A neutralidade é uma postura adotada por pessoas cautelosas ou medrosas.
Para quem é cuidadoso, em suas relações sociais, prefere, muitas vezes se omitir, não posicionar-se, já que tomar partido, escolher um lado, impõe ter que lidar com conflitos.
Para quem tem medo, optar pela neutralidade significa ficar em cima do muro mas evitar cair também assusta.
Nos dois grupos o lado político já está definido, ainda que camuflado. Não querer estimular um conflito, ao responsabilizar-se por suas escolhas, é possível que o medo até exista, mas o desejo de não pactuar com o que considera errado talvez seja maior.
O que é certo é que a neutralidade é apenas uma farsa. E nenhuma farsa se sustenta por muito tempo.
Durante essa eleição tão polarizada a gente consegue perceber esse fenômeno pela cor que vestimos. Por falar em cor, até nos chás revelações o rosa e o azul, ou tonalidades próximas, mas que sempre tem o sentido binário, nós temos uma questão política em gestação, literalmente. A cor associada ao gênero carrega inúmeros significados, nem sempre idênticos entre os pais de um filho ou filha que vai nascer dali a alguns meses.
A revelação da cor do bebê vai garantir o status de "menino" e "menina" e vai gerar inúmeras expectativas e sonhos dos adultos. Da decoração dos quartos aos nomes, tudo carrega sentidos, tudo é escolha, e toda escolha é política.
É engraçado quando a gente observa que o casal decide comprar tudo branco ou amarelo ou verde, para não caracterizar a definição do cor com a máxima que determina “coisa de menino e coisa de menina”. Essa suposta neutralidade na escolha da cor, carrega em si o desejo (político) de não reforçar o machismo nem a misoginia, na vida de um novo ser humano, por exemplo.
Neste caso, pais e mães escolhem que a criança vai crescer e vai escolher seu brinquedo favorito, sua cor favorita, sua forma de estar no mundo, sem a imposição prévia de como desejam que seja, desde muito cedo ou antes mesmo de nascer.
E sobre a cor da nossa pele? Já é consenso que a polícia entende quem tem um corpo suspeito de um corpo não suspeito. Se uma pessoa negra está correndo, ela pode estar em fuga, como primeira conclusão, e não apenas fazendo uma corrida esportiva. É assim que a banda toca para a população negra.
E como seria ser neutro se a cor da pele negra não dá para esconder, falsear? Ah... as estratégias são muitas. Do que vestir e como se vestir, de como falar, em que lugares frequentar, com quem frequentar, como se comportar, se alisa o cabelo crespo, ou se o deixa preso, ou muito curto… existem inúmeras pesquisas e estudos que tratam sobre o preconceito de cor e a discriminação racial derivada do preconceito com a cor da pele.
Veja que são estratégias políticas para manter-se vivo, para garantir minimamente a proteção pessoal, e quando não são adotadas, podem virar mais um número na página policial ou no obituário do dia. Tem sido assim desde que o Brasil é Brasil.
E a cor que decidimos usar no dia da votação? Ela também revela que não somos neutros. Podemos ser cuidadosos, moderados, medrosos ou muito corajosos.
Ontem fiz essa observação "in loco", pelas ruas e em alguns locais de votação do primeiro turno... e também nas mídias sociais, quando percebi a escolha (política) de como as celebridades, políticos foram vestidos. Tudo planejado com cuidado afinal sabiam que seriam fotografados.
Não é uma reflexão sobre quem está certo ou quem está errado em ser do jeito que se é. É só um devaneio meu, mais um, num momento difícil, cheio de tensão. Decidir pelo cinza, bege, vermelho, verde e amarelo, ou até a mais neutra, a cor branca, sempre associada a uma tão sonhada pacificação, são escolhas políticas que nos anunciam na chegada, durante ou na saída. Importa muito que tenhamos consciência de que somos seres políticos e nada é neutro.
Há um movimento politizado em nossas formas de viver em sociedade. É preciso descortinar nossas intenções e revelarmos quem somos e o que desejamos enquanto sociedade. O chá revelação de ontem, pelo que entendi, revela que desejamos muito mais do que um Brasil livre. Acho que estaremos muito mais presos a um certo modo de governar, do que exercendo a liberdade.
Você pode se vestir de branco e escolher um batom vermelho ou um sapato vermelho. É alguém com medo e com vontade de ousar, mas só um pouquinho? Na discrição? Ou apenas dizer que ama a cultura e vestir-se de preto. Talvez em luto por não aguentar mais atacarem a lei rouanet sem nem entender dela? Ou só uma insurgência, insubordinação contra a ordem. São muitas possibilidades.
Você pode se vestir de verde e amarelo e dizer que a família em primeiro lugar, seu país em primeiro lugar, e considerar razoável que o candidato prometa entregar o Brasil para os EUA, e também faça farras com drogas e outras mulheres, que não é a sua, que defenda porte de arma para quem não é policial e filme crianças fazendo arminha com as mãos.
Você pode nem ir votar, dizer que não se sente representado por nenhum lado, mas usar seu dedinho mágico e publicar uma imagem, um vídeo e vibrar com os 47% do candidato que segue para o segundo turno sem nenhum compromisso com o país, com nós, povo brasileiro, que somos diversos, que amamos todas as cores e não idolatramos torturadores.
Que a escrita continue me salvando porque em tempos acinzentados (tem política aí) é preciso encontrar luz, força, sol. As tempestades não duram pra sempre.

