Quando eu vim morar em Maceió, em 2011, meu Mano Deca como sempre fez, me disse pra eu conhecer a cidade, o estado de Alagoas, as pessoas, as gírias locais, o sotaque. Me disse pra eu curtir, mas que eu ficasse atenta pois "dormir e acordar em outra cidade, é bem diferente de dormir e acordar na nossa cidade".
Ele e meus outros manos se mudaram para o Norte. Foram buscar melhorias de vida e construir novos sonhos em Rio Branco, capital do Acre. Uma boa parte da nossa família materna migrou pra lá. Tias, tios, primos já crescidos e também os que nasceram depois. E nessa mudança não só de cidade, como de estado, e não só de estado, mas de região, lá se foram meus manos e ainda levaram minha mãe.
Foi uma pequena e grande revolução no nosso Núcleo Santana que sempre residiu na Bahia e mesmo alguns morando em Salvador, Vitória da Conquista e Itarantim, as nossas férias e feriados e festejos sempre estavam garantidos. Nunca nos afastamos. A geografia, muito eficiente, mas nunca nos afastou. E assim seguimos desde nem sei quando. Já não guardo mais na memória datas, anos. Só guardo sentimentos, lembranças de nós todos reunidos, celebrando a nossa união, mesmo durante os conflitos e brigas que são comuns pois família de verdade funciona assim. Com altos e baixos, com dias lindos e dias tensos.
O meu mano Deca veio me visitar em Maceió. E veio mais de uma vez. Ele trouxe meu sobrinho Lucas, que na época era muito pequeno, ainda tomava gagau de leite com quik morango. Era muito grudado no pai. Assim como hoje é Miguelzinho, que prefere pela manhã, pão com café com leite. Tudo misturado numa gororoba que ele aprovou.
O meu mano Deca é família, é generoso, é observador, é atento, é cuidadoso. Cuida mais dos outros, mais de nós, que dele mesmo. E ele amou a história do gogó da ema, daqui de Maceió. Até hoje, quando lembra de Maceió, lembra do gogó da ema, como se fossem uma coisa só. Pra ele, assim como pra mim, tudo ganha significado e sentido.
Hoje estou aqui na cidade do gogó da ema, de coqueiros altos, tortos, lindos e leves. Eu já implorei mil vezes aos céus que permita que essa enfermidade se afaste do meu Mano Deca. Pra gente ouvir ele cantar pela milésima vez "seus olhos e seus olhares, milhares de tentações"... acho que nem Leoni canta tanta essa música, mas ele toca, canta, ri pra gente enquanto repete o refrão. O mundo, as cidades, a nossa família te ama infinititamente e quer de volta, sorrindo, cantando, reclamando. Que Deus nos conceda de novo a alegria de ter você entre nós, meu Mano. E Deus vai nos ajudar nisso. Prometo!
Para ler: Sobre a história do gogó da ema, coqueiro tombado em 28 de julho de 1955: https://g1.globo.com/al/alagoas/arquivo/noticia/2020/07/27/moradores-relembram-coqueiro-simbolo-de-maceio-o-gogo-da-ema-que-caiu-ha-65-anos.ghtml
