Ana costumava me ligar cedinho para o "bom dia, juju" e em seguida me dizia que precisava me contar as "fortes emoções" que estava sentindo [da noite anterior para as seis da matina], sendo que nos falávamos o tempo todo, então no mínimo eu sabia que a narrativa por vir, carregava em si doses de exagero. Mas eram sempre fortes emoções pra ela. Eu sempre dizia que ela exagerava, ela ria de mim, eu ria dela, ríamos juntas de nossos diálogos aleatórios e cheios de respeito e amor.
Todo janeiro fico mais mexida. Sim, tem o meu inferno astral. Antes eram os nossos. Era muito comum que ficássemos mais dramáticas, mais reflexivas e mais atentas a quaisquer mudanças. Culpávamos os astros por uma simples porta que fecha rápido, com a chave dentro, por qualquer desatino.
Hoje eu queria tentar me lembrar de todas as cenas, todos os contextos, numa espécie de túnel do tempo, só pra matar essa saudade de sua presença em mim. Sei que não adiantaria, mesmo se isso fosse possível. Matar saudade é tarefa sem futuro. Sempre haverá mais acumulada. Como o lixo que produzimos. Não adianta esvaziar a lixeira pois dali a pouco terá sempre lixo a retirar. A nossa alma também precisa de limpeza.
O nosso coração faz festa quando vivemos momentos felizes. E é importante entender que são e serão sempre momentos. Não há garantia de prazer eterno, riso eterno, estado de felicidade eterno. Tá tudo certo e realmente não há nada que podemos fazer sobre isso.
Mas hoje lamentei que a vida nos dê tantos altos e baixos em curtos espaços de tempo. Um dia você ganha um abraço apertado, no outro não recebe um "oi, dormiu bem?". Num piscar de olhos você se vê ali, na sua cozinha, preparando um lanchinho e a casa tá em movimento, cheia de vida, de risos e, do nada, aquele vazio ensurdecedor. Parece brincadeira de mau gosto. Você dá o pirulito e depois puxa rápido da boca da criança e some no vento.
E aí acordei hoje, reflexiva sobre esse caldeirão desenfreado que me encontro e fiquei quietinha ouvindo o barulhinho bom da chuva lá fora. Me lembrei (de novo) que estou na chuva, sem capa, sem proteção, sem guarita para "esperar o tempo secar". Ai, Ana... eu queria te ligar e você me ouviria contar que vivi fortes emoções nesses últimos dias de inferno astral. Culpo os astros? Culpo quem? A mim mesma? Ouço "Clareou" sem parar, esperando seguir os conselhos de que "a vida é pra quem sabe viver/ procure aprender a arte/ pra quando apanhar não se abater/ ganhar e perder faz parte".. parece tão fácil!
Como eu queria de novo e sempre ouvir seu "bom dia, juju". Como seria bom escutar sua voz grave que aos poucos está sumindo da minha memória. Como faz falta sua amizade, amiga! Você não faz ideia do quão importante foi ter você aqui entre nós. Você que me lê, me perdoa por ter zombado de suas fortes emoções, aquariana. Eu sigo sem você, amiga, a vida continua, os dias seguem, mas eu não te esqueço.
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