Showing posts with label mãe. Show all posts
Showing posts with label mãe. Show all posts

29 July 2026

“ou numa casinha de sapê”

“Juju, eu sou da geração baby boom”. 

Dizia ela, toda orgulhosa. 

“Eu digo “alǒ” quando alguém me liga, mesmo sabendo quem está do outro lado. É que eu sou das antigas, minha irmã.”

“Ok, Ana. Mas tenta se ligar que estamos em 2017!!”

E por falar em hábitos, ela amava o toque que escolheu para o celular, que por sinal era bem irritante… imagina você estar num café ou num salão de beleza, e uma música do kid abelha tocar insistentemente, até a dona do aparelho encontrar o telefone dentro da bolsa que está longe do seu alcance?

São dois momentos marcantes, memoráveis: ela me dizer alô ao me atender e Paula Toller ressurgir de cinco em cinco minutos, quebrando o silêncio entre nós e mais um monte de gente à nossa volta.

Ana não gostava muito de mensagens instantâneas. Ela aprendeu a fazer áudios, só que longos… a voz dela, nossa, que voz surreal! Eu já disse aqui antes que eu não suportei guardar as mensagens dela, nem as escritas e muito menos as faladas.

Mas a música de kid abelha continua muito viva. E vou ao show da turnê da banda e sei que não vou segurar as lágrimas. 

Vou repetir o refrão e vou cantar pra você, com toda a minha saudade e ar dos meus pulmões. Vou lembrar da gente discutindo bobagens, ou rindo de bobagens, da gente chorando ou se abraçando e pedindo desculpas uma pra outra.

Vou ficar tentando, a vida toda (isso eu aposto), guardar pedaços de você pra sempre nessas coisas tão simples e humanas que vivenciamos juntas. Você é a minha irmãzinha que partiu desse mundo, cedo demais, sem minha permissão. 

Só queria que você tivesse a certeza de que você continuará sendo a modelo mais perfeita de toda a geração baby boom. Quanto a mim, eu queria muito ouvir e reclamar do toque do seu celular e atender o seu “alô” curioso “na rua, na chuva e na fazenda...”

4 July 2026

8 e o infinito

Não era pra escrever hoje. Já tinha prometido pra mim mesma que iria esquecer essa data fatídica. Mas eu não consigo esquecer o dia 4 de julho, porque foi o dia que perdi a esperança de te reencontrar em vida. 
8 anos passaram rápido. Pra muitos. Pra mim passaram devagar. A dor que sinto é lenta. Parece não ter a menor pressa de ir embora. 
A saudade, por sua vez, cresce ligeira, como se soubesse que eu tento seguir em frente como a maioria das pessoas faz. Mas nunca fui assim. 
Eu te deixei ir? Você sabe, amiga, que nunca tive intenção de te prender. “O amor só dura em liberdade” como musicou Raul Seixas. E acredito nesse verso e na potência que é deixar ir o amor e perceber ele voltar com mais força ainda.
Eu não estudei o espiritismo. Ainda não, mas pretendo. As cartas que te escrevo são um alento pra esse coração que só se acalma quando sente que você está me lendo. Aliás, você era a amiga que lia meus pensamentos. Como não haveria de me ler na concretude das palavras?
São 8 anos tentando esse diálogo. Mas a sua voz não chega até a mim. Eu não consegui guardar seus áudios. Tive medo de enlouquecer. Não consegui preservar nossas conversas pelo WhatsApp. Vez ou outra vejo alguma memória com imagens e conversas aleatórias no Facebook, que você tanto gostava de alimentar. E às vezes também odiava. Ana sendo Ana. 
Se 8 simboliza o infinito, estou aqui tentando decifrar se você já é infinito. Ou se o meu amor por você já virou infinitude. Ou as duas coisas.
A planta que você me deu continua viva e alimentada. Está na entrada da minha casa. E sempre olho pra ela antes de entrar ou antes de sair. Você é infinitamente inesquecível, amiga e irmã. Não me esquece. Me mande um “oi Juju” nos sonhos. 


10 May 2026

a relação perfeita

Eu amo refletir em datas importantes como a de hoje,  o (especial) dia das mães. Não que uma mãe deixe de ser mãe nos demais dias. Isso é outro papo. 

Amo refletir porque eu penso que é sempre um bom momento para que as pessoas se voltem para também refletirem sobre o assunto. 

O que é ser uma boa mãe? Isso remete a outra pergunta: e o que é ser um bom filho?

Não é possível pensar sobre o que é ser uma boa mãe sem pensar sobre o papel do filho nesse jogo. 

E se a gente concorda que ser presente, estar presente, ou querer ser presente e querer ser presente, é o que garante que mães e filhos se entendam e também se estranhem, podemos concluir que é muito comum que quem está distante, por escolha ou não, que só “mora” na fantasia, pode ser lido ou visto como perfeito. 

E é aí que nasce um novo problema, o de romantizar. Aliás, romantizar relações amorosas é sempre um problema. Porque a realidade é muito mais complexa e dura, muitas vezes.

Amar uma pessoa em todas as suas versões, com as qualidades e os defeitos, só é possível na presença, na convivência, na tal história de comer uma saca de sal juntos. 

Conviver é trabalhoso. Mas não é o caso de cobrar perfeição porque nunca deveríamos buscar por perfeição. Porque a realidade nua e crua nos conduz sempre a aceitarmos que por sermos imperfeitos, podemos nos melhorar como seres humanos e somente o amor verdadeiro, construído na presença, pode ajudar a moldar relações saudáveis e lindas entre mãe e filho.

Que esse dia seja um dia de abraçar a nossa mãe, aquela que é presente por vontade, para além da burocracia. E que ela encontre no abraço do filho, o mesmo compromisso, o de estar presente por amor e cuidado, nunca porque é o segundo domingo de maio, marcado como especial no calendário inventado pelo comércio. 

Feliz dia das mães presentes e perfeitas por serem presentes! Feliz dia para essas mães, que também tem filhos presentes e perfeitos por serem presentes!