30 April 2026

a lua cheia de abril

O tempo segue desgovernado. As marés se revezam. O tempo do nada fica nublado, bate uma chuva, depois vai embora e de novo os céus ficam estranhos, sombrios, cono se anunciassem tragédias. 

O outono no sul global não tem só folhas pelo chão. Marca um período de muitas mudanças não só no clima, mas na energia que paira no ar.

Pode ser o drama de sempre, dessa aquariana que nasceu dentro de um aquário cercado de piscianos e seres mais elevados, sensíveis e de olhos cintilantes que os próprios nascidos em aquário. Anamelea era a aquariana de peixes. Eu sou a pisciana de aquário, se isso for mesmo possível. 

Nós sempre conversávamos sobre signos, astros, sobre o sol, a lua. Ela dizia gostar de sereno. Achava isso tão poético. Eu sempre digo que gosto mais do dia, de eventos diurnos. Mas a noite também me encanta. Eu curto ver a lua mudar de forma. Já inventei encontros ao luar, com vinho, duas taças, essas paradas românticas que fazemos quanto estamos apaixonados.

O abril que se abre se fecha hoje. Não quer mais ser abertura para nada. Está cedendo lugar para maio, que também não significa que não vai se abrir só porque não é abril.

Eu vou continuar desejando a novidade. E por falar em lua, hoje ela está cheia e alta vive no céu que dá pra ver da minha varanda, enquanto escrevo. Mas vi na previsão que na madrugada do primeiro dia de maio, daqui a 6 horas, vai chover forte.

A chuva me encanta ainda mais que a lua. Qualquer chuva me deixa emotiva. Eu sempre lembro da chuva no telhado na fazenda que um dia foi da nossa família, do núcleo santana. Eu lembro da laranjeira, do capim molhado, do gado ruminando no pasto. Lembro de uma fogueira ao anoitecer, que meu pai acendia, pra evitar que entrassem aranhas dentro de casa. Lembro daquele fogo trepidando, aquecendo e iluminando meus manos, minha avó e a minha mãe e de como aquela casa parecia viva, exatamente como nós.

Em junho passado estive lá. Chorei com o reencontro. Mas não era com o passado, mas com minhas lembranças do que fomos. De como fomos felizes, na chuva, na seca, em qualquer estação. 

Lembro que meu pai era muito brabo. Não era carrancudo. Sorria com os olhos. Tocava violão. Gostava de nós à sua volta. 

Anamelea não tinha essas lembranças do pai dela. A gente conversava muito e nossas famílias, embora diferentes, significavam muito para nós duas. Eu e ela fomos família uma para outra. Hoje vendo essa lua gigante, me lembrei dela. Eu sempre me lembro dela. E sinto muita pena dos novos serenos não contarem com a serena Ana. 

A lua está muito bonita. Mas vai chover. Falta pouco pra maio chegar e trazer a sua porção de mês pra nós. E cada vez que escrevo com saudade, também escrevo com esperança. Talvez de viver novas luas e novas chuvas, em boa cia. Ainda que seja a minha escrita.

Ana aprendeu a viver no alto. Como meu pai, minha avó, meus tios e todas as pessoas boas que eu pude conhecer e festejar o dia ou a noite. 

O pai de Nate faz 30 dias sem aparecer pra nós. Mas olha só, sinto que ele foi levado para bem longe. Juntou-se aos bons. Ele está lá no alto. Quando chover na primeira madrugada de maio, será o seu prato de saudade que veremos. E deve ser por isso que amo tanto quando chove. A chuva quando cai de vez em quando também inunda os meus olhos. 

25 April 2026

carnavalizando os sonhos

Os sonhos nunca nascem só enquanto dormimos. Eles nascem antes. Os pesadelos também. Tudo se mistura e cria-se um clima surreal, seja com doses lindas ou muito esquisitas. Eu sou muito fã desse talento que nossa mente tem: a de projetar outros mundos, outros tempos, personagens e cenários impossíveis de serem reais à luz do dia. Bem verdade que a gente sonha de olhos abertos, seja de dia ou de noite, mas na madrugada, quando as luzes se apagam e os olhos se fecham de verdade, aí sim, os sonhos podem acontecer, num piscar. Ou não. Muitas vezes a gente não lembra e parece que naquela noite, nossos pensamentos se afastaram de nós. Resolveram dar um tempo. Isso também é mágico, não é? Quanta plasticidade! Quantas versões de nós ainda nem foram construídas ou sonhadas?

Ontem eu sonhei que era carnaval. Ou que eu reclamava do carnaval. Eu vi um story de uma prima numa caminhada (ops, corrida) com Bell Marques, cantor das antigas, um dos melhores, da cena carnavalesca da Bahia. Mas ele estava no Rio, num evento de milhões que ele certamente angariou muito dinheiro dos cariocas carnavalescos, como meus priminhos que (juro), começaram a história deles, pra valer, ao som do trio elétrico. Isso é outra mágica, que um dia volto a escrever sobre ela. Voltemos ao meu sonho.

Eu reclamava como a cidade de Salvador muda com o carnaval. Vira um canteiro de obras. Muitas lâminas de madeira empilhadas, muitas colunas de ferro para sustentar os camarotes, muita gente que vai montar toda a parafernália e que sequer vai ter acesso a essa festa que foi transformada com o passar do tempo. Virou fonte de renda. Tornou negócio e propaganda de grandes marcas. Migrou o sul e o sudeste pra cá e oprimiu nossa gente, a ponto de só sobrar um pouco das laterais das ruas, para dar lugar e vez aos que vêm de fora e aproveitam os dias de carnaval consumindo nossa cultura, enchendo as ruas de latas de cerveja e de xixi pelos 4 cantos. A mistura desses dois odores não é nada agradável. Reclamei disso também no sonho. 

Na verdade eu sempre repito que prefiro ver o copo meio cheio, mas reclamo tanto de tudo, que reforço o seu lado vazio. Não seria diferente se eu não fosse a contradição em pessoa. Sou aquário com ascendente em aquário. Isso (até) me serve pra justificar, mas não resolve o meu dilema existencial. Eu realmente preciso parar de reclamar. Até nos meus sonhos eu sou a reclamona de plantão. Faz como para o cérebro ser ainda mais incrível e mudar esse padrão que tenho, ao menos enquanto durmo? Está vendo só? Eu agora consigo enaltecer e reclamar das nossas funções cerebrais. Sou uma grande interrogação ambulante. 

Deve ser por isso que amo carnaval mas odeio o furdunço e tudo fora da normalidade do antes, durante e depois. Também não assisto nenhum filme que tem batida de carros e casas, prédios e ruas destruídas sem reclamar da bagunça que os efeitos especiais criam. A verdade é que gosto de rotina, de tudo no lugar e tudo dentro do que é esperado. Eu amo purpurina nos olhos, admiro muito cada maquiagem diferentona que vejo por aí, mas fico louca quando aquela coisinha brilhante insiste em morar no meu tapete. Simplesmente não saem após a folia. E é bem perigoso pensar sobre o que se mantém na gente, depois de um grande caos. Ou de um sonho revelador.

Era pra falar de sonho e eu meti carnaval, eu sei. Mas assim como um sonho, não existe nada mais desconcertante e inexplicável como as muitas emoções que se misturam quando decidimos curtir uma festa tão complexa, barulhenta e contagiante como o carnaval. Eu me sinto assim quando sonho. Quero sugar toda a experiência louca, que eu não me lembro nem a metade quando abro os olhos, mas que gostaria de me deliciar de novo com aquele reencontro, com diálogos improváveis com pessoas que sequer acesso mais, com gente que até já partiu, mas estava ali, vivinha da silva, naquele intervalo maravilhoso chamado sono profundo.

Eu sonhei com carnaval, com bebê, uma amiga que não é mais amiga, com sua filha que também já não está mais entre nós. Conversamos, fizemos as pazes, contamos as novidades. Curtimos a cia. O bebê era meu. Depois não era mais. E assim, como uma dança tribal, mudou o trio, o cenário. Fiz o meu xixi em algum momento, como sonâmbula que sou. Voltei pro sonho e nem precisei pedir pra voltar. O sonho continuou e a grande magia que aconteceu precisava virar escrito. 

Eu concordo muito com Milton Nascimento e seu clube da esquina, talvez a canção mais linda que já ouvi, que me lembra tanto de Ana. Realmente os "sonhos não envelhecem". Também não morrem. Meu amor por quem já amei também não. Nem o meu amor pelo carnaval vai me abandonar, só porque agora a festa acontece sem controle, fora da Bahia e, fato, se tornou menos democrática e divertida como era antes dos famosos e celebridades descobrirem nosso axé, nosso molho, nossa baianidade. 

O bacana de sonhar é pensar que tudo muda por fora, mas a gente pode continuar sonhando com o que aprovamos por dentro. Isa, Gica e o bebê que sorria pra mim, no meu colo, que eu não entendi ainda quem é ou o quê significa obrigada pelo reencontro comigo, tão visceral, na madrugada do dia 26 de abril de 2026.



20 April 2026

ao escolher amar a gente perde?

Com tanto feriado em 2026, meu estoque de frases impactantes tem crescido muito. É que cada série, filme ou livro que leio, tem me ajudado a colecionar novas reflexões.

Na relação amorosa mais densa e dolorida que já vivi, eu já havia aprendido que “só o amor não basta”. É preciso que funcione. E funcionar é um troço que parece tecnicamente simples de acontecer quando duas pessoas se amam e também insistem em apostar na história. Mas não é simples, não é fácil, e posso concluir que no “meu” caso foi também impossível de rolar.

Nas relações de amizade ou até mesmo laborais, essa coisa de não funcionar direito também limita a sobrevivência. Você pode gostar do que faz mas o contexto geral não funciona. Você pode amar um amigo mas a vida em volta não funciona. E a gente muda de trabalho porque está incomodado e também pode se afastar daquela amizade, porque não teve jeito. Era o melhor a se fazer. Por um, pelo outro, ou por ambos.

Outro dia eu li que “talvez você também seja um livramento para alguém”. Já pensou que loucura isso? Você se livra do que entende que lhe faz mal e ao mesmo tempo o outro lado também entende que se livrou de você. Foi importante pensar sobre isso. Verdade que nenhuma história tem só um lado, ou uma versão. Podem ter outros lados, muitas versões. Depende de quem a viveu, como interpretou o que viveu e como agora se sente estando livre daquele surto a 2.

Mas daí a dizer que você, ao escolher amar, você também perde, me forçou a incluir uma interrogação, ao final. É que eu ainda duvido da certeza dessa afirmação. Não consigo (ainda) aceitar que só o amor não basta, ou que a gente perde quando ama. Eu apelo para a canção que Renato Russo lindamente nos ensina que “é só o amor, é só o amor, que conhece o que é verdade, o amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece”. 

Como um sentimento tão podereso, genuinamente honesto como o amor, poderia te fazer perder algo? Como isso é possível? A gente não deveria abrir mão do amor, nunca, mesmo quando parece não funcionar. Eu queria poder consertar o (descom)passo, alinhar expectativas e os ponteiros e seguir acreditando que quando a gente ama, a gente só ganha. Quando a gente ama, a gente cuida, a gente investe na fé por tempos melhores e de paz, nunca por fins ou tristezas. 

Minha porção romântica está por um fio, mas ainda teima, nem sei como. 

Que os feriados continuem prolongando esse desejo em mim. Que eu não desista de amar e insistir. Que eu encontre um jeito de fazer a roda girar, que tudo funcione bem e que o mundo seja um lugar de encontros e diálogos, de longas pontes, não de muros altos. 

13 April 2026

assumindo o que (também) sou

No último 06 de abril eu comprei, na Livraria da Travessa, dois livros de crônicas indicados por uma amiga leitora, muito viciada em bons escritos. Eu apenas obedeci. Comprei sem nem folhear. Ela disse que ambos se pareciam comigo, com meu estilo de escrita. Eu que apelidei minhas crônicas de "quase uma crônica", me sinto muito mais cronista que antes. Acho até que essa de agora terá outro marcador no blog. Vou adicionar "minhascrônicas". Pronto, resolvido.

Já no dia 08 de abril eu pude participar de um bate-papo com Martha Medeiros, no projeto Ideias - Clube de Leituras do Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio, e na conversa com ela, me fez ter mais certeza que sou de fato uma escritora e cronista. Não vou mais fazer de conta. Vou me assumir. Eu que já me declarei blogueira, com muito orgulho, também vou me declarar cronista. Mas quem pode me validar além de mim? E eu preciso de validação? Pra que? Pra quem? Quero ganhar dinheiro, fama, prêmios? Quero ser citada? Quero virar influencer? Claro que não! Esse blog existe e resiste desde que entendi que precisava de um espaço meu, sem regras, sem padrões, sem julgamentos. E é tão bom escrever com liberdade!

Ouvindo Martha Medeiros o assunto sobre hierarquia na literatura apareceu. Ela nos contou o que pensa sobre as críticas que recebe... imagine... Martha Medeiros, que tem trocentos livros, edições e reedições de muitos deles... quem sou eu pra me preocupar com isso? Não preciso. Não cabe em mim esse dilema existencial. Não cabe nela e não deveria caber em ninguém. A sociedade midiática faz o que bem entende, não há respeito, não há descanso.

Lembrando aqui que logo que ingressei na UFAL participei de um concurso para publicação de livro de literatura. Lá fui eu com minha ousadia... reuni alguns textos desse blog e submeti. Não posso dizer que não ganhei nada, se fui corajosa e peitei as regras do jogo, naquele edital da faculdade de letras, tão inusitado para uma professora recém-chegada na faculdade de educação. Foi divertido. Fiquei na expectativa, aguardando o resultado e depois, nem me lembro mais o que senti. Só sei que naquela época, em 2011 ou 2012, não recordo ao certo, eu já sabia que eu tinha muito interesse e vocação para a escrita.

Hoje revisitei muitos textos meus publicados aqui, nesses 16 anos de estrada. E me emocionei com algumas coisas que tão corajosamente eu me dispus a escrever. Martha Medeiros agora vai ficar contente. Tudo o que ela comentou sobre os seus muitos processos de escrita também me pegaram de um jeito que só agora me dou conta do quão afetada eu fiquei, só por ouvir ela trazer sensações que eu também sinto. Me senti cúmplice. Me senti identificada. Total empatia entre duas mulheres que escrevem a partir de si mesmas, se desnudam e não sentem vergonha de ficarem nuas, com os holofotes sobre seus pensamentos.

Eu também sempre uso o marcador "devaneios" para marcar sobre o que se trata. E confesso que eu amo quando percebo que o que eu queria dizer, já está materializado na (minha) escrita. É bom que saia de mim e deite em outro lugar. Me alivia a alma. 

Martha Medeiros, Maria Ribeiro e Artur da Távola, minha gratidão por ter lido vocês, com crônicas que me fizeram rir ou marejar os olhos, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Agora que sei quem eu sou, só posso dizer que vou dormir mais feliz pois, afinal, hoje eu me tornei uma cronista e isso me fez bem demais. Paula Simões, você realmente me conhece! O próximo café quem pagará sou eu.

Livros referenciados:

Feliz por nada/ Martha Medeiros

Caminhos Abertos/ Artur da Távola

Não sei se é bom, mas é teu/ Maria Ribeiro


2 April 2026

faxina geral

Desde o dia 31 de março comecei a escrever compulsivamente. Melhor escrever do que comer chocolate, em tempos de Páscoa! Eu tenho compulsão por limpeza, por palavras, por expulsar lixo tóxico da casa e da mente. 

Isso não é novidade. Quem aqui chega encontra rios que deságuam meus desabafos. Eu treino melhor quando a casa está limpa. Não trabalho no computador se tiver louça suja na pia. Não deixo de retirar meus fios de cabelo do banheiro que somente eu uso. Em tese não deveria ter nojo mas vamos combinar, é sujeira que sai de mim mas continua sendo sujeira. 

Com a casa eu vou no automático. Quando vejo já estou com a pá numa mão, a vassoura na outra. Isso não me desgasta, pelo contrário, me alivia. Sou neurótica, eu sei. Culpem minha mãe que me estimulou desde cedo a cuidar da casa. Culpem a pandemia também, que nos revelou a importância da higiene. Culpem os meus pensamentos tortos. Ok, podem me culpar por eu ser uma esponja, que absorvo tudo com facilidade e por isso necessito esvaziar  tantas vezes.

A casa limpa é uma solução. Mas é sempre provisória. Todo dia eu faço a varredura toda de novo. Não tenho paz antes das nove. E aí vem o fazer laboral, para além do técnico. Os pensamentos não são tão fáceis de serem organizados como o lixo na lixeira. Basta lacrar o saco, jogar na lixeira externa e parece que tudo está em ordem, dentro de casa. 

Ah quem me dera se bastasse uma ação tão simples pra limpar as tantas nuvenzinhas que vão se acumulando aqui e acolá, como se tivessem permissão minha para se instalarem dentro de mim. O problema é muito mais complexo quando vem de dentro da gente. 

Eu hoje fiz mais textões. Expulsei um monte de tranqueira que precisei expurgar. E agora respiro aliviada. Parece até que consigo sorrir pra mim mesma. Sinto que estou mais leve. E não há sentimento melhor do que paz dentro e fora. E assim é. Só porque resolvi escrever. 

1 April 2026

abril se abriu

Eis que o novo mês chegou! Eu amo essa lógica do ciclo do calendário, que marca (novos) recomeços, mês a mês.

E amo que exista um mês que nem abril, que se abre já no nome. Eu fico encantada com essa facilidade que abril tem de nos encantar.

E como abril se abre, quero me abrir também. Quero ser forte para superar março, os medos, os desafios de um ano que já está no quarto tempo. Tempo de 12. 

Quero ser que nem abril. Lidar com a novidade do que vem por aí, do que está no ar, nas folhas de outono ou de primavera, dependendo do local de referência nesse globo que é redondo. Quero ser redonda e circular, nunca estagnar. 

Quero ser prosperidade. Quero ser hoje e quero ser amanhã. O ontem se foi. O depois chegou. E depois a gente vê o que faz. 

Que abril se abra mesmo. Que cada abertura seja um novo momento de se ser mais quem se é. Sem travas. Está tudo bem. E o que viver, já vem bem.