19 May 2026

futebol, eleições e a vida em pausa

Eu poderia começar pela vida pausada, mas já que estou fazendo uma pausa para desafogar, ops, escrever, então faz de conta que já estou no autocuidado que tanto discurso. E isso é muito verdade: escrever pra mim é mesmo terapêutico. Mas ontem percebi que um banho quente e demorado também me ajuda a colocar a mente pra funcionar e encontrar soluções que olhos viciados em telas não consegue. O banho resolveu. 

De cabelos lavados e corpo revigorado, eis que consegui identificar um erro tosco que me impedia de gerar uma mensagem para 1426 eleitores aptos a votar digitalmente, na eleição que está rolando até às 21h de hoje, horário local, fuso horário de Brasília. 

Vejam só que loucura. Brasília tinha que chegar por aqui. Esse lugar também conhecido como BSB, sigla de voos, ou de DF, ou Distrito Federal, é sim o palco de mais escândalos e horas do jornalismo e das redes sociais... agora, com a convocação da seleção brasileira, com tanta festa e exagero, parece que a política voltou a ser mais circo do que pão.

Por falar em pão, eu tenho comido pouco carboidrato já faz um bom tempo. De zero a dez, eu posso afirmar que minha nota é 7 (passei) mas a intenção é reduzir muito mais farinhas que não me ajudam a ficar com a barriga que eu tinha aos 30. É um exagero, eu sei. Mas essa sou eu. Gosto de me desafiar. Quero voltar a me sentir bem em fotos, em biquinis, em espelhos. 

Um absurdo o quanto somos assediadas pela indústria da beleza, dos cosméticos, das famosas com seus corpos ultra magros (e também criticados). Corpos magros, médios ou gordos... nada passa ileso ao julgamento, seja presencial, por quem amamos e convivemos ou virtualmente, por olhos (ditos) anônimos. Nós mulheres sofremos desde a infância, e justo na escola! Infelizmente tenho sempre que lembrar do quão danoso (e muitas vezes hostil) é o ambiente escolar, seja na rede pública ou privada. É um horror.

Além do assédio, somos bombardeadas com ideais que nos rotulam, com estéticas que não nos pertencem. Mas, ainda assim, a minha obstinação, que é influenciada pelo nosso tempo, com toda certeza, é uma meta que eu criei para mim mesma e estou muito bem com essa nova aventura, pelo prazer de tentar me ver alcançar o sonho de ter a minha cintura de pilão, de volta para os meus dias, só que no meu corpo de agora, com 50+. 

A vida em pausa também tem relação com essas novidades no corpo e na mente. Sigo obstinada, atenta e em constância. É muito bom perceber que posso ser mais do que já sou. Que posso ser mais disciplinada e mais segura do que quero. Bom demais escrever do meu jeito e sem pedir licença para o que quero manifestar. Só me lê quem quer. Não obrigo. Não julgo quem prefere não me ler. Meu texto é exatamente como eu me sinto agora: sem necessidade de aprovações e muito menos controles. Foi-se esse tempo ruim. Obrigada a mim, por isso.

Sobre as críticas ao futebol brasileiro, olha só... vamos combinar que são todas legítimas, mas sempre temos um MAS...vamos esperançar, por favor. Com Ancelotti com a lista na mão, muitos holofotes e torcida para o menino rico (e mimado), confesso que eu só posso concordar que um hexa, nesse contexto bizarro, nos cairia muito bem. 

Seria muito maravilhoso porque afinal, só o Brasil é pentacampeão. Isso é um feito inédito e também por isso podemos torcer por mais uma taça, a cada novo campeonato. Não é feio, não é proibido. É bonito vibrar junto, apesar das nossas diferenças políticas entre os torcedores e fanáticos pelo futebol.

E sobre a crise política, minha gente, é só entendermos que é uma crise permanente. Nada de novo, abaixo ou acima da linha do equador. A disputa pelo poder nos remete aos tempos coloniais e o nosso país continua mantendo a  mesma lógica capitalista de sempre. 

Vou falar obviedades. Chovendo em pista muito molhada mas ainda assim é preciso ser óbvia, desenhar, sei lá o que mais. O capitalismo é um sistema que não defende a igualdade de oportunidades. Portanto, não defende o Estado máximo. É sempre o mínimo para quem dele precisa. Defende a iniciativa privada. Qualquer iniciativa privada. Defende, sobretudo, quem a defende e quem, ao mesmo tempo, nega o direito do povo preto e pobre querer se projetar para além do pacto. Não é que não possa sonhar, mas ter lugar na janela, não. Vem daí o grande nó. 

Esse nó existe para além da esquerda ou da direita, para além da polarização que incomoda tanto. É sobre quem detém e quer sempre deter a estrutura de poder. É por isso que o nosso ringue é eterno. A luta é desigual e não tem muito o que fazer, além de torcer para que, além da conquista do hexa, tenhamos os mandões do planalto, lá em BSB, ou DF ou Distrito Federal, saiam o quanto antes da cena pública. 

Essa gente desonesta, que finge ser contra corrupção, mas é corrompida e enriquece ilicitamente, não pode estar na cena pública. Quem não gosta de pensar em prol da população de um país, não pode governar nem ditar leis ou mudanças na constituição. Então que abandonem a vida pública. Que vão cuidar dos seus quintais abastados e dos seus jardins perfeitos. 

Por fim, eu penso que com o "menino" Neymar caindo ou brilhando, é disso que precisamos: de torcer pelo nosso país, no futebol e na ação pública. Pra isso será preciso pausar a vida política dessa galera que nunca quis mudança social, só discursam que querem e metem Deus e família no meio da oratória e enganam sem nenhum pudor.

E quanto à minha vida em pausa, a minha pausa acabou de acabar. 


13 May 2026

uma luz na escuridão

Eu amo o verbo mudar. Gosto de observar a mudança de uma estação, das fases da lua, das marés, do dia pra noite. O por do sol me dá sempre uma sensação de despedida. E quando vejo de repente um arco-íris no céu, vejo também a promessa de uma surpresa a caminho. 

Mudar o estado das coisas externas quase que independe da nossa vontade. A gente pode acompanhar a mudança e se alegrar com uma grama verde depois da chuva bem-vinda ou lamentar o estrago nas periferias, de um mau tempo, mau em todos os sentidos.

Já escrevi sobre as mudanças de CEP. Não, eu não gosto de caixas de papelão. Não gosto de ver nada fora do lugar, precisando de minha ação para colocar cada item no local adequado. Claro que é um prazer imensurável quando a gente arruma um novo canto e fica ali admirando a perfeição da estética do nosso lar. 

Mas o preço é sempre alto quando a gente  muda de casa? O recomeço de vida num novo espaço é tão ruim assim? Aí depende do porquê, para onde ou com quem se muda. Como eu já passei por experiências de mudança sozinha e a dois, eu tenho que concordar que fazer uma mudança tendo com quem contar é muito mais gostoso. Quase tudo, aliás. Do café da manhã ao apagar da última lâmpada, há sim, muito encantamento em morar (e sonhar) junto.

Romantismos à parte, o dia-a-dia é tarefa complexa. O fazer doméstico não dá trégua nem quando estamos tristinhos, querendo desaparecer por uns dias. A louça não deixa. Os boletos não deixam. O tempo não deixa. O coração não deixa. O mundo real tem que sobreviver, apesar das nossas mudanças internas e, sobretudo, por causa delas.

Ter consciência do que é preciso mudar, já é meio caminho andado. Precisamos da outra metade. Da nossa força de vontade, do nosso amor próprio, da nossa constância. Precisamos não desistir de nós. Precisamos alimentar o autocuidado em pequenos gestos como rejeitar, por exemplo, o alimento que não alimenta e insistir na atividade física diária, ainda que o corpo queira cama, o burburinho dos memes e tretas nas redes sociais ou o controle da TV.

Mudar exige dedicação e propósito. Outro dia li que essa palavra "propósito" é insuportável e deveria ser eliminada. Ok. O propósito poder ser não usar mais a palavra propósito. Vamos ver se consigo. Eu dizia pra Ana que ela precisava ter um projeto de vida, para além da mesmice dos seus dias. Ela me escutava atenta e ficou um tempo encabulada sobre o que deveria fazer pra mudar sua existência. O fígado dela parou de funcionar e minha amiga não pôde realizar o sonho de ver sua vida transformada. Eu sinto muito por ela, por mim, que também fiquei engasgada com a sua partida. Até hoje estou. 

Eu mudei muito desde 5 de julho de 2018 quando Ana partiu e me deixou com esse engasgo que sinto ao escrever agora. Mudei sob muitos aspectos, para além do código de endereço postal. Mudei de rumo, de universidade, de rotina, de hábitos alimentares. Mudei como profissional. Mudei como professora. Mudei como amiga. Mudo constantemente como escritora. Mudei como filha e como irmã. Mudei como tia. Acho até que mudei como mulher. Será que mudei mesmo? E foi o suficiente? Quais mudanças me esperam na curva ali adiante?

E assim eu sigo projetando o meu futuro e dialogando com o universo. Que ele me atenda em meus quereres e expectativas. Eu espero mudar muito mais. Espero conseguir parar de repetir padrões ou os mesmos erros. Espero mudar de endereço quando sentir que aqui já não me cabe mais. 

Espero viver outra relação amorosa, viver outra experiência a dois, quem sabe dentro de uma mesma casa. Mas calma, ainda não sei se quero de novo, mas tomara que eu consiga viver uma nova parceria, que seja tão boa, que me faça querer levantar sem preguiça e sem reclamar, para apagar a última lâmpada acesa e voltar correndo para sorrir no escuro.




10 May 2026

a relação perfeita

Eu amo refletir em datas importantes como a de hoje,  o (especial) dia das mães. Não que uma mãe deixe de ser mãe nos demais dias. Isso é outro papo. 

Amo refletir porque eu penso que é sempre um bom momento para que as pessoas se voltem para também refletirem sobre o assunto. 

O que é ser uma boa mãe? Isso remete a outra pergunta: e o que é ser um bom filho?

Não é possível pensar sobre o que é ser uma boa mãe sem pensar sobre o papel do filho nesse jogo. 

E se a gente concorda que ser presente, estar presente, ou querer ser presente e querer ser presente, é o que garante que mães e filhos se entendam e também se estranhem, podemos concluir que é muito comum que quem está distante, por escolha ou não, que só “mora” na fantasia, pode ser lido ou visto como perfeito. 

E é aí que nasce um novo problema, o de romantizar. Aliás, romantizar relações amorosas é sempre um problema. Porque a realidade é muito mais complexa e dura, muitas vezes.

Amar uma pessoa em todas as suas versões, com as qualidades e os defeitos, só é possível na presença, na convivência, na tal história de comer uma saca de sal juntos. 

Conviver é trabalhoso. Mas não é o caso de cobrar perfeição porque nunca deveríamos buscar por perfeição. Porque a realidade nua e crua nos conduz sempre a aceitarmos que por sermos imperfeitos, podemos nos melhorar como seres humanos e somente o amor verdadeiro, construído na presença, pode ajudar a moldar relações saudáveis e lindas entre mãe e filho.

Que esse dia seja um dia de abraçar a nossa mãe, aquela que é presente por vontade, para além da burocracia. E que ela encontre no abraço do filho, o mesmo compromisso, o de estar presente por amor e cuidado, nunca porque é o segundo domingo de maio, marcado como especial no calendário inventado pelo comércio. 

Feliz dia das mães presentes e perfeitas por serem presentes! Feliz dia para essas mães, que também tem filhos presentes e perfeitos por serem presentes! 

8 May 2026

2026 num país tropical

Já tivemos corrida para o Oscar, com inéditas 4 indicações em um movimento mundo a fora de muito amor e reconhecimento pelo cinema brasileiro. Shakira em Copacabana, a América Latina em evidência e o Brasil em festa… haja quadril para dar conta dessa onda eletrizante impulsionada por mais uma pop star se consagrando em nossas areias.

E temos a corrida presidencial em curso, que só na praça dos 3 poderes, em Brasília, já conseguiram esgotar nosso fôlego com tantas notícias e tragédias anunciadas. 

Ou seja, o ano 2026 até aqui já entregou muito nesse pais que em tudo beira o exagero: o carnaval, o futebol e a política.

Fato é que temos motivos de sobra para torcer pelo nosso país, sempre. Mas esse ano exagerou. Eleições e Copa? Será que estaremos finalmente com o HEXA ou nos arrastaremos pelos próximos meses como se estivéssemos em luto?

Pelo sim, sempre, por bons ventos e boas novas sempre. Por novas taças para erguermos ou brindarmos. Se possível ambas. Por muitas premiações de nossos artistas, por políticas públicas que realmente sejam desenvolvidas para transformar vidas, destinos, pessoas, projetos. Por mais justiça social. Por menos desigualdades. Por mais acessos. Por mais oportunidades. 

A gente aprende a torcer porque fomos ensinados (ou treinados) a sempre desejarmos vencer. O capitalismo estrutura a forma como pensamos, ou enxergamos o que somos capazes. Individualismo e competitividade, essa aí  é a dupla que nos ensinam desde a infância e, sim, justo na escola, infelizmente. 

Não aprendemos, na mesma intensidade, sobre o que aprendemos nas baixas, nos momentos sombrios, que a gente lamenta ou se frustra ou se decepciona. Parece que perder é sempre feio. Um verbo proibido. Perder ou ganhar? Só temos essas possibilidades?? Não existe aí um meio-termo ou estaremos sempre (engessados) nas polaridades, nos extremos? 

Eu me perco com minhas perguntas, com os meus devaneios. Quando preciso esvaziar, descarrego tudo aqui e o leitor que se vire para encontrar nexo, sentido e empatia com essa alma que sofre com a dor alheia como se fosse a sua.

Eu já falei que choro quando algo me comove num filme? Choro muito. Outro dia dei uma pausa e chorei por minutos silenciosos que beiraram um colapso. Ou o fim do colapso. Mas também ouvi na mesma semana, num bate-papo na TV com mulheres, que se afastar da cena e chorar a sós é um jeito de se autoregular. Pois bem, eu enxuguei as lágrimas e retomei o episódio.

Não, não lembro qual foi a série nem o motivo do choro. Pode ser até numa cena cômica ou muito dramática. Eu chorei com Paulo Gustavo vivo, muito antes de ele partir por falta de cuidado coletivo do ex-governo que agora quer voltar pro Planalto, depois dos estragos na pandemia, quando escolheu não agir, negar e minimizar o problema. Se eu chorava antes, imaginem como fico quando vejo os filmes dele e me deparo com toda a sua potência roubada? 

Era pra falar o quanto 2026 já me revirou os olhos e o estômago, mas como eu vivo dizendo, a política está em tudo. E eu prefiro crer em escolhas saudáveis, na hora de torcer pelo melhor aqui nesse país, abençoado por Deus e bonito por natureza. 



30 April 2026

a lua cheia de abril

O tempo segue desgovernado. As marés se revezam. O tempo do nada fica nublado, bate uma chuva, depois vai embora e de novo os céus ficam estranhos, sombrios, cono se anunciassem tragédias. 

O outono no sul global não tem só folhas pelo chão. Marca um período de muitas mudanças não só no clima, mas na energia que paira no ar.

Pode ser o drama de sempre, dessa aquariana que nasceu dentro de um aquário cercado de piscianos e seres mais elevados, sensíveis e de olhos mais cintilantes que os próprios nascidos em aquário. Anamelea era a aquariana de peixes. Eu sou a pisciana de aquário, se isso for mesmo possível. 

Nós sempre conversávamos sobre signos, astros, sobre o sol, a lua. Ela dizia gostar de sereno. Achava isso tão poético. Eu sempre digo que gosto mais do dia, de eventos diurnos. Mas a noite também me encanta. Eu curto ver a lua mudar de forma. Já inventei encontros ao luar, com vinho, duas taças, essas paradas românticas que fazemos quando estamos apaixonados.

O abril que se abre se fecha hoje. Não quer mais ser abertura para nada. Está cedendo lugar para maio, que também não significa que não vai se abrir só porque não é abril.

Eu vou continuar desejando a novidade. E por falar em lua, hoje ela está cheia e alta vive no céu, o que dá pra ver  aqui da minha varanda, enquanto escrevo. Mas eu chequei na previsão que na madrugada do primeiro dia de maio, daqui a 6 horas, vai chover forte.

A chuva me encanta ainda mais que a lua. Qualquer chuva me deixa emotiva. Eu sempre lembro da chuva no telhado da fazenda que um dia foi da nossa família, do núcleo Santana. Eu lembro da Laranjeira amada, do capim molhado, do gado ruminando no pasto. Lembro de uma fogueira ao anoitecer, que meu pai acendia, pra evitar que entrassem aranhas dentro de casa. Lembro daquele fogo trepidando, aquecendo e iluminando meus manos, minha avó e a minha mãe e de como aquela casa parecia viva, exatamente como nós.

Em junho passado estive lá. Chorei com o reencontro. Mas não era com o presente, mas com minhas lembranças do que fomos. De como fomos felizes, na chuva, na seca, em qualquer estação. 

Lembro que meu pai era muito brabo, mas não era carrancudo. Ele sorria com os olhos. Tocava violão. Gostava de nós à sua volta. 

Anamelea não tinha essas lembranças do pai dela. A gente conversava sobre as nossas famílias, e embora diferentes, significavam muito para nós duas. Eu e ela fomos família uma para outra. Hoje vendo essa lua gigante, me lembrei dela. Eu sempre me lembro dela. E sinto muita pena dos novos serenos não contarem com a serena Ana curtindo a escuridão. 

A lua está muito bonita. Mas vai chover. Falta pouco pra maio chegar e trazer a sua porção de mês pra nós. E cada vez que escrevo com saudade, também escrevo com esperança. Talvez de viver novas luas e novas chuvas, em boa companhia, ainda que seja com a minha escrita.

Ana aprendeu a viver no alto. Como meu pai, minha avó, meus tios e todas as pessoas boas que eu pude conhecer e festejar o dia ou a noite. Agora vivem reunidos, lá no alto.

O pai de Nate faz 30 dias sem aparecer pra nós. Mas olha só, sinto que ele foi levado para bem longe. Juntou-se aos bons. Ele está por lá também. Quando chover na primeira madrugada de maio, será o seu prato de saudade que veremos. E deve ser por isso que amo tanto quando chove. A chuva quando cai de vez em quando também inunda os meus olhos. 

25 April 2026

carnavalizando os sonhos

Os sonhos nunca nascem só enquanto dormimos. Eles nascem antes. Os pesadelos também. Tudo se mistura e cria-se um clima surreal, seja com doses lindas ou muito esquisitas. Eu sou muito fã desse talento que nossa mente tem: a de projetar outros mundos, outros tempos, personagens e cenários impossíveis de serem reais à luz do dia. 

Bem verdade que a gente sonha de olhos abertos, seja de dia ou de noite, mas na madrugada, quando as luzes se apagam e os olhos se fecham de verdade, aí sim, os sonhos podem acontecer, num piscar. Ou não. Muitas vezes a gente não lembra e parece que naquela noite, nossos pensamentos se afastaram de nós. Resolveram dar um tempo. Isso também é mágico, não é? Quanta plasticidade! Quantas versões de nós ainda nem foram construídas ou sonhadas?

Ontem eu sonhei que era carnaval. Ou que eu reclamava do carnaval. Eu vi um story de uma prima numa caminhada (ops, corrida) com Bell Marques, cantor das antigas, um dos melhores, da cena carnavalesca da Bahia. Mas ele estava no Rio, num evento de milhões que ele certamente angariou muito dinheiro dos cariocas carnavalescos, como meus priminhos que (juro), começaram a história deles, pra valer, ao som do trio elétrico. Isso é outra mágica, que um dia volto a escrever sobre ela. Voltemos ao meu sonho.

Eu reclamava como a cidade de Salvador muda com o carnaval. Vira um canteiro de obras. Muitas lâminas de madeira empilhadas, muitas colunas de ferro para sustentar os camarotes, muita gente que vai montar toda a parafernália e que sequer vai ter acesso a essa festa que foi transformada com o passar do tempo. Virou fonte de renda. Tornou negócio e propaganda de grandes marcas. Migrou o sul e o sudeste pra cá e oprimiu nossa gente, a ponto de só sobrar um pouco das laterais das ruas, para dar lugar e vez aos que vêm de fora e aproveitam os dias de carnaval consumindo nossa cultura, enchendo as ruas de latas de cerveja e de xixi pelos 4 cantos. A mistura desses dois odores não é nada agradável. Reclamei disso também no sonho. 

Na verdade eu sempre repito que prefiro ver o copo meio cheio, mas reclamo tanto de tudo, que reforço o seu lado vazio. Não seria diferente se eu não fosse a contradição em pessoa. Sou aquário com ascendente em aquário. Isso (até) me serve pra justificar, mas não resolve o meu dilema existencial. Eu realmente preciso parar de reclamar. Até nos meus sonhos eu sou a reclamona de plantão. Faz como para o cérebro ser ainda mais incrível e mudar esse padrão que tenho, ao menos enquanto durmo? Está vendo só? Eu agora consigo enaltecer e reclamar das nossas funções cerebrais. Sou uma grande interrogação ambulante. 

Deve ser por isso que amo carnaval mas odeio o furdunço e tudo fora da normalidade do antes, durante e depois. Também não assisto nenhum filme que tem batida de carros e casas, prédios e ruas destruídas sem reclamar da bagunça que os efeitos especiais criam. A verdade é que gosto de rotina, de tudo no lugar e tudo dentro do que é esperado. Eu amo purpurina nos olhos, admiro muito cada maquiagem diferentona que vejo por aí, mas fico louca quando aquela coisinha brilhante insiste em morar no meu tapete. Simplesmente não saem após a folia. E é bem perigoso pensar sobre o que se mantém na gente, depois de um grande caos. Ou de um sonho revelador.

Era pra falar de sonho e eu meti carnaval, eu sei. Mas assim como um sonho, não existe nada mais desconcertante e inexplicável como as muitas emoções que se misturam quando decidimos curtir uma festa tão complexa, barulhenta e contagiante como o carnaval. Eu me sinto assim quando sonho. Quero sugar toda a experiência louca, que eu não me lembro nem a metade quando abro os olhos, mas que gostaria de me deliciar de novo com aquele reencontro, com diálogos improváveis com pessoas que sequer acesso mais, com gente que até já partiu, mas estava ali, vivinha da silva, naquele intervalo maravilhoso chamado sono profundo.

Eu sonhei com carnaval, com bebê, uma amiga que não é mais amiga, com sua filha que também já não está mais entre nós. Conversamos, fizemos as pazes, contamos as novidades. Curtimos o momento entre nós. O bebê era meu. Depois não era mais. E assim, como uma dança tribal, mudou o trio, o cenário. Fiz o meu xixi em algum momento, como sonâmbula que sou. Voltei pro sonho e nem precisei pedir pra voltar. O sonho continuou e a grande magia que aconteceu precisava virar escrito. 

Eu concordo muito com Milton Nascimento e seu clube da esquina, talvez a canção mais linda que já ouvi, que me lembra tanto de Ana. Realmente os "sonhos não envelhecem". Também não morrem. Meu amor por quem já amei também não. Nem o meu amor pelo carnaval vai me abandonar, só porque agora a festa acontece sem controle, fora da Bahia e, fato, se tornou menos democrática e divertida como era antes dos famosos e celebridades descobrirem nosso axé, nosso molho, nossa baianidade. 

O bacana de sonhar é pensar que tudo muda por fora, mas a gente pode continuar sonhando com o que aprovamos por dentro. Isa, Gica e o bebê que sorria pra mim, no meu colo, que eu não entendi ainda quem é ou o quê significa obrigada pelo reencontro comigo, tão visceral, na madrugada do dia 26 de abril de 2026.



20 April 2026

ao escolher amar a gente perde?

Com tanto feriado em 2026, meu estoque de frases impactantes tem crescido muito. É que cada série, filme ou livro que leio, tem me ajudado a colecionar novas reflexões.

Na relação amorosa mais densa e dolorida que já vivi, eu já havia aprendido que “só o amor não basta”. É preciso que funcione. E funcionar é um troço que parece tecnicamente simples de acontecer quando duas pessoas se amam e também insistem em apostar na história. Mas não é simples, não é fácil, e posso concluir que no “meu” caso foi também impossível de rolar.

Nas relações de amizade ou até mesmo laborais, essa coisa de não funcionar direito também limita a sobrevivência. Você pode gostar do que faz mas o contexto geral não funciona. Você pode amar um amigo mas a vida em volta não funciona. E a gente muda de trabalho porque está incomodado e também pode se afastar daquela amizade, porque não teve jeito. Era o melhor a se fazer. Por um, pelo outro, ou por ambos.

Outro dia eu li que “talvez você também seja um livramento para alguém”. Já pensou que loucura isso? Você se livra do que entende que lhe faz mal e ao mesmo tempo o outro lado também entende que se livrou de você. Foi importante pensar sobre isso. Verdade que nenhuma história tem só um lado, ou uma versão. Podem ter outros lados, muitas versões. Depende de quem a viveu, como interpretou o que viveu e como agora se sente estando livre daquele surto a 2.

Mas daí a dizer que você, ao escolher amar, você também perde, me forçou a incluir uma interrogação, ao final. É que eu ainda duvido da certeza dessa afirmação. Não consigo (ainda) aceitar que só o amor não basta, ou que a gente perde quando ama. Eu apelo para a canção que Renato Russo lindamente nos ensina que “é só o amor, é só o amor, que conhece o que é verdade, o amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece”. 

Como um sentimento tão podereso, genuinamente honesto como o amor, poderia te fazer perder algo? Como isso é possível? A gente não deveria abrir mão do amor, nunca, mesmo quando parece não funcionar. Eu queria poder consertar o (descom)passo, alinhar expectativas e os ponteiros e seguir acreditando que quando a gente ama, a gente só ganha. Quando a gente ama, a gente cuida, a gente investe na fé por tempos melhores e de paz, nunca por fins ou tristezas. 

Minha porção romântica está por um fio, mas ainda teima, nem sei como. 

Que os feriados continuem prolongando esse desejo em mim. Que eu não desista de amar e insistir. Que eu encontre um jeito de fazer a roda girar, que tudo funcione bem e que o mundo seja um lugar de encontros e diálogos, de longas pontes, não de muros altos.