7 June 2026

e isso é só o começo

Eu respeito muito o processo do luto. Seja o luto que vivo em mim ou o luto em alguém que eu amo ou que me importo muito, que é praticamente a mesma coisa, já que só me importo muito com quem amo. Não que eu não me importe com as outras pessoas que não amo. 

Ser empática não indica, por exemplo, que eu ame aleatoriamente. Só significa que consigo me colocar no lugar do outro e que consigo perceber sua perspectiva, seu sofrimento ou sua dor.

A empatia é um sentimento que nos impulsiona a sermos mais humanos. Cultivar a nossa empatia é sempre mais interessante do que alimentarmos a nossa indiferença porque ser indiferente ao que alguém passa ou sente, vai retirando de nós a nossa humanidade, a nossa possibilidade de transformar indignação em uma forma de luta.

Luto e luta. O movimento desses dois artigos que muda o sentido de cada uma dessas palavras é também uma forma análoga de revertemos tristeza em força. De um estado depressivo em alerta. Quem morre deveria sempre nos impulsionar a lutar pela vida de quem fica. A nossa vida e a vida dos nossos. 

Mas nem sempre o luto se transforma em luta. Muitos declinam. Tem até aquela estranha e mórbida conclusão de que quem morre nos mata um pouquinho a cada dia, porque uma porção nossa vai embora junto. Mas e se pensarmos na porção que fica? Não seria melhor reunirmos nossas forças que restam para vencermos a dor e lutarmos por mais vida, mais prazer, mais alegria?

Parece egoísmo? Parece frieza? Parece descaso com quem partiu ou parece respeito e muito amor, a ponto de optar viver com mais vontade ou até com mais urgência?

Mas é preciso que eu diga que eu não tenho essas respostas. Esse exercício que faço na escrita, é mais um de muitos outros que ainda virão, pensando nos lutos que já enfrentei e enfrento para recalcular a minha rota para guiar as muitas lutas que já enfrento ou aquelas que terei que enfrentar no futuro.

Estar vivo é (de fato) uma celebração diária, por segundo. Não deveríamos lidar com a (nossa) vida como se estivéssemos preparando o caminho para a nossa morte. Há quem compre lápides ou preparem o funeral bem antes da véspera. É um jeito prático de agir, mas não considero nada prazeroso acelerarmos essa conversa sobre nosso fim que sem dúvida é a única certeza da vida que temos. 

Mas no intervalo, enquanto vivemos, precisamos enfrentar nossos medos, nossas próprias sombras e repensar as nossas escolhas enquanto ainda estamos por aqui. Seja para honrar os que já partiram antes de nós, seja para lutarmos em tempo pela nossas próprias missões, nossos projetos e sonhos inacabados. 

Todo dia é um dia de luta  para quem decide aproveitar a vida e o tempo que vai desaparecendo e sem compromisso de “zerar” para recomeçarmos de onde estacionamos. 

Cada parada que fazemos, por decidirmos “dar um tempo”, “deixar a vida nos levar”, é uma escolha infeliz. Escolher não se responsabilizar pelo tempo perdido pode ser um caminho perfeito para a procrastinação.

E como lutar sem forças? Como lutar pela vida estando em luto, com muita saudade de quem partiu? Como lutar para encontrar novos sentidos, novos motivos pra sorrir? Como se refazer de dores e festejar a vida? Como guardar na memória apenas o que foi bom? Qual é a virada de chave para perceber que a vida ainda presta, mesmo sem a presença de alguém que nos importamos muito? 

"Meu amor, o que você faria, se só lhe restasse esse dia?" Paulinho Moska, acertou (em cheio) na mosca. Vamos pensar sobre o que faríamos? Com quem passaríamos o último dia? Onde? Aproveitando como!?

E, por fim, quando o fim chegou numa relação... como se luta para viver bem (e melhor) sem alguém que, embora esteja vivo, prefere seguir sem a nossa presença? 

Os enterros simbólicos são sempre bem-vindos. Estou na posição de dar conselhos sobre o assunto.  Acenda uma vela. Faça orações. Converse com Deus! Mentalize com seus santos ou orixás. Peça por mais esse livramento. Dê seus pulos! Valorizemos a nossa existência! Cuidemos-nós! Ainda dá tempo!

E escrever também salva alguns dias mais sombrios. Também faço áudios pra mim mesma. Ao menos pra mim tem me ajudado a enfrentar todos os meus lutos e reinventar as minhas novas lutas. 

7 comments:

  1. Uma reflexão corajosa e necessária. Excelente artigo!

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  2. Do luto à luta, pq aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós. O reencontro é certo.

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  3. Através da sua leitura despertou em mim a necessidade de vivermos o luto ,seja ele em que contexto for, de forma de leveza, aprendizagem e crescimento para o próximo nível espiritual, físico.

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  4. Que texto profundo e reflexivo!!

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  5. Obrigada, Ju! Nem sempre as experiências são tão exatas. Muitas vezes luto e luta se misturam, e pra mim esse o tempero da vida. Não ter o controle de tudo nos faz compreender a nossa frágil realidade. 👏🏽👏🏽👏🏽

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  6. Profunda e necessaria reflexao. Obrigada por isso, Ju.

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  7. Maravilha Ju!
    Merece um livro. Juntar tudo e publicar!

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