Quando penso na palavra "vira" me vem com toda força a imagem de Ney Matogrosso em cima de um palco, com seu corpo musculoso, cheio de marcas do tempo e das fases distintas da sua longa trajetória como artista, como cantor, como ser humano. Ney resumiu em "vira, vira, vira, vira, vira, vira homem, vira, vira, vira vira lobisomem".
Confesso, no entanto, que esses versos e seus sentidos, me pareciam apenas um jogo, um trocadilho de palavras, que impulsionava um refrão, a sua melodia. Hoje, ao escrever sobre isso, já consigo ver além do óbvio. Precisei chegar aos 56 anos. Precisei me afastar de quem eu era nos anos 80, do que acreditava, do que sonhava com o futuro.
Vejo o meu presente no meu passado? Claro que vejo. O que sou hoje foi sendo moldado com as minhas experiências sociais, familiares, laborais e sim, musicais. Ney Matogrosso sempre foi tido como exótico, diferente, o que foge da norma convencional para um homem. E claro, sempre foi valorizado e exaltado justamente por todas as pessoas que não o criticam, mas que o aceitam, o acolhem e agradecem por ser do jeito que é, aliás, por ser tantos, sendo um só corpo e uma só voz.
Então, virar homem ou virar lobisomem, são escolhas políticas que homens fazem ou não fazem. Assim como virar mulher ou virar uma loba, ou uma dona de casa, ou profissional bem-sucedida, ou super mãe, ou tudo isso junto, também são escolhas, mas só são escolhas porque vivemos numa sociedade democrática, que permite sermos do jeito que somos e se mudarmos de ideia, mudamos de novo.
Ocorre que tornar-se assim ou assado são evoluções que combinam com os avanços das ciências, com as descobertas científicas e com a superação das desigualdades de gênero, especificamente. Nascemos desiguais ou nos tornamos? Quem inventou essa história de que para sermos homem e mulher, precisamos combinar com carros e bonecas, com azul e rosa, com engenharia e bordado? De onde vem essa ideia tão naturalizada que exercemos papéis distintos e ponto? Quantos Neys e Anittas e Marielles, Paolas, Erikas Hiltons, Conceições Evaristos, Anas Elisas e Linikers e Marias Betânias, Fernandas (Torres e Montenegros) e Glórias Marias nos bastarão para pensarmos que mulheres podem tudo e não precisam pedir aprovação para existirem, para serem, para viverem do jeito que querem?
O "virar" é marcadamente feito por opostos. Ou você está de um lado, ou está de outro. Não há meio-termo, não há equilíbrio se escolhe ficar em cima do muro, para decidir para onde vai se jogar, para onde vai virar.
E escolher um lado não é doloroso. É somente necessário. Hoje estamos nessa onda avassaladora de escolhermos entre preservar a nossa democracia, inclusive para continuarmos exercendo o direito à fala, à escrita, ao voto, às oportunidades de trabalho, a decidirmos se queremos ou não gestar um filho ou se nos calaremos e aceitaremos a ditadura já discursada e praticada pelos extremistas da direita ultra conservadora.
Escolher entre resistir ou aceitar passivamente é uma escolha que nós ainda podemos fazer em 25 de outubro de 2026. É repetitivo de dizer, mas é preciso: o voto é mesmo secreto. A escolha é entre você, a urna e dois dígitos. Seu marido não precisa saber. Seu patrão também não. E sua igreja, ah... a igreja há de respeitar o que cada um(a) escolhe de melhor para si, para sua família e para a vida em sociedade.
Vamos VIRAR. Para não deixarmos o machismo imperar. Para evitarmos mais feminicídios, abusadores e estupradores. Para não deixarmos que o nosos país deixe de ser laico e passe a criminalizar escolhas religiosas diferentes da religião do presidente. Para não deixarmos os milicianos transformarem o nosso país em milícia. E que continuemos mulheres livres, lobas, feiticeiras ou do lar.
Sobre os muitos significados do verbo VIRAR:
verbo transitivo
"virar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/pt-br/virar.

