25 April 2026

carnavalizando os sonhos

Os sonhos nunca nascem só enquanto dormimos. Eles nascem antes. Os pesadelos também. Tudo se mistura e cria-se um clima surreal, seja com doses lindas ou muito esquisitas. Eu sou muito fã desse talento que nossa mente tem: a de projetar outros mundos, outros tempos, personagens e cenários impossíveis de serem reais à luz do dia. Bem verdade que a gente sonha de olhos abertos, seja de dia ou de noite, mas na madrugada, quando as luzes se apagam e os olhos se fecham de verdade, aí sim, os sonhos podem acontecer, num piscar. Ou não. Muitas vezes a gente não lembra e parece que naquela noite, nossos pensamentos se afastaram de nós. Resolveram dar um tempo. Isso também é mágico, não é? Quanta plasticidade! Quantas versões de nós ainda nem foram construídas ou sonhadas?

Ontem eu sonhei que era carnaval. Ou que eu reclamava do carnaval. Eu vi um story de uma prima numa caminhada (ops, corrida) com Bell Marques, cantor das antigas, um dos melhores, da cena carnavalesca da Bahia. Mas ele estava no Rio, num evento de milhões que ele certamente angariou muito dinheiro dos cariocas carnavalescos, como meus priminhos que (juro), começaram a história deles, pra valer, ao som do trio elétrico. Isso é outra mágica, que um dia volto a escrever sobre ela. Voltemos ao meu sonho.

Eu reclamava como a cidade de Salvador muda com o carnaval. Vira um canteiro de obras. Muitas lâminas de madeira empilhadas, muitas colunas de ferro para sustentar os camarotes, muita gente que vai montar toda a parafernália e que sequer vai ter acesso a essa festa que foi transformada com o passar do tempo. Virou fonte de renda. Tornou negócio e propaganda de grandes marcas. Migrou o sul e o sudeste pra cá e oprimiu nossa gente, a ponto de só sobrar um pouco das laterais das ruas, para dar lugar e vez aos que vêm de fora e aproveitam os dias de carnaval consumindo nossa cultura, enchendo as ruas de latas de cerveja e de xixi pelos 4 cantos. A mistura desses dois odores não é nada agradável. Reclamei disso também no sonho. 

Na verdade eu sempre repito que prefiro ver o copo meio cheio, mas reclamo tanto de tudo, que reforço o seu lado vazio. Não seria diferente se eu não fosse a contradição em pessoa. Sou aquário com ascendente em aquário. Isso (até) me serve pra justificar, mas não resolve o meu dilema existencial. Eu realmente preciso parar de reclamar. Até nos meus sonhos eu sou a reclamona de plantão. Faz como para o cérebro ser ainda mais incrível e mudar esse padrão que tenho, ao menos enquanto durmo? Está vendo só? Eu agora consigo enaltecer e reclamar das nossas funções cerebrais. Sou uma grande interrogação ambulante. 

Deve ser por isso que amo carnaval mas odeio o furdunço e tudo fora da normalidade do antes, durante e depois. Também não assisto nenhum filme que tem batida de carros e casas, prédios e ruas destruídas sem reclamar da bagunça que os efeitos especiais criam. A verdade é que gosto de rotina, de tudo no lugar e tudo dentro do que é esperado. Eu amo purpurina nos olhos, admiro muito cada maquiagem diferentona que vejo por aí, mas fico louca quando aquela coisinha brilhante insiste em morar no meu tapete. Simplesmente não saem após a folia. E é bem perigoso pensar sobre o que se mantém na gente, depois de um grande caos. Ou de um sonho revelador.

Era pra falar de sonho e eu meti carnaval, eu sei. Mas assim como um sonho, não existe nada mais desconcertante e inexplicável como as muitas emoções que se misturam quando decidimos curtir uma festa tão complexa, barulhenta e contagiante como o carnaval. Eu me sinto assim quando sonho. Quero sugar toda a experiência louca, que eu não me lembro nem a metade quando abro os olhos, mas que gostaria de me deliciar de novo com aquele reencontro, com diálogos improváveis com pessoas que sequer acesso mais, com gente que até já partiu, mas estava ali, vivinha da silva, naquele intervalo maravilhoso chamado sono profundo.

Eu sonhei com carnaval, com bebê, uma amiga que não é mais amiga, com sua filha que também já não está mais entre nós. Conversamos, fizemos as pazes, contamos as novidades. Curtimos a cia. O bebê era meu. Depois não era mais. E assim, como uma dança tribal, mudou o trio, o cenário. Fiz o meu xixi em algum momento, como sonâmbula que sou. Voltei pro sonho e nem precisei pedir pra voltar. O sonho continuou e a grande magia que aconteceu precisava virar escrito. 

Eu concordo muito com Milton Nascimento e seu clube da esquina, talvez a canção mais linda que já ouvi, que me lembra tanto de Ana. Realmente os "sonhos não envelhecem". Também não morrem. Meu amor por quem já amei também não. Nem o meu amor pelo carnaval vai me abandonar, só porque agora a festa acontece sem controle, fora da Bahia e, fato, se tornou menos democrática e divertida como era antes dos famosos e celebridades descobrirem nosso axé, nosso molho, nossa baianidade. 

O bacana de sonhar é pensar que tudo muda por fora, mas a gente pode continuar sonhando com o que aprovamos por dentro. Isa, Gica e o bebê que sorria pra mim, no meu colo, que eu não entendi ainda quem é ou o quê significa obrigada pelo reencontro comigo, tão visceral, na madrugada do dia 26 de abril de 2026.



20 April 2026

ao escolher amar a gente perde?

Com tanto feriado em 2026, meu estoque de frases impactantes tem crescido muito. É que cada série, filme ou livro que leio, tem me ajudado a colecionar novas reflexões.

Na relação amorosa mais densa e dolorida que já vivi, eu já havia aprendido que “só o amor não basta”. É preciso que funcione. E funcionar é um troço que parece tecnicamente simples de acontecer quando duas pessoas se amam e também insistem em apostar na história. Mas não é simples, não é fácil, e posso concluir que no “meu” caso foi também impossível de rolar.

Nas relações de amizade ou até mesmo laborais, essa coisa de não funcionar direito também limita a sobrevivência. Você pode gostar do que faz mas o contexto geral não funciona. Você pode amar um amigo mas a vida em volta não funciona. E a gente muda de trabalho porque está incomodado e também pode se afastar daquela amizade, porque não teve jeito. Era o melhor a se fazer. Por um, pelo outro, ou por ambos.

Outro dia eu li que “talvez você também seja um livramento para alguém”. Já pensou que loucura isso? Você se livra do que entende que lhe faz mal e ao mesmo tempo o outro lado também entende que se livrou de você. Foi importante pensar sobre isso. Verdade que nenhuma história tem só um lado, ou uma versão. Podem ter outros lados, muitas versões. Depende de quem a viveu, como interpretou o que viveu e como agora se sente estando livre daquele surto a 2.

Mas daí a dizer que você, ao escolher amar, você também perde, me forçou a incluir uma interrogação, ao final. É que eu ainda duvido da certeza dessa afirmação. Não consigo (ainda) aceitar que só o amor não basta, ou que a gente perde quando ama. Eu apelo para a canção que Renato Russo lindamente nos ensina que “é só o amor, é só o amor, que conhece o que é verdade, o amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece”. 

Como um sentimento tão podereso, genuinamente honesto como o amor, poderia te fazer perder algo? Como isso é possível? A gente não deveria abrir mão do amor, nunca, mesmo quando parece não funcionar. Eu queria poder consertar o (descom)passo, alinhar expectativas e os ponteiros e seguir acreditando que quando a gente ama, a gente só ganha. Quando a gente ama, a gente cuida, a gente investe na fé por tempos melhores e de paz, nunca por fins ou tristezas. 

Minha porção romântica está por um fio, mas ainda teima, nem sei como. 

Que os feriados continuem prolongando esse desejo em mim. Que eu não desista de amar e insistir. Que eu encontre um jeito de fazer a roda girar, que tudo funcione bem e que o mundo seja um lugar de encontros e diálogos, de longas pontes, não de muros altos. 

13 April 2026

assumindo o que (também) sou

No último 06 de abril eu comprei, na Livraria da Travessa, dois livros de crônicas indicados por uma amiga leitora, muito viciada em bons escritos. Eu apenas obedeci. Comprei sem nem folhear. Ela disse que ambos se pareciam comigo, com meu estilo de escrita. Eu que apelidei minhas crônicas de "quase uma crônica", me sinto muito mais cronista que antes. Acho até que essa de agora terá outro marcador no blog. Vou adicionar "minhascrônicas". Pronto, resolvido.

Já no dia 08 de abril eu pude participar de um bate-papo com Martha Medeiros, no projeto Ideias - Clube de Leituras do Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio, e na conversa com ela, me fez ter mais certeza que sou de fato uma escritora e cronista. Não vou mais fazer de conta. Vou me assumir. Eu que já me declarei blogueira, com muito orgulho, também vou me declarar cronista. Mas quem pode me validar além de mim? E eu preciso de validação? Pra que? Pra quem? Quero ganhar dinheiro, fama, prêmios? Quero ser citada? Quero virar influencer? Claro que não! Esse blog existe e resiste desde que entendi que precisava de um espaço meu, sem regras, sem padrões, sem julgamentos. E é tão bom escrever com liberdade!

Ouvindo Martha Medeiros o assunto sobre hierarquia na literatura apareceu. Ela nos contou o que pensa sobre as críticas que recebe... imagine... Martha Medeiros, que tem trocentos livros, edições e reedições de muitos deles... quem sou eu pra me preocupar com isso? Não preciso. Não cabe em mim esse dilema existencial. Não cabe nela e não deveria caber em ninguém. A sociedade midiática faz o que bem entende, não há respeito, não há descanso.

Lembrando aqui que logo que ingressei na UFAL participei de um concurso para publicação de livro de literatura. Lá fui eu com minha ousadia... reuni alguns textos desse blog e submeti. Não posso dizer que não ganhei nada, se fui corajosa e peitei as regras do jogo, naquele edital da faculdade de letras, tão inusitado para uma professora recém-chegada na faculdade de educação. Foi divertido. Fiquei na expectativa, aguardando o resultado e depois, nem me lembro mais o que senti. Só sei que naquela época, em 2011 ou 2012, não recordo ao certo, eu já sabia que eu tinha muito interesse e vocação para a escrita.

Hoje revisitei muitos textos meus publicados aqui, nesses 16 anos de estrada. E me emocionei com algumas coisas que tão corajosamente eu me dispus a escrever. Martha Medeiros agora vai ficar contente. Tudo o que ela comentou sobre os seus muitos processos de escrita também me pegaram de um jeito que só agora me dou conta do quão afetada eu fiquei, só por ouvir ela trazer sensações que eu também sinto. Me senti cúmplice. Me senti identificada. Total empatia entre duas mulheres que escrevem a partir de si mesmas, se desnudam e não sentem vergonha de ficarem nuas, com os holofotes sobre seus pensamentos.

Eu também sempre uso o marcador "devaneios" para marcar sobre o que se trata. E confesso que eu amo quando percebo que o que eu queria dizer, já está materializado na (minha) escrita. É bom que saia de mim e deite em outro lugar. Me alivia a alma. 

Martha Medeiros, Maria Ribeiro e Artur da Távola, minha gratidão por ter lido vocês, com crônicas que me fizeram rir ou marejar os olhos, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Agora que sei quem eu sou, só posso dizer que vou dormir mais feliz pois, afinal, hoje eu me tornei uma cronista e isso me fez bem demais. Paula Simões, você realmente me conhece! O próximo café quem pagará sou eu.

Livros referenciados:

Feliz por nada/ Martha Medeiros

Caminhos Abertos/ Artur da Távola

Não sei se é bom, mas é teu/ Maria Ribeiro


2 April 2026

faxina geral

Desde o dia 31 de março comecei a escrever compulsivamente. Melhor escrever do que comer chocolate, em tempos de Páscoa! Eu tenho compulsão por limpeza, por palavras, por expulsar lixo tóxico da casa e da mente. 

Isso não é novidade. Quem aqui chega encontra rios que deságuam meus desabafos. Eu treino melhor quando a casa está limpa. Não trabalho no computador se tiver louça suja na pia. Não deixo de retirar meus fios de cabelo do banheiro que somente eu uso. Em tese não deveria ter nojo mas vamos combinar, é sujeira que sai de mim mas continua sendo sujeira. 

Com a casa eu vou no automático. Quando vejo já estou com a pá numa mão, a vassoura na outra. Isso não me desgasta, pelo contrário, me alivia. Sou neurótica, eu sei. Culpem minha mãe que me estimulou desde cedo a cuidar da casa. Culpem a pandemia também, que nos revelou a importância da higiene. Culpem os meus pensamentos tortos. Ok, podem me culpar por eu ser uma esponja, que absorvo tudo com facilidade e por isso necessito esvaziar  tantas vezes.

A casa limpa é uma solução. Mas é sempre provisória. Todo dia eu faço a varredura toda de novo. Não tenho paz antes das nove. E aí vem o fazer laboral, para além do técnico. Os pensamentos não são tão fáceis de serem organizados como o lixo na lixeira. Basta lacrar o saco, jogar na lixeira externa e parece que tudo está em ordem, dentro de casa. 

Ah quem me dera se bastasse uma ação tão simples pra limpar as tantas nuvenzinhas que vão se acumulando aqui e acolá, como se tivessem permissão minha para se instalarem dentro de mim. O problema é muito mais complexo quando vem de dentro da gente. 

Eu hoje fiz mais textões. Expulsei um monte de tranqueira que precisei expurgar. E agora respiro aliviada. Parece até que consigo sorrir pra mim mesma. Sinto que estou mais leve. E não há sentimento melhor do que paz dentro e fora. E assim é. Só porque resolvi escrever. 

1 April 2026

abril se abriu

Eis que o novo mês chegou! Eu amo essa lógica do ciclo do calendário, que marca (novos) recomeços, mês a mês.

E amo que exista um mês que nem abril, que se abre já no nome. Eu fico encantada com essa facilidade que abril tem de nos encantar.

E como abril se abre, quero me abrir também. Quero ser que nem abril. Quero ser forte para superar março, os medos, os desafios de um ano que já está no quarto tempo. Tempo de 12. 

Quero ser que nem abril. Lidar com a novidade do que vem por aí, do que está no ar, mas folhas de outono ou de primavera, dependendo do local de referência nesse globo que é redondo. Quero ser redonda e circular, nunca estagnar. 

Quero ser prosperidade. Quero ser hoje e quero ser amanhã. O ontem se foi. O depois chegou. E depois a gente vê o que faz. 

Que abril se abra mesmo. Que cada abertura seja um novo momento de se ser mais quem se é. Sem travas. Está tudo bem. E o que viver, já vem bem.

19 March 2026

sobre o perdão no depois

Um mês que completei 56 voltas. Um mês insano, de muito trabalho, reflexões e muitas cobranças. Eu sou muito exigente comigo mesma e minha maior punição é sempre me culpar por todas as decisões equivocadas que costumo tomar. 

O mês de março das águas turvas, que mesclam verão e outono, que mistura tudo em nós. Mês dos piscianos, dos que navegam pela sensibilidade e também nos convida a sermos mais observadores e cautelosos. Março do dia internacional da mulher, do aniversário de dois manos, do mês que marcou minha escolha, lá atrás em 2024, para voltar a seguir sozinha, pra desistir dessa história de juntar escova de dentes e projetos a dois. 

Eu tentei muito e até me abri pra uma nova chance. 56? Quantas tentativas foram nesses 15 anos? Quantas vezes abri meu coração, minha porta, minha alma? Quantas quedas e recaídas ainda me disponho a viver? 

Não busco mais respostas muito menos justificativas para as minhas escolhas insensatas. Eu sei que errar é humano e sou humana, portanto, posso sim errar, me enganar, ou ser manipulada por quem me conhece até às avessas. 

Eu me perdoo! Eu sou de carne e osso e afeto. Sangro até o sangue estancar. Não me incomodo de ter que recomeçar do zero, um dia após o outro. Mas não queria nesse novo ciclo, seguir com mágoa, com tristeza ou com ressentimentos. 

Queria olhar pra trás e sorrir. Mas não consigo ainda. Sorrir é (me) pedir demais. Fui muito machucada e posso sim me perdoar, sei que vou conseguir, mas não vou perdoar quem desejou atravessar o meu caminho de novo só pra me ver sofrer (de novo). 

Que eu consiga superar esse reencontro que poderia ser só uma fantasia, que poderia ter ficado só na imaginação. Poderia não ter acontecido de verdade. Poderia ter me poupado do depois. Mas o depois aconteceu. E agora, nesse mesmo mês de sempre, me despeço outra vez. Eu não vou repetir tortura. Que eu consiga eliminar esse pesadelo que foi reviver o caos em mim. Eu mereço esse novo livramento. É o que desejo, no seu dia, São José.