ruim ou lastimável. O tempo nos traiu.

Hoje, ao receber seu torpedo, aquela polvorazinha reacendeu, (ainda) não sei o que, dentro de mim.

Assim, loucamente, corri atrás das chaves, tropecei nas escadas, em busca da caixa nada esquecida, e cheguei naquela noite extraordinária, em que andamos de mãos dadas e, acredite, trocamos juras de amor eterno.

Tomara que minha intuição esteja mesmo certa. Que nós dois não tenhamos perdido a noção do que ainda podemos ser um pro outro, com brevidade ou longevidade, com ou sem juras de amor eterno.

Tomara que minhas reticências, na resposta ao seu torpedo, sustentem essa leitura que faço hoje, do que já passou, e do que ainda está por vir. Tomara.


Escrita em outubro de 2011. Nunca enviada ao destinatário.

2 June 2026

mais um, do nosso jeito

Nem acreditei no seu telefonema, às duas da tarde de uma quinta-feira insossa. Mas ligou e eu amei ouvir sua voz, forte, que reconheceria mesmo se estivesse em outro planeta.

O tempo passou muito rápido, aliás, passou devagar. Vagaroso tempo que me afasta dos seus olhos. E, do nada, ou por tudo que vivenciamos, nos encontramos num cruzamento. 

Eu indo, ele vindo, na mesma rua, em direções opostas. Nem em sonhos imaginei uma cena tão romântica. E conosco, parece brincadeira, tudo beira o romantismo, até o limite da minha imaginação.

E quando nos reencontramos, quando ele tocou a minha mão, tive medo de que ouvisse o meu grito interno de alegria, ou que percebesse a minha aflição, ou que entendesse o quanto a presença dele me deixava tonta, sem eira, nem beira.

Eternizados, por dez minutos. Se o tempo parasse, saberia que não esqueci nada, que nada mudou, nem meu sentimento, nem meu desejo, nem minha esperança de um novo reencontro, um novo momento pra nós dois.

E meu olhar procurou o dele. Fugi. Fugi de mim, até. Me senti incomodada com a roupa, com a maquiagem, com o esmalte descascado. Se soubesse que iria encontrá-lo, assim, do nada, teria me produzido, teria tentado ficar irresistível, sedutora, encantadora.

Mas, não. Estava com a típica "cara pálida de quem ia pro trabalho, a contragosto". Deixar ele, ali, naquele lugar movimentado, quando tudo que me transmite é calmaria, foi um horror, um pesadelo, um acontecimento quase desumano, de tão ruim. Queria permanecer pra sempre ao lado dele. Perto, perto daqueles olhos. 

Descobri que sua falta me paralisa, me enlouquece. E que sua presença me enche de vida, de vontade, de alegria. Na tarde insossa, cheguei ao trabalho radiante, iluminada, como se tivesse me produzido para encantar alguém, às duas, num cruzamento de ruas e avenidas. Um encontro extraordinário. 

P.S: por falar no dia 12, esse conto foi escrito por mim, em 12 de setembro de 2011 e publicado num blog que nem existe mais... resgatei de um e-mail e deixo aqui como uma memória linda, da minha porção romântica que já está indo embora, com os percalços e desilusões da vida.

29 May 2026

"cadê o teu, véa?"

Eu decidi descolar esse papo de relacionamento do mês que vem, que temos o dia dos namorados por essas bandas, e o dia de Santo Antônio. Escolhi falar sobre essa pauta que ronda a vida de solteiros e solteiras ainda em maio, afinal, maio ainda existe... infinitamente, por sinal. Foi pior que março. Talvez só perca para agosto. Vamos ver lá na frente se minha hipótese se confirma(rá). 

Entendi que a solteirice em meus dias está se arrastando em demasiado, assim como o mês de maio. Mas eu preciso dizer que eu já estou pronta para viver uma linda história a dois. Já sofri tudo o que poderia ter sofrido. Já me arrependi um bocado de ter aberto a guarda e dado guarita para quem já me havia provado que não poderia estar ao meu lado. Foram quedas, recaídas, términos e bloqueios de celular que me caducaram. E o meu basta definitivo já aconteceu e já é história para (me) ninar. 

A minha porta se fechou. Não está mais entreaberta. Uma amiga me lembrou que esse vai-e-vém que permiti durante toda a minha vida teria que acabar um dia. Ela disse que eu teria que abrir mão e me despedir de verdade do que não deu certo, do que não funcionou. Pois bem. Aqui estou, completamente chamuscada, ainda me recompondo, mas de olhos abertos, coração aberto e ouvidos atentos. Por falar em escuta, quase ouço a minha saudosa tia Dau, que me perguntava sorrindo: "cadê o teu, véa?"

Olha, tia... sinto tanto! A senhora partiu cedo demais e não deu tempo de eu te responder que "está aqui do meu lado e quero muito que conheça "o meu", véa. Não consegui ter esse prazer e te dar esse prazer em vida. Não pude ver sua expressão de surpresa ou felicidade. A sua sobrinha aqui segue em carreira solo, mas com uma imensa vontade de ser par de alguém que também queira ser par dela.

Não sei quando isso vai acontecer, minha tia. Eu jurava que no próximo dia 12 de junho já estaria comprando e ganhando presente e fazendo promessas ao luar. Não vai rolar ainda. Vou guardar (de novo) esse desejo pra frente.

Quem sabe no ano que vem? Só mais um ano.… por isso talvez eu tenho que rever como ando me relacionando, o que estou fazendo que está me impedindo de conhecer o meu novo namorado, se é algo que quero tanto viver, de novo.

Será que devo mudar de academia? Não, não quero isso. Será que devo entrar em aplicativos? Já o fiz e odiei tudo, do momento de responder tantas perguntas bobas para montar o meu "perfil" e depois me “ver” na prateleira e não gostar nem do que vejo sobre mim, que é tão diferente do que sou, ao que vejo dos possíveis pretendentes.. não, não sou pra estar ou curtir esse universo. Vai ter que ser de outro jeito.

Será que devo ir para lugares novos? Conhecer os points da cidade? Ir para bares? Boates? Mas como eu farei isso se não curto dormir tarde e não gosto de bebida e nem de quem fuma e bebe (demais)?  Só por isso já eliminei todas as saidinhas diferentes.

Será que devo entrar num clube de corrida? Não corro, gente…não suporto correr, não gosto de acordar cedo, não gosto de ficar suada, não gosto de competição. 

Será que devo ir para um cruzeiro de solteiros? Ih... não curto ficar em embarcações. Amo o mar, mas amo mais contemplar o por do sol, em terra firme, na areia quentinha e com as ondas fininhas morrendo em meus pés.

Tia Dau, eu penso na senhora sempre, e fico me perguntando aonde é que está o meu, véa. Sei que ele já está entre nós, se possível solteiro e quem sabe fazendo as mesmas perguntas que eu. Em junho eu não vou perguntar nada disso para Santo Antônio. Vou só fazer a trezena pedindo saúde e paz para os meus. E quanto ao amor, acredito que vai chegar de repente, sorrateiro. Vai esbarrar em mim, como diria a sua irmã, minha tia Lola. 

Meu novo amor vai me olhar nos olhos, exatamente como eu gosto. Nos reconheceremos e daí seremos par um para outro. E a senhora, minha querida tia Dau, do alto, vai aparecer pra mim numa enorme nuvem, num céu azul, em forma de coração.


24 May 2026

“esqueço que amar é quase uma dor”

Djavanear, 50 anos depois. Eu tenho 56, o que significa que desde que nasci ele já fazia da música o seu país. Eu cresci ouvindo Djavan. Não por escolha própria, mas porque a minha irmã escolheu amá-lo, antes de mim, que também passei a amá-lo. Decidi amar Djavan por ela, depois pela sua canção. 

“Gosto de filha, música de preto”. E foi assim que Djavan musicou a sua arte em Linha do Equador. Caetano também o fez, quando declarou o seu amor pela música de Gilberto Gil. Eu poderia citar só o Seu Jorge. Ou só Vander Lee. Poderia citar Steve Wonder. Não poderia deixar de citar Carlinhos Brown ou Cláudio Zoli. Nem John Legend, Bruno Mars, Baby Face e Barry White. E poderia citar todas elas: Whitney Huston, Beyoncé, Iza, Luciana Melo, Rhianna, Tracy Chapman. Meu nome é Gal. 

Vejam que as referências de música e potência de mulheres pretas e de homens pretos são muitas, felizmente. E todos esses pretos incríveis e talentosos estão na minha playlist, que tem muita “música de preto”.

Enquanto escrevo, Djavan me devora. E ontem fui à sua turnê que passou por Salvador. Ele que é alagoano e apaixonado pelo seu estado, disse que se sente baiano também. A sua travessia vai terminar em Maceió. Vai rodar o Brasil em diversas capitais mas vai desaguar seu oceano nas águas da sua nascença.

Eu ainda nem levantei de ontem. Dormi e acordei com a voz de Djavan, me dissecando por dentro. Revivi tantas fases da minha vida. Me lembrei quando compramos um carro chamado “Parati”, não lembro o ano. Mas a concessionária deu de “brinde” um LP (leia-se élepê), um disco de vinil de Djavan. A capa era rosa. Ou lilás. E óbvio que foi dado pra sua dona, a minha irmã siamesa, que de tanto amar Djavan, tatuou Outono em sua pele. 

Eis que tive o privilégio de assistir ao show de 50 anos de sua presença na música brasileira, num mês outonal, com folhas caindo e chuva brincando pelo ar. Minha mana também vai se extasiar, no dia 13 de junho, em Curitiba, também no outono. 

E eu queria encerrar esse texto pensando que o amor quase dói. Quase. Quando a gente ama a gente sofre de amor, mas esquece que sofre. Amar é  mesmo um sofrimento delicioso. E, ao mesmo tempo, “amar é um deserto e seus temores… vida que vai na cela dessas dores”. E não sabe voltar. 

Que bom que a gente aprende a amar para além do amor por outro alguém. Que bom que a gente aprende, até com desamores, a viver por nós, com nosso autocuidado que deve ser nutrido a partir do nosso amor-próprio. Mas que bom (também) que Djavan nos ensina e nos emociona tanto com a sua poesia. O seu legado é ancestral e a sua música de preto é pra sempre.