19 July 2026

futebol e política: uma coisa só

Na minha família tem torcida organizada e fã clube desse “quase” ex-jogador, que é multimilionário. O “menino” Ney deveria ser multicampeão, mas angariou muito mais dinheiro que premiações. 

Assim como na política, no futebol e na religião, não devemos provocar briga, ainda mais dentro de casa. Eu sou a prova viva do quanto já sofri com a minha própria forma de pensar e expor o que penso. Mas independente de ser esquerda, e amar ser do lado esquerdo, eu realmente acho que quando misturamos futebol e política dá sempre ruim, mas sempre será necessário. 

Messi, por sua vez, é unanimidade quando o assunto é competência no que faz! Ele de fato é um multicampeão! Se está muito mais rico com o futebol, eu não sei, mas o que ele faz no campo, no que deve fazer em campo, cumpre bem o seu papel e não deixa nem o time e nem a sua torcida imensa frustrados! Mas a política não está e nunca estará, à margem. 

Como bem disse um pesquisador e colega, cabo-verdiano, a “Argentina, EUA e Israel foram os únicos que não reconheceram a escravidão como a mais desastrosa tragédia humana”, e portanto, nunca enfrentaram duramente o racismo. 

Ou seja, se um Estado não reconhece o racismo, de fato e de direito, escolhe politicamente não agir sobre. Isso implica, dentre muitos desdobramentos e repercussões, como cada cidadão age, como cada um se posiciona, incluindo a categoria dos jogadores! A omissão também tem lado. A neutralidade também. E nunca vai ser o da esquerda. 

Minha torcida hoje, apesar de reconhecer o talento de Messi, não vai pra ele, nem para Argentina. Eu tenho um lado, o único lado. E é o da justiça social.

4 July 2026

8 e o infinito

Não era pra escrever hoje. Já tinha prometido pra mim mesma que iria esquecer essa data fatídica. Mas eu não consigo esquecer o dia 4 de julho, porque foi o dia que perdi a esperança de te reencontrar em vida. 
8 anos passaram rápido. Pra muitos. Pra mim passaram devagar. A dor que sinto é lenta. Parece não ter a menor pressa de ir embora. 
A saudade, por sua vez, cresce ligeira, como se soubesse que eu tento seguir em frente como a maioria das pessoas faz. Mas nunca fui assim. 
Eu te deixei ir? Você sabe, amiga, que nunca tive intenção de te prender. “O amor só dura em liberdade” como musicou Raul Seixas. E acredito nesse verso e na potência que é deixar ir o amor e perceber ele voltar com mais força ainda.
Eu não estudei o espiritismo. Ainda não, mas pretendo. As cartas que te escrevo são um alento pra esse coração que só se acalma quando sente que você está me lendo. Aliás, você era a amiga que lia meus pensamentos. Como não haveria de me ler na concretude das palavras?
São 8 anos tentando esse diálogo. Mas a sua voz não chega até a mim. Eu não consegui guardar seus áudios. Tive medo de enlouquecer. Não consegui preservar nossas conversas pelo WhatsApp. Vez ou outra vejo alguma memória com imagens e conversas aleatórias no Facebook, que você tanto gostava de alimentar. E às vezes também odiava. Ana sendo Ana. 
Se 8 simboliza o infinito, estou aqui tentando decifrar se você já é infinito. Ou se o meu amor por você já virou infinitude. Ou as duas coisas.
A planta que você me deu continua viva e alimentada. Está na entrada da minha casa. E sempre olho pra ela antes de entrar ou antes de sair. Você é infinitamente inesquecível, amiga e irmã. Não me esquece. Me mande um “oi Juju” nos sonhos. 


1 July 2026

São José que me perdoe

Eu faço parte de um grupo infinito de pessoas, mundo afora, que amam fazer e pagar promessas.

Não sei ao certo quando comecei a acreditar em santos e orixás, para além da religião católica dos meus pais. Fiz parte de um grupo de catequese, na igreja do bairro onde eu morava, em Vitória da Conquista, no início dos anos 80 e o meu pai ainda estava vivo e as missas dominicais eram sagradas.

A minha avó materna também morava conosco. Mas Dona Maria Costa da Pesada tinha outras crenças. Ela sempre nos rezava com folhas de arruda ou outras folhas colhidas do pé do nosso jardim. Eu ficava impressionada com as rezas que nos fazia e somente agora compreendo que a ancestralidade indígena dela estava ali, muito mais perto de nós do que dos livros didáticos e literários, onde essas histórias não encontram lugar, ainda hoje. 

Me lembro dessas cenas, da minha família reunida na igrejinha que fui catequizada, e de minha avó com "ramos" nas mãos, nos benzendo. Recordo de como isso era poderoso. A gente fazia fila. Todo mundo ficava aguardando ela chamar pra passar as folhas pelo nosso rosto e ombros. Enquanto escrevo, vejo ela bem viva, concentrada e rezando baixinho. Era um ritual simples, mas cheio de significado e silêncios. 

Relembrando isso que vivi na infância, compreendo que conviver com crenças distintas ajudou a construir a minha fé, ou melhor dizendo, a construir muitas formas de fé que fui ressignificando, à medida que entrava na adolescência. Daí em diante, as influências convergiram também para a astrologia. 

Foi morando em Salvador que me aproximei, com muita paixão, dos santos e dos orixás. A fé absoluta em Senhor do Bonfim, em Iemanjá, em São José, em São Jorge, e nos juninos_ Santo Antônio, São João, São Pedro_. Fé redobrada em Santa Bárbara e em Iansã. Aqui estou citando os mais frequentes que me vêm  à mente, mas é preciso destacar que sempre caberá mais santidades e suas celebrações. Sou uma aquariana cheia de fé e o misticismo me cai bem. 

E com a fé nos santos e orixás, também enveredei para o mundo de pagadores de promessas. Não me lembro mais qual foi a primeira e muito menos o motivo. A maior delas foi feita em 2019. Dessa eu me lembro bem, com o meu forte desejo de retornar a viver na Bahia. 

Desde 2020, foram longos e esperançosos anos de promessas, renovadas a cada 4 de dezembro. Com a graça alcançada em janeiro de 2025, com minha transferência definitiva da UFAL para Unilab, decidi seguir na mesma sintonia, agradecendo muito mais que pedindo para Santa Bárbara, Iansã e Iemanjá.

Essa vitória parece simples, como escrevo, mas foram dias, meses e muita ansiedade que me acompanharam e foram responsáveis por muitas mudanças pessoais, para além dos vínculos laborais. A certeza do que eu queria mantinha a minha fé acesa, mas passei por muitos desgastes e aprendizados.

Acessei em lágrimas, a (nova) portaria de nomeação no Diário Oficial da União. Não fosse a minha fé, eu não teria como acreditar em milagre. Aconteceu comigo. Desde então, acredito que milagres também acontecem com quem sustenta a esperança, mesmo quando tudo parece improvável. Eu sou uma testemunha viva do quanto Deus atuou para me fazer feliz. E Ele fez isso através dos seus santos. 

Todo esse novelo para contar que estou cumprindo uma nova promessa. E desta vez escolhi o dia de São José. Desde 19 de março de 2026 não estou consumindo coco e nenhum dos seus derivados. São muitas provações diárias porque parece que tudo que quero comer tem coco presente. Ficarei um ano inteirinho sem degustar cocadas, bolos, biscoitos, água de coco, moquecas... não tem sido fácil, mas a promessa é reavivada toda vez que me deparo com uma oportunidade para saborear algo que contenha essa fruta que amo tanto.

São José tem sido mais que um santo protetor. Tem me vigiado e me estimulado a ter sempre mais fé. Mas hoje tive que pedir perdão. Inacreditavelmente, o xarope que comprei, o melhor para o tipo de tosse que estou, tem sabor de coco. Assim que tomei a primeira dose, senti levemente o gostinho do fruto proibido.

Tenho certeza de que São José entende essas pequenas ironias da vida. Ainda estou refletindo sobre o significado disso, mas tenho fé que São José quer me ver saudável e sem tosse, aposto. Tenho fé que São José vai me perdoar por essa situação tão inusitada de quase quebra da promessa. 

Esse foi o ponto alto e até engraçado, do primeiro dia de julho. Querido Santo, eu não tive intenção, me livre dessa culpa! 

27 June 2026

o presente e a presença

As datas de aniversário são pra mim sagradas. As minhas e de todas as pessoas que eu amo. O dia que a gente nasce é importante porque de fato marca o início de uma vida em sociedade, de uma vida que começa a existir em diferentes espaços e dimensões, em todas as instituições que faremos parte, para além da família. 

Sempre digo que a escola é esse lugar de pertencimento, que iniciamos o movimento para descobrir variados sentidos de nossa existência. Depois, ou em paralelo, as casas dos amigos, as igrejas, os clubes, os shoppings, a universidade, para quem consegue chegar até ela, e por fim, as trocas e tantos meios de aprender nos locais de trabalho. 

Outro dia conversando com uma amiga muito querida, com quem tive e tenho a oportunidade de aprender, falávamos sobre o papel da educação no combate a todas as formas de opressão, incluindo a maior delas, do meu ponto de vista, que é o racismo que opera, em todas as vezes, de forma sempre perversa e desumana. 

Não era para falar sobre racismo. Vou recomeçar. Tentarei, mas não sei se terei êxito, porque a minha mente não tem caixinhas, onde separo os assuntos. Se pararmos pra pensar, mesmo, tá tudo junto e misturado. E sei que prometi separar, mas preciso destacar sobre o racismo, apenas nesse último parágrafo que vai ficar longo, já adianto. É que o racismo é um fenômeno social que guia todas as nossas formas de nos relacionarmos enquanto sujeitos. Não é possível mais ignorarmos isso e nem o fato de que, independente se formal ou informal, educar para diversidade e para o antirracismo, são sim as nossas grandes responsabilidades enquanto humanos. Caberia aí um artigo, que eu poderia desmembrar como penso, quais são os meus argumentos para defender essas ideias. Mas prometi e vou voltar pro início. 

Os aniversários são datas sagradas, únicas, especiais. Até para aqueles que dizem que não gostam do dia em que nasceram. Talvez  essa impressão possa derivar de algum trauma, alguma situação hostil, algo que lembra um desconforto, uma memória infeliz. Só lamento e sempre vou querer encher a pessoa que não gosta do seu dia, de mensagens lindas, de textões, de palavras amorosas, de torcida pela paz, pelo sucesso, pela alegria.

Estar vivo deveria ser a condição para exercitarmos nosso bem viver, mas é claro que nem sempre dá pra gente sorrir. Muitas vezes o choro vem antes do nosso desejo anterior. E tá tudo bem. Mas eu queria só falar de como é bom ganhar presente de aniversário. Não o presente físico em si. O presente simbólico de ser lembrado, de receber uma ligação inesperada, mensagens cheias de afeto, votos, mimos, carinhos virtuais e abraços. Ah... como é bom receber abraço. Se vier acompanhado de beijo, aí o presente já vira um combo.

E tem aqueles presentes materiais que a gente ama, né? Ana não gostava de dar presente aleatório. É sobre isso, é sobre ela que quero falar. Eu ganhei dela um guarda-chuva. Primeiro ela achou um absurdo o presente de aniversário ser um guarda-chuva. Depois entendeu que eu daria muito valor e talvez ela já soubesse que eu levaria esse guarda-chuva comigo, em qualquer viagem, para qualquer chuva, fininha ou com pingos grossos. E ela caprichou. Escolheu um guarda-chuva lindo, reforçado, com duas camadas. Uma preta por fora e a outra com estampa animal print (tão Anamelea). Eu simplesmente amei esse meu presente. Morro de medo de perder e sempre confiro se está bem guardado no banco de trás do carro. É quase um amuleto. É a presença dela, mesmo não existindo mais fisicamente. 

Hoje eu senti necessidade de usar o guarda-chuva, que abrigou a mim e a minha mãe. Um guarda-chuva para dois. Da matéria virou símbolo. Símbolo de amor, de afeto, de irmandade, de lealdade. De valorizar quem amamos. Em vida, a minha amiga Ana me amou de verdade. Sou eternamente grata por ter sido amada, com tanta generosidade. E por ter ganhado dela um guarda-chuva que me acolhe até da saudade.


7 June 2026

e isso é só o começo

Eu respeito muito o processo do luto. Seja o luto que vivo em mim ou o luto em alguém que eu amo ou que me importo muito, que é praticamente a mesma coisa, já que só me importo muito com quem amo. Não que eu não me importe com as outras pessoas que não amo. 

Ser empática não indica, por exemplo, que eu ame aleatoriamente. Só significa que consigo me colocar no lugar do outro e que consigo perceber sua perspectiva, seu sofrimento ou sua dor.

A empatia é um sentimento que nos impulsiona a sermos mais humanos. Cultivar a nossa empatia é sempre mais interessante do que alimentarmos a nossa indiferença porque ser indiferente ao que alguém passa ou sente, vai retirando de nós a nossa humanidade, a nossa possibilidade de transformar indignação em uma forma de luta.

Luto e luta. O movimento desses dois artigos que muda o sentido de cada uma dessas palavras é também uma forma análoga de revertemos tristeza em força. De um estado depressivo em alerta. Quem morre deveria sempre nos impulsionar a lutar pela vida de quem fica. A nossa vida e a vida dos nossos. 

Mas nem sempre o luto se transforma em luta. Muitos declinam. Tem até aquela estranha e mórbida conclusão de que quem morre nos mata um pouquinho a cada dia, porque uma porção nossa vai embora junto. Mas e se pensarmos na porção que fica? Não seria melhor reunirmos nossas forças que restam para vencermos a dor e lutarmos por mais vida, mais prazer, mais alegria?

Parece egoísmo? Parece frieza? Parece descaso com quem partiu ou parece respeito e muito amor, a ponto de optar viver com mais vontade ou até com mais urgência?

Mas é preciso que eu diga que eu não tenho essas respostas. Esse exercício que faço na escrita, é mais um de muitos outros que ainda virão, pensando nos lutos que já enfrentei e enfrento para recalcular a minha rota para guiar as muitas lutas que já enfrento ou aquelas que terei que enfrentar no futuro.

Estar vivo é (de fato) uma celebração diária, por segundo. Não deveríamos lidar com a (nossa) vida como se estivéssemos preparando o caminho para a nossa morte. Há quem compre lápides ou preparem o funeral bem antes da véspera. É um jeito prático de agir, mas não considero nada prazeroso acelerarmos essa conversa sobre nosso fim que sem dúvida é a única certeza da vida que temos. 

Mas no intervalo, enquanto vivemos, precisamos enfrentar nossos medos, nossas próprias sombras e repensar as nossas escolhas enquanto ainda estamos por aqui. Seja para honrar os que já partiram antes de nós, seja para lutarmos em tempo pela nossas próprias missões, nossos projetos e sonhos inacabados. 

Todo dia é um dia de luta  para quem decide aproveitar a vida e o tempo que vai desaparecendo e sem compromisso de “zerar” para recomeçarmos de onde estacionamos. 

Cada parada que fazemos, por decidirmos “dar um tempo”, “deixar a vida nos levar”, é uma escolha infeliz. Escolher não se responsabilizar pelo tempo perdido pode ser um caminho perfeito para a procrastinação.

E como lutar sem forças? Como lutar pela vida estando em luto, com muita saudade de quem partiu? Como lutar para encontrar novos sentidos, novos motivos pra sorrir? Como se refazer de dores e festejar a vida? Como guardar na memória apenas o que foi bom? Qual é a virada de chave para perceber que a vida ainda presta, mesmo sem a presença de alguém que nos importamos muito? 

"Meu amor, o que você faria, se só lhe restasse esse dia?" Paulinho Moska, acertou (em cheio) na mosca. Vamos pensar sobre o que faríamos? Com quem passaríamos o último dia? Onde? Aproveitando como!?

E, por fim, quando o fim chegou numa relação... como se luta para viver bem (e melhor) sem alguém que, embora esteja vivo, prefere seguir sem a nossa presença? 

Os enterros simbólicos são sempre bem-vindos. Estou na posição de dar conselhos sobre o assunto.  Acenda uma vela. Faça orações. Converse com Deus! Mentalize com seus santos ou orixás. Peça por mais esse livramento. Ou faça terapia. Valorizemos a nossa existência! Cuidemos-nos mais! Ainda dá tempo!

E escrever também salva alguns dias mais sombrios. Também faço áudios pra mim mesma. Ao menos pra mim tem me ajudado a enfrentar todos os meus lutos e reinventar as minhas novas lutas. 

4 June 2026

ele não me leu

Eu poderia ter esquecido você naquele local inóspito, dentro da caixa das piores lembranças de coisas que eu não deveria ter permitido viver.

Poderia ter perdido as chaves. Melhor. Poderia ter jogado as chaves ao mar e torcer para que um peixe que curte comer tudo que machuca comesse.

Porque não sei se sabe, ou se deu conta, você me machucou, mesmo. Me deixou acreditar que fui nada pra você. Me fez odiá-lo. Me fez torcer pra nunca mais cruzar o meu caminho com o seu.

Hoje tenho, ao mesmo tempo, a intuição de que foi só uma fase ruim, e pra ambos. Depois da mágoa curada, fico feliz, por não ter jogado as chaves ao mar. Ficaria enlouquecida, à procura de algum peixe tarado por coisas fortes.

Porque tenho certeza de que sabe, foi forte o que nos ocorreu. Mesmo pela brevidade do tempo, que nos uniu e nos separou, como uma chuva de verão, daquelas rápidas, com pingos tão bravos que doem ao bater na nossa pele.

Causou uma tempestade em mim. Fiquei literalmente molhada, do tanto que chorava e lamentava ter perdido a oportunidade de estar ao seu lado quando a chuva esvaziasse. Porque não imagino que saiba, eu fiquei me sentindo vazia depois daquele encontro de uma noite só. Desejei novos encontros. Desejei você em minha rotina. Desejei me encaixar na sua, como se tivéssemos descoberto a pólvora, tamanho o estrago do fogo.

Por tudo isso, não tinha mesmo como te esquecer naquele local inóspito, dentro das piores lembranças. Te coloquei no lugar errado. Você não foi um evento ruim ou lastimável. O tempo nos traiu.

Hoje, ao receber seu torpedo, aquela polvorazinha reacendeu, (ainda) não sei o que, dentro de mim.

Assim, loucamente, corri atrás das chaves, tropecei nas escadas, em busca da caixa nada esquecida, e cheguei naquela noite extraordinária, em que andamos de mãos dadas e, acredite, trocamos juras de amor eterno.

Tomara que minha intuição esteja mesmo certa. Que nós dois não tenhamos perdido a noção do que ainda podemos ser um pro outro, com brevidade ou longevidade, com ou sem juras de amor eterno.

Tomara que minhas reticências, na resposta ao seu torpedo, sustentem essa leitura que faço hoje, do que já passou, e do que ainda está por vir. Tomara.


Escrita em outubro de 2011. Nunca enviada ao destinatário.

2 June 2026

mais um, do nosso jeito

Nem acreditei no seu telefonema, às duas da tarde de uma quinta-feira insossa. Mas ligou e eu amei ouvir sua voz, forte, que reconheceria mesmo se estivesse em outro planeta.

O tempo passou muito rápido, aliás, passou devagar. Vagaroso tempo que me afasta dos seus olhos. E, do nada, ou por tudo que vivenciamos, nos encontramos num cruzamento. 

Eu indo, ele vindo, na mesma rua, em direções opostas. Nem em sonhos imaginei uma cena tão romântica. E conosco, parece brincadeira, tudo beira o romantismo, até o limite da minha imaginação.

E quando nos reencontramos, quando ele tocou a minha mão, tive medo de que ouvisse o meu grito interno de alegria, ou que percebesse a minha aflição, ou que entendesse o quanto a presença dele me deixava tonta, sem eira, nem beira.

Eternizados, por dez minutos. Se o tempo parasse, saberia que não esqueci nada, que nada mudou, nem meu sentimento, nem meu desejo, nem minha esperança de um novo reencontro, um novo momento pra nós dois.

E meu olhar procurou o dele. Fugi. Fugi de mim, até. Me senti incomodada com a roupa, com a maquiagem, com o esmalte descascado. Se soubesse que iria encontrá-lo, assim, do nada, teria me produzido, teria tentado ficar irresistível, sedutora, encantadora.

Mas, não. Estava com a típica "cara pálida de quem ia pro trabalho, a contragosto". Deixar ele, ali, naquele lugar movimentado, quando tudo que me transmite é calmaria, foi um horror, um pesadelo, um acontecimento quase desumano, de tão ruim. Queria permanecer pra sempre ao lado dele. Perto, perto daqueles olhos. 

Descobri que sua falta me paralisa, me enlouquece. E que sua presença me enche de vida, de vontade, de alegria. Na tarde insossa, cheguei ao trabalho radiante, iluminada, como se tivesse me produzido para encantar alguém, às duas, num cruzamento de ruas e avenidas. Um encontro extraordinário. 

P.S: por falar no dia 12, esse conto foi escrito por mim, em 12 de setembro de 2011 e publicado num blog que nem existe mais... resgatei de um e-mail e deixo aqui como uma memória linda, da minha porção romântica que já está indo embora, com os percalços e desilusões da vida.