O tempo segue desgovernado. As marés se revezam. O tempo do nada fica nublado, bate uma chuva, depois vai embora e de novo os céus ficam estranhos, sombrios, cono se anunciassem tragédias.
O outono no sul global não tem só folhas pelo chão. Marca um período de muitas mudanças não só no clima, mas na energia que paira no ar.
Pode ser o drama de sempre, dessa aquariana que nasceu dentro de um aquário cercado de piscianos e seres mais elevados, sensíveis e de olhos mais cintilantes que os próprios nascidos em aquário. Anamelea era a aquariana de peixes. Eu sou a pisciana de aquário, se isso for mesmo possível.
Nós sempre conversávamos sobre signos, astros, sobre o sol, a lua. Ela dizia gostar de sereno. Achava isso tão poético. Eu sempre digo que gosto mais do dia, de eventos diurnos. Mas a noite também me encanta. Eu curto ver a lua mudar de forma. Já inventei encontros ao luar, com vinho, duas taças, essas paradas românticas que fazemos quando estamos apaixonados.
O abril que se abre se fecha hoje. Não quer mais ser abertura para nada. Está cedendo lugar para maio, que também não significa que não vai se abrir só porque não é abril.
Eu vou continuar desejando a novidade. E por falar em lua, hoje ela está cheia e alta vive no céu, o que dá pra ver aqui da minha varanda, enquanto escrevo. Mas eu chequei na previsão que na madrugada do primeiro dia de maio, daqui a 6 horas, vai chover forte.
A chuva me encanta ainda mais que a lua. Qualquer chuva me deixa emotiva. Eu sempre lembro da chuva no telhado da fazenda que um dia foi da nossa família, do núcleo Santana. Eu lembro da Laranjeira amada, do capim molhado, do gado ruminando no pasto. Lembro de uma fogueira ao anoitecer, que meu pai acendia, pra evitar que entrassem aranhas dentro de casa. Lembro daquele fogo trepidando, aquecendo e iluminando meus manos, minha avó e a minha mãe e de como aquela casa parecia viva, exatamente como nós.
Em junho passado estive lá. Chorei com o reencontro. Mas não era com o presente, mas com minhas lembranças do que fomos. De como fomos felizes, na chuva, na seca, em qualquer estação.
Lembro que meu pai era muito brabo, mas não era carrancudo. Ele sorria com os olhos. Tocava violão. Gostava de nós à sua volta.
Anamelea não tinha essas lembranças do pai dela. A gente conversava sobre as nossas famílias, e embora diferentes, significavam muito para nós duas. Eu e ela fomos família uma para outra. Hoje vendo essa lua gigante, me lembrei dela. Eu sempre me lembro dela. E sinto muita pena dos novos serenos não contarem com a serena Ana curtindo a escuridão.
A lua está muito bonita. Mas vai chover. Falta pouco pra maio chegar e trazer a sua porção de mês pra nós. E cada vez que escrevo com saudade, também escrevo com esperança. Talvez de viver novas luas e novas chuvas, em boa companhia, ainda que seja com a minha escrita.
Ana aprendeu a viver no alto. Como meu pai, minha avó, meus tios e todas as pessoas boas que eu pude conhecer e festejar o dia ou a noite. Agora vivem reunidos, lá no alto.
O pai de Nate faz 30 dias sem aparecer pra nós. Mas olha só, sinto que ele foi levado para bem longe. Juntou-se aos bons. Ele está por lá também. Quando chover na primeira madrugada de maio, será o seu prato de saudade que veremos. E deve ser por isso que amo tanto quando chove. A chuva quando cai de vez em quando também inunda os meus olhos.
