13 December 2020

os sentidos da nossa existência em tempos pandêmicos

Eu poderia começar destacando a tragédia que tem sido o ano 2020 para todo o planeta. Poderia inclusive culpar apenas o novo coronavírus. No Brasil, eu poderia colocar toda a conta para o desgoverno que aí está, mas em hipótese alguma devemos esquecer que somos mais que datas, que epidemias ou pandemias. Somos humanos, somos desumanos, somos tribos, somos egoístas, somos especiais, somos indiferentes, somos polêmicos, somos limitados, somos um caldeirão de virtudes e de defeitos.

Não posso culpar nem o ano nem esse vírus infeliz que propaga dor, crise, desesperança e muitas, muitas mortes. Bem verdade que o ano 2016 tivemos um golpe parlamentar no Brasil e pelo mundo estamos assistindo, assustados, uma subida gigantesca de uma onda conservadora, que alguns chamam de extrema-direita, outros apenas de um novo fascismo que contamina políticos, empresários e poderosos que dominam a economia nos 4 cantos.

No nosso caso, também tivemos novas eleições recentemente e quem chega pra governar prefeituras e compor bancadas dos vereadores, além dos senadores e deputados que já estão na ativa... isso tudo junto, com uma emenda constitucional que congela o teto de gastos (investimentos) na área social, por longos 20 anos, só poderiam causar pânico, pandemia, pandemônio entre nós, brasileiros e brasileiras.

Além da morte física, em virtude do sars covid-19 também temos as mortes simbólicas, que colaborarão para novas matanças da juventude negra, de indígenas, de LGTBI+ e toda a população de idosos e com comorbidades. O projeto mais amplo é fascista, é genocida mesmo. E não é culpa de 2020. É a soma irresponsável de décadas e décadas de ausência do Estado para enfrentar o racismo, a xenofobia, a homofobia e todos os demais tipos de preconceitos que envolvem gênero, raça e classe no Brasil.

Diante de mortes físicas e subjetivas estão as nossas fragilidades em como sobreviver frente ao caos social, diante de tanta angústia por segundo que, entre os sobreviventes, estão os que ainda resistem a esse movimento histórico da luta entre desiguais, do descaso com os sinais que a natureza nos alerta.

Quais os sentidos de viver, morrer, sobreviver e resistir??

Hoje morreu Rafael Navas, um dos mais admiráveis colegas da UFAL que tive o prazer de me aproximar, em função das nossas agendas na gestão universitária. Tive a sorte de conviver com ele. Tive a sorte de dizer o quanto o admirava, creio que todas as vezes que nos falamos, incluindo o dia 3 de dezembro, quando soube do seu estado de saúde.

Mesmo lamentando muito eu agradeço por ter tido a oportunidade de falar com ele, e agora entendo que foi uma possibilidade de despedida. Com quantas pessoas temos esse tempo de validar afeto e nos despedir? Creio que muitas vezes perdemos tempo com bobagens e não nos comunicamos de forma amorosa, como deveríamos fazer com todos os nossos afetos (ainda) em vida.

Sentido de existir pra mim tem relação direta com afago, com memória, com carinho na fala e no olhar.

Meu sentido de existir combina amor, amizade, esperança e humanidade.

Um abraço meu querido Rafa. Sua existência foi linda, memorável. Só nos deixou leveza e orgulho do ser humano que construiu em torno dos seus ideais de justiça, de respeito, de vida, de sociedade.



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