Eu amo o verbo mudar. Gosto de observar a mudança de uma estação, da mudança das fases da lua, das marés, do dia pra noite. O por do sol me dá sempre uma sensação de despedida. E quando vejo de repente um arco-íris no céu, vejo também a promessa de uma surpresa a caminho.
Mudar o estado das coisas externas quase que independe da nossa vontade. A gente pode acompanhar a mudança e se alegrar com uma grama verde depois da chuva bem-vinda ou lamentar o estrago nas periferias, de um mau tempo, em todos os sentidos.
Já escrevi sobre as mudanças de CEP. Não, eu não gosto de caixas de papelões. Não gosto de ver nada fora do lugar, precisando de minha ação para colocar cada item no local adequado. Claro que é um prazer imensurável quando a gente arruma um novo canto e fica ali admirando a perfeição da estética do nosso lar.
Mas o preço é sempre alto quando a gente muda de casa? O recomeço de vida num novo espaço é tão ruim assim? Aí depende de quem se muda e com quem. Como eu já passei por experiências sozinha e a dois, eu tenho que concordar que fazer junto é muito mais gostoso. Tudo, aliás. Do café da manhã ao apagar da última lâmpada, há sim, muito encantamento em morar (e sonhar) junto.
Romantismos à parte, o dia-a-dia é tarefa complexa. O fazer doméstico não dá trégua nem quando estamos tristinhos, querendo desaparecer por uns dias. A louça não deixa. Os boletos não deixam. O tempo não deixa. O coração não deixa. O mundo real tem que sobreviver, apesar das nossas mudanças internas e, sobretudo, por causa delas.
Ter consciência do que é preciso mudar, já é meio caminho andado. Precisamos da outra metade. Da nossa força de vontade, do nosso amor próprio, da nossa constância. Precisamos não desistir de nós. Precisamos alimentar o autocuidado em pequenos gestos como rejeitar, por exemplo, o alimento que não alimenta e insistir na atividade física diária, ainda que o corpo queira cama, o burburinho dos memes e tretas nas redes sociais ou o controle da TV.
Mudar exige dedicação e propósito. Outro dia li que essa palavra "propósito" é insuportável e deveria ser eliminada. Ok. O propósito poder ser não usar mais a palavra propósito. Vamos ver se consigo. Eu dizia pra Ana que ela precisava ter um projeto de vida, para além da mesmice dos seus dias. Ela me escutava atenta e ficou um tempo encabulada sobre o que deveria fazer pra mudar sua existência. O fígado dela parou de funcionar e minha amiga não pôde realizar o sonho de ver sua vida transformada. Eu sinto muito por ela, por mim, que também fiquei engasgada com a sua partida. Até hoje estou.
Eu mudei muito desde 5 de julho de 2018 quando Ana partiu e me deixou com esse engasgo que sinto ao escrever agora. Mudei sob muitos aspectos, para além do código de endereço postal. Mudei de rumo, de universidade, de rotina, de hábitos alimentares. Mudei como profissional. Mudei como professora. Mudei como amiga. Mudei como filha e como irmã. Mudei como tia. Acho até que mudei como mulher. Será que mudei mesmo? E foi o suficiente? Quais mudanças me esperam na curva ali adiante?
Eu espero mudar muito mais. Espero conseguir parar de repetir padrões ou os mesmos erros. Espero mudar de endereço quando sentir que aqui já não me cabe mais.
Espero viver outra relação amorosa, viver outra experiência a dois, quem sabe dentro de uma mesma casa. Mas calma, ainda não sei se quero de novo, mas tomara que eu consiga viver uma nova parceria, que seja tão boa, que me faça querer levantar sem preguiça e sem reclamar, para apagar a última lâmpada acesa e voltar correndo para sorrir no escuro.
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