2 June 2026

mais um, do nosso jeito

Nem acreditei no seu telefonema, às duas da tarde de uma quinta-feira insossa. Mas ligou e eu amei ouvir sua voz, forte, que reconheceria mesmo se estivesse em outro planeta.

O tempo passou muito rápido, aliás, passou devagar. Vagaroso tempo que me afasta dos seus olhos. E, do nada, ou por tudo que vivenciamos, nos encontramos num cruzamento. 

Eu indo, ele vindo, na mesma rua, em direções opostas. Nem em sonhos imaginei uma cena tão romântica. E conosco, parece brincadeira, tudo beira o romantismo, até o limite da minha imaginação.

E quando nos reencontramos, quando ele tocou a minha mão, tive medo de que ouvisse o meu grito interno de alegria, ou que percebesse a minha aflição, ou que entendesse o quanto a presença dele me deixava tonta, sem eira, nem beira.

Eternizados, por dez minutos. Se o tempo parasse, saberia que não esqueci nada, que nada mudou, nem meu sentimento, nem meu desejo, nem minha esperança de um novo reencontro, um novo momento pra nós dois.

E meu olhar procurou o dele. Fugi. Fugi de mim, até. Me senti incomodada com a roupa, com a maquiagem, com o esmalte descascado. Se soubesse que iria encontrá-lo, assim, do nada, teria me produzido, teria tentado ficar irresistível, sedutora, encantadora.

Mas, não. Estava com a típica "cara pálida de quem ia pro trabalho, a contragosto". Deixar ele, ali, naquele lugar movimentado, quando tudo que me transmite é calmaria, foi um horror, um pesadelo, um acontecimento quase desumano, de tão ruim. Queria permanecer pra sempre ao lado dele. Perto, perto daqueles olhos. 

Descobri que sua falta me paralisa, me enlouquece. E que sua presença me enche de vida, de vontade, de alegria. Na tarde insossa, cheguei ao trabalho radiante, iluminada, como se tivesse me produzido para encantar alguém, às duas, num cruzamento de ruas e avenidas. Um encontro extraordinário. 

P.S: por falar no dia 12, esse conto foi escrito por mim, em 12 de setembro de 2011 e publicado num blog que nem existe mais... resgatei de um e-mail e deixo aqui como uma memória linda, da minha porção romântica que já está indo embora, com os percalços e desilusões da vida.

8 comments:

  1. Parabéns. Você captura com delicadeza aquele instante raro em que um encontro de poucos minutos consegue suspender o tempo e devolver à memória sentimentos que pareciam adormecidos.

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    1. Obrigad, Paul, pela sua leitura e generosidade nos elogios! Abraços querido

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  2. Que espetáculo!!Escandalosamente escreve por sabe!Como não se apaixonar, sonhar e enamorar um conto tão real ! Você faz a gente voltar o tempo!

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    1. Que alegria receber esse retorno tão bom de algo que escrevi a quase 15 anos atrás! Obrigada!

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  3. Parabens pela poesia fazia tempo que lia algo romantico...me fez lembrar o quanto e bom gostar, sentir, perceber-se desajeitado. A sensação de perceber, emoções, sentir-se desconfortável na ausencia, um vicio feiticeiro, capaz de controlar o tempo.

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    1. Muito obrigada por me ler e gostar de como escrevo!

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  4. Porção romântica que está indo embora??? Pois trate de resgatar porque este é um indício de que este romantismo ainda mora por aí 🥰

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