Desde o dia 31 de março comecei a escrever compulsivamente. Melhor escrever do que comer chocolate, em tempos de Páscoa! Eu tenho compulsão por limpeza, por palavras, por expulsar lixo tóxico da casa e da mente.
Isso não é novidade. Quem aqui chega encontra rios que deságuam meus desabafos. Eu treino melhor quando a casa está limpa. Não trabalho no computador se tiver louça suja na pia. Não deixo de retirar meus fios de cabelo do banheiro que somente eu uso. Em tese não deveria ter nojo mas vamos combinar, é sujeira que sai de mim mas continua sendo sujeira.
Com a casa eu vou no automático. Quando vejo já estou com a pá numa mão, a vassoura na outra. Isso não me desgasta, pelo contrário, me alivia. Sou neurótica, eu sei. Culpem minha mãe que me estimulou desde cedo a cuidar da casa. Culpem a pandemia também, que nos revelou a importância da higiene. Culpem os meus pensamentos tortos. Ok, podem me culpar por eu ser uma esponja, que absorvo tudo com facilidade e por isso necessito esvaziar tantas vezes.
A casa limpa é uma solução. Mas é sempre provisória. Todo dia eu faço a varredura toda de novo. Não tenho paz antes das nove. E aí vem o fazer laboral, para além do técnico. Os pensamentos não são tão fáceis de serem organizados como o lixo na lixeira. Basta lacrar o saco, jogar na lixeira externa e parece que tudo está em ordem, dentro de casa.
Ah quem me dera se bastasse uma ação tão simples pra limpar as tantas nuvenzinhas que vão se acumulando aqui e acolá, como se tivessem permissão minha para se instalarem dentro de mim. O problema é muito mais complexo quando vem de dentro da gente.
Eu hoje fiz mais textões. Expulsei um monte de tranqueira que precisei expurgar. E agora respiro aliviada. Parece até que consigo sorrir pra mim mesma. Sinto que estou mais leve. E não há sentimento melhor do que paz dentro e fora. E assim é. Só porque resolvi escrever.
Não há nada como uma boa faxina :)
ReplyDeleteÀs vezes sinto que mais que uma faxina, necessito de uma demolição interna... repensar a arquitetura e construir uma nova casa. Fico sem saber se é faxina ou se as coisas estão sem lugar na casa. Se esta está incompleta, faltando novos móveis, se precisa uma nova decoração. Na realidade meu problema maior é como jogar fora esses pedacinhos de coisas que são memórias, que são minha íntima história? E vão se acumulando, fora de lugar sempre. Talvez eu estabeleça uma caixa que expresse essas experiências condensadas nos objetos. Para depois de retirá-los todos dos espaços da casa onde estavam esparramados, possa eu sentir um ar de limpeza, clean... Aquela sensação de organização que motiva a uma outra atitude mais consciente e clara. Só não posso me lembrar que eu tinha que arrumar a caixa também, com tudo dentro. O que parece ser impossível, tendo que conviver com este paradoxo. O problema foi eu descobrir que nossa alma é um entulho. Entulho de memória, cheia de pedaços de experiências, de momentos interrompidos ou com alguma completude. Afinal, como diria Fuganti, nossa civilização ocidental foi construída a partir de pedaços. Pedaços de pergaminhos, litogravuras, de idéias, de verdades e mentiras... Somos um entulho. Melhor, nem isso. Somos uma carroça que carrega esse entulho. Mas ninguém disse que não poderíamos descarregar, jogar fora, diminuir o peso... E sim, escrever é como botar pra fora... tornar-se mais leve :)
ReplyDeleteQue surpresa receber seu comentário, na verdade uma outra crônica! É sempre um diálogo necessário, o que nos toca e o que nos impele para escrever. E lixo é lixo, precisamos aparar as nossas arestas. Obrigada pela sua leitura e visita. E por seu texto.
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