24 July 2026

sem fogos de artifício

E a copa já virou memória. Não tão boa quanto gostaríamos, sendo brasileiros e torcedores muito frustrados com o nosso país. O bom é que o sonho do hexa foi renovado por mais um ciclo... a realidade frustra, o sonho se reinventa. 

Depois desse banho de água fria, o mês de julho segue meio insosso, sem entregar muitas novidades ou novas emoções. Manter o estado de alegria e expectativa sempre ativado nunca será fácil. Do nada, até quando um "mata-a-mata" acontece num estádio, nos damos conta que a euforia torna-se insustentável.

Após muitas torcidas contraditórias que nos deliciamos, no dia seguinte da ressaca, quando os jogos da copa finalmente acabaram, a nossa rotina voltou ao seu estado mais puro. Isso tem lá o seu valor. Eu amo quando retorno para minha rotina. Saber o que vai acontecer num dia traz essa paz, uma zona de conforto que nos protege até de novas frustrações. Quando algo inusitado nos acontece, a gente comemora. O inesperado sempre cai bem. 

Ser surpreendido pelo acaso é bom demais. Mas não podemos contar com isso. Tem que vir de forma espontânea, quase natural, como se fosse um presente para nos fazer acreditar que existe magia no ar, mesmo quando o dia tem seu script prontinho desde às 6h.

Por outro lado, quando algo planejado não sai como o esperado, isso nos dá margem a um certo desânimo. E, nesses momentos, a gente até pensa em desistir daquilo que não fluiu. Mas como saber quando é esse limite? Como parar de sentir vontade de ver o universo contradizer as nossas próprias previsões? Aliás, quando parar de prescrever as coisas? Não faz o menor sentido já que não temos bula e nem receita de sucesso. 

Se duvidar, até duvidamos da nossa capacidade de fazer a leitura correta do que nos aconteceu. Interpretamos pelo coração e a mente gira em círculos, insistindo em encontrar respostas para ser assim e não assado. A novidade nem sempre dá na praia. Muitas vezes ela nem vem. 

O calor do momento pode parecer algo novo, mas vai ver é o mesmo sendo repetido. E aí pensamos sobre como dar um fim ao que já desandou faz tempo. Talvez seja justamente na rotina que percebemos aquilo que antes passava despercebido.

Reconhecer um padrão de comportamento que nos impele para idênticos desagrados, por sua vez, é um passo importante para nos libertar do que aprisiona naquelas ondas de estagnação e impotência. Não basta apenas aprender a dizer não. É preciso testar a nossa capacidade de responder diferente e nem precisa ser com um não. E como é maravilhoso voltar a ter o controle de nossas emoções, do que estamos dispostos a permitir que entre ou não em nossas vidas. 

Falo da mornidão gostosa da rotina e me apego a isso para me refazer do tumulto que deixo adentrar os meus dias. O meu calor não é o oposto da frieza ao que me deparo num ambiente. O meu calor vai me manter aquecida, e, ao mesmo tempo, em alerta contra temperaturas radicalmente distantes da minha. O que vem de dentro afasta o que vem de fora, quando vem sem propósito. 

É na rotina que priorizamos nosso autocuidado e o nosso amor-próprio. Esse trabalho acontece muito mais no silêncio, afinal, na maior parte do tempo, a nossa rotina sequer produz barulho.

20 July 2026

5 minutinhos

Eu tenho apenas 5 minutos para escrever. 

Tenho um mundo de ideias borbulhando em minha mente e estão com vontade de virar caracteres. Eu não sou obrigada a ter que digitar. A página em branco não me assusta e também não me pressiona. Eu só sinto vontade de vê-la preenchida com esses sentimentos e tantas perguntas que me rondam. 

Acho egoísmo reter tudo dentro de mim. Preciso expulsar. Me sinto mais leve, menos rígida, mais regulada. Aliás, regulação pra mim virou meu novo "bom dia". Depois eu conto mais, mas já destaco que enquanto penso, até me regulo mas quando escrevo, simplesmente me acolho. 

Parece loucura o que digo, mas é terapêutico saber que meu tempo livre acabou mas esvaziei um tiquinho, só porque escrevi. 

19 July 2026

futebol e política: uma coisa só

Na minha família tem torcida organizada e fã-clube desse “quase” ex-jogador que é multimilionário. O “menino” Ney deveria ser multicampeão, mas angariou muito mais dinheiro que premiações. 

Não devemos transformar divergências em brigas. Mas isso não significa separar futebol e política, porque a política atravessa o esporte e a nossa vida. Eu sou a prova viva do quanto já sofri com a minha própria forma de pensar e expor o que penso. 

Mas, independentemente de eu ser de esquerda, penso que, apesar das polêmicas, quando misturamos futebol e política, o debate sempre será necessário.

Messi, por sua vez, é unanimidade quando o assunto é competência no que faz! Ele de fato é um multicampeão! Se ficou muito mais rico com o futebol, eu não sei, mas, dentro de campo, cumpre muito bem o seu papel e não deixa nem o time nem a torcida frustrados.

A questão é simples, mas complexa: a política não está, e nunca estará, à margem do gramado. E nem das nossas vidas. A política está em tudo. 

Conversando com um pesquisador e colega cabo-verdiano, ouvi dele a afirmação de que 'Argentina, EUA e Israel foram os únicos que não reconheceram a escravidão como a mais desastrosa tragédia humana'. Se isso for mesmo verdade, torna-se mais difícil compreender o enfrentamento do racismo por meio de políticas públicas nesses países.

Ou seja, se um Estado é negacionista, e não reconhece o racismo, por tabela, escolhe politicamente não enfrentá-lo. Isso implica, dentre muitos desdobramentos e repercussões, influenciar como cada cidadão age, como cada um se posiciona, inclusive os jogadores que, pela enorme visibilidade que têm, poderiam estimular o combate ao preconceito, à xenofobia e à discriminação racial. A omissão também tem lado. A neutralidade também. 

Do mesmo modo, quem se omite ou se diz neutro ou diz “não gostar de politica”… estão do mesmo  lado! E esse lado definitivamente nunca vai ser o da esquerda. 

Minha torcida hoje, apesar de reconhecer o talento de Messi, não vai pra ele, nem para a Argentina. Eu tenho um lado, o único lado. E é o da justiça social.

4 July 2026

8 e o infinito

Não era pra escrever hoje. Já tinha prometido pra mim mesma que iria esquecer essa data fatídica. Mas eu não consigo esquecer o dia 4 de julho, porque foi o dia que perdi a esperança de te reencontrar em vida. 
8 anos passaram rápido. Pra muitos. Pra mim passaram devagar. A dor que sinto é lenta. Parece não ter a menor pressa de ir embora. 
A saudade, por sua vez, cresce ligeira, como se soubesse que eu tento seguir em frente como a maioria das pessoas faz. Mas nunca fui assim. 
Eu te deixei ir? Você sabe, amiga, que nunca tive intenção de te prender. “O amor só dura em liberdade” como musicou Raul Seixas. E acredito nesse verso e na potência que é deixar ir o amor e perceber ele voltar com mais força ainda.
Eu não estudei o espiritismo. Ainda não, mas pretendo. As cartas que te escrevo são um alento pra esse coração que só se acalma quando sente que você está me lendo. Aliás, você era a amiga que lia meus pensamentos. Como não haveria de me ler na concretude das palavras?
São 8 anos tentando esse diálogo. Mas a sua voz não chega até a mim. Eu não consegui guardar seus áudios. Tive medo de enlouquecer. Não consegui preservar nossas conversas pelo WhatsApp. Vez ou outra vejo alguma memória com imagens e conversas aleatórias no Facebook, que você tanto gostava de alimentar. E às vezes também odiava. Ana sendo Ana. 
Se 8 simboliza o infinito, estou aqui tentando decifrar se você já é infinito. Ou se o meu amor por você já virou infinitude. Ou as duas coisas.
A planta que você me deu continua viva e alimentada. Está na entrada da minha casa. E sempre olho pra ela antes de entrar ou antes de sair. Você é infinitamente inesquecível, amiga e irmã. Não me esquece. Me mande um “oi Juju” nos sonhos. 


1 July 2026

São José que me perdoe

Eu faço parte de um grupo infinito de pessoas, mundo afora, que amam fazer e pagar promessas.

Não sei ao certo quando comecei a acreditar em santos e orixás, para além da religião católica dos meus pais. Fiz parte de um grupo de catequese, na igreja do bairro onde eu morava, em Vitória da Conquista, no início dos anos 80 e o meu pai ainda estava vivo e as missas dominicais eram sagradas.

A minha avó materna também morava conosco. Mas Dona Maria Costa da Pesada tinha outras crenças. Ela sempre nos rezava com folhas de arruda ou outras folhas colhidas do pé do nosso jardim. Eu ficava impressionada com as rezas que nos fazia e somente agora compreendo que a ancestralidade indígena dela estava ali, muito mais perto de nós do que dos livros didáticos e literários, onde essas histórias não encontram lugar, ainda hoje. 

Me lembro dessas cenas, da minha família reunida na igrejinha que fui catequizada, e de minha avó com "ramos" nas mãos, nos benzendo. Recordo de como isso era poderoso. A gente fazia fila. Todo mundo ficava aguardando ela chamar pra passar as folhas pelo nosso rosto e ombros. Enquanto escrevo, vejo ela bem viva, concentrada e rezando baixinho. Era um ritual simples, mas cheio de significado e silêncios. 

Relembrando isso que vivi na infância, compreendo que conviver com crenças distintas ajudou a construir a minha fé, ou melhor dizendo, a construir muitas formas de fé que fui ressignificando, à medida que entrava na adolescência. Daí em diante, as influências convergiram também para a astrologia. 

Foi morando em Salvador que me aproximei, com muita paixão, dos santos e dos orixás. A fé absoluta em Senhor do Bonfim, em Iemanjá, em São José, em São Jorge, e nos juninos_ Santo Antônio, São João, São Pedro_. Fé redobrada em Santa Bárbara e em Iansã. Aqui estou citando os mais frequentes que me vêm  à mente, mas é preciso destacar que sempre caberá mais santidades e suas celebrações. Sou uma aquariana cheia de fé e o misticismo me cai bem. 

E com a fé nos santos e orixás, também enveredei para o mundo de pagadores de promessas. Não me lembro mais qual foi a primeira e muito menos o motivo. A maior delas foi feita em 2019. Dessa eu me lembro bem, com o meu forte desejo de retornar a viver na Bahia. 

Desde 2020, foram longos e esperançosos anos de promessas, renovadas a cada 4 de dezembro. Com a graça alcançada em janeiro de 2025, com minha transferência definitiva da UFAL para Unilab, decidi seguir na mesma sintonia, agradecendo muito mais que pedindo para Santa Bárbara, Iansã e Iemanjá.

Essa vitória parece simples, como escrevo, mas foram dias, meses e muita ansiedade que me acompanharam e foram responsáveis por muitas mudanças pessoais, para além dos vínculos laborais. A certeza do que eu queria mantinha a minha fé acesa, mas passei por muitos desgastes e aprendizados.

Acessei em lágrimas, a (nova) portaria de nomeação no Diário Oficial da União. Não fosse a minha fé, eu não teria como acreditar em milagre. Aconteceu comigo. Desde então, acredito que milagres também acontecem com quem sustenta a esperança, mesmo quando tudo parece improvável. Eu sou uma testemunha viva do quanto Deus atuou para me fazer feliz. E Ele fez isso através dos seus santos. 

Todo esse novelo para contar que estou cumprindo uma nova promessa. E desta vez escolhi o dia de São José. Desde 19 de março de 2026 não estou consumindo coco e nenhum dos seus derivados. São muitas provações diárias porque parece que tudo que quero comer tem coco presente. Ficarei um ano inteirinho sem degustar cocadas, bolos, biscoitos, água de coco, moquecas... não tem sido fácil, mas a promessa é reavivada toda vez que me deparo com uma oportunidade para saborear algo que contenha essa fruta que amo tanto.

São José tem sido mais que um santo protetor. Tem me vigiado e me estimulado a ter sempre mais fé. Mas hoje tive que pedir perdão. Inacreditavelmente, o xarope que comprei, o melhor para o tipo de tosse que estou, tem sabor de coco. Assim que tomei a primeira dose, senti levemente o gostinho do fruto proibido.

Tenho certeza de que São José entende essas pequenas ironias da vida. Ainda estou refletindo sobre o significado disso, mas tenho fé que São José quer me ver saudável e sem tosse, aposto. Tenho fé que São José vai me perdoar por essa situação tão inusitada de quase quebra da promessa. 

Esse foi o ponto alto e até engraçado, do primeiro dia de julho. Querido Santo, eu não tive intenção, me livre dessa culpa! 

27 June 2026

o presente e a presença

As datas de aniversário são pra mim sagradas. As minhas e de todas as pessoas que eu amo. O dia que a gente nasce é importante porque de fato marca o início de uma vida em sociedade, de uma vida que começa a existir em diferentes espaços e dimensões, em todas as instituições que faremos parte, para além da família. 

Sempre digo que a escola é esse lugar de pertencimento, que iniciamos o movimento para descobrir variados sentidos de nossa existência. Depois, ou em paralelo, as casas dos amigos, as igrejas, os clubes, os shoppings, a universidade, para quem consegue chegar até ela, e por fim, as trocas e tantos meios de aprender nos locais de trabalho. 

Outro dia conversando com uma amiga muito querida, com quem tive e tenho a oportunidade de aprender, falávamos sobre o papel da educação no combate a todas as formas de opressão, incluindo a maior delas, do meu ponto de vista, que é o racismo que opera, em todas as vezes, de forma sempre perversa e desumana. 

Não era para falar sobre racismo. Vou recomeçar. Tentarei, mas não sei se terei êxito, porque a minha mente não tem caixinhas, onde separo os assuntos. Se pararmos pra pensar, mesmo, tá tudo junto e misturado. E sei que prometi separar, mas preciso destacar sobre o racismo, apenas nesse último parágrafo que vai ficar longo, já adianto. É que o racismo é um fenômeno social que guia todas as nossas formas de nos relacionarmos enquanto sujeitos. Não é possível mais ignorarmos isso e nem o fato de que, independente se formal ou informal, educar para diversidade e para o antirracismo, são sim as nossas grandes responsabilidades enquanto humanos. Caberia aí um artigo, que eu poderia desmembrar como penso, quais são os meus argumentos para defender essas ideias. Mas prometi e vou voltar pro início. 

Os aniversários são datas sagradas, únicas, especiais. Até para aqueles que dizem que não gostam do dia em que nasceram. Talvez  essa impressão possa derivar de algum trauma, alguma situação hostil, algo que lembra um desconforto, uma memória infeliz. Só lamento e sempre vou querer encher a pessoa que não gosta do seu dia, de mensagens lindas, de textões, de palavras amorosas, de torcida pela paz, pelo sucesso, pela alegria.

Estar vivo deveria ser a condição para exercitarmos nosso bem viver, mas é claro que nem sempre dá pra gente sorrir. Muitas vezes o choro vem antes do nosso desejo anterior. E tá tudo bem. Mas eu queria só falar de como é bom ganhar presente de aniversário. Não o presente físico em si. O presente simbólico de ser lembrado, de receber uma ligação inesperada, mensagens cheias de afeto, votos, mimos, carinhos virtuais e abraços. Ah... como é bom receber abraço. Se vier acompanhado de beijo, aí o presente já vira um combo.

E tem aqueles presentes materiais que a gente ama, né? Ana não gostava de dar presente aleatório. É sobre isso, é sobre ela que quero falar. Eu ganhei dela um guarda-chuva. Primeiro ela achou um absurdo o presente de aniversário ser um guarda-chuva. Depois entendeu que eu daria muito valor e talvez ela já soubesse que eu levaria esse guarda-chuva comigo, em qualquer viagem, para qualquer chuva, fininha ou com pingos grossos. E ela caprichou. Escolheu um guarda-chuva lindo, reforçado, com duas camadas. Uma preta por fora e a outra com estampa animal print (tão Anamelea). Eu simplesmente amei esse meu presente. Morro de medo de perder e sempre confiro se está bem guardado no banco de trás do carro. É quase um amuleto. É a presença dela, mesmo não existindo mais fisicamente. 

Hoje eu senti necessidade de usar o guarda-chuva, que abrigou a mim e a minha mãe. Um guarda-chuva para dois. Da matéria virou símbolo. Símbolo de amor, de afeto, de irmandade, de lealdade. De valorizar quem amamos. Em vida, a minha amiga Ana me amou de verdade. Sou eternamente grata por ter sido amada, com tanta generosidade. E por ter ganhado dela um guarda-chuva que me acolhe até da saudade.


7 June 2026

e isso é só o começo

Eu respeito muito o processo do luto. Seja o luto que vivo em mim ou o luto em alguém que eu amo ou que me importo muito, que é praticamente a mesma coisa, já que só me importo muito com quem amo. Não que eu não me importe com as outras pessoas que não amo. 

Ser empática não indica, por exemplo, que eu ame aleatoriamente. Só significa que consigo me colocar no lugar do outro e que consigo perceber sua perspectiva, seu sofrimento ou sua dor.

A empatia é um sentimento que nos impulsiona a sermos mais humanos. Cultivar a nossa empatia é sempre mais interessante do que alimentarmos a nossa indiferença porque ser indiferente ao que alguém passa ou sente, vai retirando de nós a nossa humanidade, a nossa possibilidade de transformar indignação em uma forma de luta.

Luto e luta. O movimento desses dois artigos que muda o sentido de cada uma dessas palavras é também uma forma análoga de revertemos tristeza em força. De um estado depressivo em alerta. Quem morre deveria sempre nos impulsionar a lutar pela vida de quem fica. A nossa vida e a vida dos nossos. 

Mas nem sempre o luto se transforma em luta. Muitos declinam. Tem até aquela estranha e mórbida conclusão de que quem morre nos mata um pouquinho a cada dia, porque uma porção nossa vai embora junto. Mas e se pensarmos na porção que fica? Não seria melhor reunirmos nossas forças que restam para vencermos a dor e lutarmos por mais vida, mais prazer, mais alegria?

Parece egoísmo? Parece frieza? Parece descaso com quem partiu ou parece respeito e muito amor, a ponto de optar viver com mais vontade ou até com mais urgência?

Mas é preciso que eu diga que eu não tenho essas respostas. Esse exercício que faço na escrita, é mais um de muitos outros que ainda virão, pensando nos lutos que já enfrentei e enfrento para recalcular a minha rota para guiar as muitas lutas que já enfrento ou aquelas que terei que enfrentar no futuro.

Estar vivo é (de fato) uma celebração diária, por segundo. Não deveríamos lidar com a (nossa) vida como se estivéssemos preparando o caminho para a nossa morte. Há quem compre lápides ou preparem o funeral bem antes da véspera. É um jeito prático de agir, mas não considero nada prazeroso acelerarmos essa conversa sobre nosso fim que sem dúvida é a única certeza da vida que temos. 

Mas no intervalo, enquanto vivemos, precisamos enfrentar nossos medos, nossas próprias sombras e repensar as nossas escolhas enquanto ainda estamos por aqui. Seja para honrar os que já partiram antes de nós, seja para lutarmos em tempo pela nossas próprias missões, nossos projetos e sonhos inacabados. 

Todo dia é um dia de luta  para quem decide aproveitar a vida e o tempo que vai desaparecendo e sem compromisso de “zerar” para recomeçarmos de onde estacionamos. 

Cada parada que fazemos, por decidirmos “dar um tempo”, “deixar a vida nos levar”, é uma escolha infeliz. Escolher não se responsabilizar pelo tempo perdido pode ser um caminho perfeito para a procrastinação.

E como lutar sem forças? Como lutar pela vida estando em luto, com muita saudade de quem partiu? Como lutar para encontrar novos sentidos, novos motivos pra sorrir? Como se refazer de dores e festejar a vida? Como guardar na memória apenas o que foi bom? Qual é a virada de chave para perceber que a vida ainda presta, mesmo sem a presença de alguém que nos importamos muito? 

"Meu amor, o que você faria, se só lhe restasse esse dia?" Paulinho Moska, acertou (em cheio) na mosca. Vamos pensar sobre o que faríamos? Com quem passaríamos o último dia? Onde? Aproveitando como!?

E, por fim, quando o fim chegou numa relação... como se luta para viver bem (e melhor) sem alguém que, embora esteja vivo, prefere seguir sem a nossa presença? 

Os enterros simbólicos são sempre bem-vindos. Estou na posição de dar conselhos sobre o assunto.  Acenda uma vela. Faça orações. Converse com Deus! Mentalize com seus santos ou orixás. Peça por mais esse livramento. Ou faça terapia. Valorizemos a nossa existência! Cuidemos-nos mais! Ainda dá tempo!

E escrever também salva alguns dias mais sombrios. Também faço áudios pra mim mesma. Ao menos pra mim tem me ajudado a enfrentar todos os meus lutos e reinventar as minhas novas lutas.