Os sonhos nunca nascem só enquanto dormimos. Eles nascem antes. Os pesadelos também. Tudo se mistura e cria-se um clima surreal, seja com doses lindas ou muito esquisitas. Eu sou muito fã desse talento que nossa mente tem: a de projetar outros mundos, outros tempos, personagens e cenários impossíveis de serem reais à luz do dia. Bem verdade que a gente sonha de olhos abertos, seja de dia ou de noite, mas na madrugada, quando as luzes se apagam e os olhos se fecham de verdade, aí sim, os sonhos podem acontecer, num piscar. Ou não. Muitas vezes a gente não lembra e parece que naquela noite, nossos pensamentos se afastaram de nós. Resolveram dar um tempo. Isso também é mágico, não é? Quanta plasticidade! Quantas versões de nós ainda nem foram construídas ou sonhadas?
Ontem eu sonhei que era carnaval. Ou que eu reclamava do carnaval. Eu vi um story de uma prima numa caminhada (ops, corrida) com Bell Marques, cantor das antigas, um dos melhores, da cena carnavalesca da Bahia. Mas ele estava no Rio, num evento de milhões que ele certamente angariou muito dinheiro dos cariocas carnavalescos, como meus priminhos que (juro), começaram a história deles, pra valer, ao som do trio elétrico. Isso é outra mágica, que um dia volto a escrever sobre ela. Voltemos ao meu sonho.
Eu reclamava como a cidade de Salvador muda com o carnaval. Vira um canteiro de obras. Muitas lâminas de madeira empilhadas, muitas colunas de ferro para sustentar os camarotes, muita gente que vai montar toda a parafernália e que sequer vai ter acesso a essa festa que foi transformada com o passar do tempo. Virou fonte de renda. Tornou negócio e propaganda de grandes marcas. Migrou o sul e o sudeste pra cá e oprimiu nossa gente, a ponto de só sobrar um pouco das laterais das ruas, para dar lugar e vez aos que vêm de fora e aproveitam os dias de carnaval consumindo nossa cultura, enchendo as ruas de latas de cerveja e de xixi pelos 4 cantos. A mistura desses dois odores não é nada agradável. Reclamei disso também no sonho.
Na verdade eu sempre repito que prefiro ver o copo meio cheio, mas reclamo tanto de tudo, que reforço o seu lado vazio. Não seria diferente se eu não fosse a contradição em pessoa. Sou aquário com ascendente em aquário. Isso (até) me serve pra justificar, mas não resolve o meu dilema existencial. Eu realmente preciso parar de reclamar. Até nos meus sonhos eu sou a reclamona de plantão. Faz como para o cérebro ser ainda mais incrível e mudar esse padrão que tenho, ao menos enquanto durmo? Está vendo só? Eu agora consigo enaltecer e reclamar das nossas funções cerebrais. Sou uma grande interrogação ambulante.
Deve ser por isso que amo carnaval mas odeio o furdunço e tudo fora da normalidade do antes, durante e depois. Também não assisto nenhum filme que tem batida de carros e casas, prédios e ruas destruídas sem reclamar da bagunça que os efeitos especiais criam. A verdade é que gosto de rotina, de tudo no lugar e tudo dentro do que é esperado. Eu amo purpurina nos olhos, admiro muito cada maquiagem diferentona que vejo por aí, mas fico louca quando aquela coisinha brilhante insiste em morar no meu tapete. Simplesmente não saem após a folia. E é bem perigoso pensar sobre o que se mantém na gente, depois de um grande caos. Ou de um sonho revelador.
Era pra falar de sonho e eu meti carnaval, eu sei. Mas assim como um sonho, não existe nada mais desconcertante e inexplicável como as muitas emoções que se misturam quando decidimos curtir uma festa tão complexa, barulhenta e contagiante como o carnaval. Eu me sinto assim quando sonho. Quero sugar toda a experiência louca, que eu não me lembro nem a metade quando abro os olhos, mas que gostaria de me deliciar de novo com aquele reencontro, com diálogos improváveis com pessoas que sequer acesso mais, com gente que até já partiu, mas estava ali, vivinha da silva, naquele intervalo maravilhoso chamado sono profundo.
Eu sonhei com carnaval, com bebê, uma amiga que não é mais amiga, com sua filha que também já não está mais entre nós. Conversamos, fizemos as pazes, contamos as novidades. Curtimos a cia. O bebê era meu. Depois não era mais. E assim, como uma dança tribal, mudou o trio, o cenário. Fiz o meu xixi em algum momento, como sonâmbula que sou. Voltei pro sonho e nem precisei pedir pra voltar. O sonho continuou e a grande magia que aconteceu precisava virar escrito.
Eu concordo muito com Milton Nascimento e seu clube da esquina, talvez a canção mais linda que já ouvi, que me lembra tanto de Ana. Realmente os "sonhos não envelhecem". Também não morrem. Meu amor por quem já amei também não. Nem o meu amor pelo carnaval vai me abandonar, só porque agora a festa acontece sem controle, fora da Bahia e, fato, se tornou menos democrática e divertida como era antes dos famosos e celebridades descobrirem nosso axé, nosso molho, nossa baianidade.
O bacana de sonhar é pensar que tudo muda por fora, mas a gente pode continuar sonhando com o que aprovamos por dentro. Isa, Gica e o bebê que sorria pra mim, no meu colo, que eu não entendi ainda quem é ou o quê significa (prefiro não entender), obrigada pelo reencontro comigo, tão visceral, na madrugada do dia 26 de abril de 2026.
Amo seus textos e suas crônicas!!!
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